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Ovar: “CANTAR OS REIS” cumpriu a tradição

A secular tradição do Cantar os Reis em Ovar, que em cada ano reúne em saudável espirito reiseiro várias centenas de participantes de diferentes gerações, que assim vão, numa já longa caminhada, prosseguindo e consolidando uma particularidade muito caraterística desta terra ovarense, que um punhado de veteranos reiseiros decisivamente contribuíram para que o Cantar os Reis assumisse um elevado cunho cultural, garantindo assim a continuidade já na época, de uma tradição que vinha ao sabor popular e religioso durante muitos anos atrás.

Durante várias décadas, devotados reiseiros alimentaram esta tradição, que se foi apurando e impulsionando com a formação de troupes de reis que se iam sucedendo na linha de afirmação e da influência, entretanto deixada por animadores reiseiros, como, Alves Cerqueira ou António Dias Simões, que reconhecidamente, determinaram o caminho a seguir, tanto no instrumental, como na particular espontaneidade da composição das letras, que enriquecia o nível artístico desta tradição.

Reiseiros JOC-LoC
Reiseiros JOC-LoC

O persistente caminho que hoje continua a ser feito por troupes que resistem ao tempo, como a JOC-LOC, Orfeão de Ovar, Ovarense ou mesmo a Ribeira e a Juventude & Tradição que faz juz ao próprio nome desta troupe de jovens que indiscutivelmente se destacam na preservação do legado de Alves Cerqueira, António Dias Simões ou Artur Nábia, mais tarde seguidos por, Maria Amélia Dias Simões, António Manuel Reis Cruz, Honório Resende, Edwiges Helena Pacheco, Zé da Vesga ou Luísa Resende, que ainda é responsável pelas letras da Troupe de Reis da Ribeira.

Autores de letras e músicas, entre tantas outras figuras reiseiras que fazem parte da história do típico Cantar os Reis em Ovar, a quem velhos e jovens reiseiros, que entrelaçam diferentes gerações e assim continuam a garantir o futuro da tradição, prestam-lhes uma coletiva evocação nestas noites do Cantas os Reis em Ovar que a Câmara Municipal candidatou a património cultural imaterial, que se desenvolve a bom ritmo.

É pois, com todo este legado de um património cultural, que nas últimas décadas vêm sendo preservado e difundido por troupes de reis que se consolidam com as suas próprias especificidades, neste Cantar os Reis, que a época reiseira no concelho de Ovar se transforma num inconfundível palco de atividades e participação cultural, de solidariedade, confraternização e convívio interjecional.

Uma partilha de amor e paixão por uma tradição, que, ainda que pontualmente descaraterizada, por uma ou outra troupe, todo este movimento em prol da cultura reiseira, reforça laços desde tenra idade, como as troupes infantis que acabam por ser também um meio de formação de reiseiros que mais tarde contribuem para engrossar as dos adultos.

Reiseiros: Bombeiros Voluntários de Ovar
Reiseiros: Bombeiros Voluntários de Ovar

Com roteiros mais ou menos comuns às várias troupes, como as visitas a casas familiares, ainda que com menor frequência nos últimos anos, cafés e restaurantes, coletividades ou instituições. São já vários os encontros reiseiros organizados por diferentes entidades em todo o conselho, que proporcionam às populações locais uma melhor oportunidade de ainda antes do habitual dia 6 de Reis, como ponto alto de Noite de Reis, poderem ver e ouvir as várias troupes de reis que já alguns anos passaram a incluir nos seus roteiros de saídas, este tipo de encontros que foram surgindo como uma novidade neste ritmo alucinante das troupes de reis durante noites frias, e este ano, sobretudo chuvosas.

Um destes novos encontros ou noites de reis, que se têm tornando familiares com espaço próprio na tradição, vem acontecendo na Escola Secundária José Macedo Fragateiro (Sede do Agrupamento de Escolas de Ovar), cuja comunidade educativa que representa, assume particular preponderância na dinâmica do Cantar os Reis, desde logo na sua promoção ao nível das escolas do ensino básico, como o exemplo da EB Oliveirinha, cuja troupe de reis infantil abriu a noite de reis neste encontro realizado na Escola que em edições anteriores tem aberto as portas às principais troupes da cidade. Foi, aliás neste encontro reiseiro na Escola, que registamos a intervenção das várias troupes de reis.

Homenagem ao reiseiro Américo Oliveira

Marcaram o Cantar os Reis de 2016 o lançamento da Revista “Reis” que vai na sua 50.ª edição, uma iniciativa da Troupe JOC-LOC que vem sistematizando muitas memórias sobre o património cultural que representa a tradição reiseira. Como curiosidade destacou-se também o fato de a Troupe de Reis Ovarense este ano ter decidido cantar na saudação, mensagem e despedida, letras adaptadas desta antiga troupe, dos anos de 1977 e 1980. Já a Troupe B.V.O. assinalou os 120 anos da Associação Humanitária ao serviço da população.

Seria no entanto a Troupe do Orfeão de Ovar que marcaria de forma muito emotiva estas noites de reis, ao aliar à tradição uma sentida homenagem ao falecido reiseiro Américo Oliveira, que durante uma vida se dedicou à tradição reiseira e ao Orfeão de Ovar. No agradecimento desta também antiga Troupe de Reis, foi evocada a memória de Américo Oliveira através da letra “Olé Catapum”, que a figura reiseira lembrada, então como solista, tinha cantado em 1978.

Um poema de Maria Amélia Dias Simões, que no final dizia, “Vamos, tudo à par, vos queremos saudar / Todos, um por um! (Olá!) Olé! Catapum!”. Este momento inédito na tradição reiseira, ficou sobretudo marcado pela introdução de uma quarta letra, em que, esta Troupe dedicou mais uma singela homenagem ao seu carismático reiseiro Américo Oliveira, que deixou filhos e netos como seguidores, a quem coube darem voz ao poema de António Redes Cruz, “Para qualquer um de nós” (in memoriam).

Quem parte, leva saudades

daqueles que mais amou.

Da família, dos amigos

e de quanto mais gostou.

De amor’s d’agora, de amor’s antigos,

consigo, leva as saudades!

Quem fica, saudades tem

de quem, cansado abalou!

Sempre iremos ser mendigos

da saudade que legou…

Sofrer ausências, supõe castigos!

Carpir saudades, também!

Texto e fotos: José Lopes (*)

(*) Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar – Aveiro

01fev16

 

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