Menu Fechar

Dona Antónia Adelaide Ferreira, a “Ferreirinha” (1811-1896)

Antónia Adelaide Ferreira, mais conhecida por “a Ferreirinha”, tal como era carinhosamente tratada, nasceu em Godim, Peso da Régua, em 1811, numa família muito abastada, proprietária de vinhas, no Douro.

Era filha de José Bernardo Ferreira que a casou com o primo direito, António Bernardo Ferreira, com a intenção de que a grande fortuna que a família possuía permanecesse “dentro de portas” mas, este jovem sempre se mostrou pouco interessado pelas terras e pela cultura da vinha e, aquilo que mais fez na vida foi desbaratar o dinheiro amealhado pelos seus.

Largo da Trindade (Porto)
Largo da Trindade (Porto)

Enquanto D. Adelaide levava uma vida simples, mais virada para o mundo rural, sempre dedicada às suas vinhas, as quais percorrida e vigiava de perto para que fossem bem cuidadas pelos seus trabalhadores, ao contrário, seu marido, mais citadino, viajava, divertia-se e rodeava-se de todos os luxos e extravagâncias. Ficou célebre o faustoso palácio, mandado construir, no Porto, por António Bernardo, na zona da Trindade, junto ao Largo do Laranjal, aproximadamente no local onde, mais tarde, foi construído o edifício que ficou conhecido por Palácio dos Correios.

Esse magnífico palácio de D. Antónia estava equipado com o melhor que na época existia, decorado com mobiliário comprado em Londres, possuindo no seu interior um teatro e uma das maiores bibliotecas privadas da época. Mas, a vida devassa que António Bernardo levava, trouxe-lhe a sífilis e a morte prematura, aos 32 anos.

Casa da Ferreirinha no Porto. Photo Guedes
Casa da Ferreirinha no Porto. Photo Guedes

Antónia ficou viúva com dois filhos e um património sobrecarregado de hipotecas. No entanto, não esmoreceu a sua coragem, pois enfrentou as dificuldades com trabalho e muita determinação.

A “Ferreirinha” foi conseguindo ultrapassar diversos problemas, como pagar as muitas dívidas que tinha, ou como combater as moléstias (pragas e doenças) responsáveis pela diminuição da produção de vinho, as quais foram, sucessivamente atacando a vinha: o oídio (1851), o míldio (1853), a filoxera (1867)…

Sempre ajudada pelo enorme apoio do secretário/administrador José da Silva Torres, com quem viria a casar em segundas núpcias, foi introduzindo importantes inovações nesta actividade agrícola e investindo em novas plantações, sobretudo em zonas mais expostas ao sol. Este aturado esforço, a par de obras que pudessem beneficiar toda a produção vinhateira, foi-se concretizando-se na compra de novas quintas para alargar o cultivo da vinha, tornando o seu império fundiário muito vasto.

Chegou a possuir mais de duas dezenas de propriedades, no Douro, entre as quais as de Travassos, Mileu, Nogueiras, Granja, Boavista, Aciprestes, Vila Maior, Vesúvio, Valado, Monte Meão, Arnoselo,…

Ferreirinha quando era nova
Ferreirinha quando era nova

Esta empresária vinhateira mostrou-se uma notável impulsionadora do desenvolvimento da região do Douro, sabendo vencer muitos infortúnios com que se foi defrontando, tais como os episódios que muito a perturbaram nomeadamente, quando o duque de Saldanha, chefe do governo de Sua Majestade, cobiçando a grande fortuna desta mulher, pretendia casar o seu filho com a filha de D. Antónia, uma criança de apenas doze anos, recusando a mãe esse casamento ou, então, quando se deu o episódio do naufrágio do barco onde seguia, na zona do Cachão da Valeira e assistiu à morte do seu grande amigo, o Barão de Forrester.

Apesar das crises económicas por que passou e dos maus anos agrícolas que tudo arrasaram, D. Antónia nunca colocou de parte o seu lado mais humano, lutando sempre pelos mais necessitados, nunca abandonando a ajuda dada aos seus trabalhadores e a muitas famílias com dificuldades – exerceu uma acção filantrópica louvável, sendo benemérita de gente simples e trabalhadora e de várias instituições (asilos, hospitais, misericórdias, bombeiros,…).

Dona de um vasto património, esta personagem mítica do Douro vinhateiro, faleceu há 120 anos, a 26 de Março de 1896, com 85 anos, na sua Casa das Nogueiras (Quinta das Nogueiras), no Peso da Régua.

Na notícia do seu falecimento o jornal “O Primeiro de Janeiro” referia que partira a “«mãe dos pobres», como lhe chamavam na sua linguagem simples a gente do povo”.

Todo o país se reverenciava perante a perda de uma grande empresária vinhateira que tinha estado sempre ao lado do povo. A família real, o núncio apostólico e outras altas entidades, todos lhe prestaram homenagem, desde o envio de condolências, até ao cortejo fúnebre que foi acompanhado por 95 padres e por milhares de pessoas que formavam uma barreira humana, ao longo de quatro quilómetros, até ao cemitério da Régua.

Os jornais do Porto relataram que, à passagem do féretro, homens e mulheres se ajoelhavam perante aquela que consideravam uma protectora, prestando “a última homenagem do seu respeito à nobilíssima dama que fora mãe carinhosa de tantos desgraçados aflitos”.

 Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: Pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01mar16

 

1 Comment

  1. Ana Paula Jesus

    Que grande mulher que não teve medo e enfrentou decidida a fazer-se ouvir, num mundo predominantemente masculino. Teve 2 filhos que não fizeram jus à coragem, determinação, vontade e até aos fim da sua vida amou as suas vinhas e lutou lado a lado com os seus trabalhadores. Mulher que não se coibia de dizer o que pensava e várias vezes chamou-lhe de covarde e preguiçoso ao governador de Portugal. Era uma pessoa muito respeitada e ajudava monetariamente e financiava os seus estudos a quem precisava. Fiquei fã desta mulher que desafiou tudo e todos, para que as suas vinhas não caíssem para o lado dos ingleses.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.