Menu Fechar

Os cem anos da Avenida dos Aliados (Porto)

Maximina Girão Ribeiro

No ano em que se comemoram os 100 anos do início da abertura da Avenida dos Aliados, não poderia este jornal ficar indiferente a um acontecimento que marcou o Porto e as suas gentes por que, a construção desta importante via, trouxe profundas alterações na malha urbana e arrastou consigo consequências, quase todas muito positivas e, outras, nem por isso…

avenida dos aliados - 00

A zona onde viria a ser implantada a avenida era um emaranhado de velho casario por entre ruelas, vielas, quintais, hortas, fontes e lavadouros. Ao longo da segunda metade do século XIX, o centro das actividades comerciais e cívicas da cidade foi-se, progressivamente, deslocando das praças da Ribeira e do Infante para a Praça de D. Pedro. Por isso, desde os finais da monarquia, talvez por volta de 1884, que já se pensava em profundas alterações nesta zona da cidade mas, foi durante a 1ª República, que se deu o primeiro passo do arranque da grande obra, quando a Câmara tinha a sua primeira vereação republicana da cidade do Porto, eleita por sufrágio universal, em 1914.

Praça de D. Pedro com os Paços do Concelho
Praça de D. Pedro com os Paços do Concelho

A planificação desta obra foi encomendada, em 1915, ao arquitecto britânico Barry Parker (1867-1947) com o objetivo de se criar uma ampla avenida, dignificante e representativa do novo espírito, nascido com a implantação da República

Para dar a respectiva solenidade ao início deste projecto grandioso, esteve presente o então Presidente da República, Dr. Bernardino Machado, no dia 1 de Fevereiro de 1916, que desmoronou, simbolicamente, a primeira pedra do palacete da Praça D. Pedro (hoje da Liberdade), onde estava instalada a Câmara Municipal, da época, no Palacete Meireles Moreira.

Havendo algumas dissidências entre os arquitectos Marques da Silva e Barry Parker, quanto ao local de edificação da nova sede da CMP, optou este último por apresentar três variantes para a colocação do referido edifício, vindo a concretizar-se a implantação deste, no topo norte da avenida ocultando, por completo, a Igreja da Trindade.

A concretização desta obra que fez nascer um verdadeiro centro cívico e terciário, na cidade do Porto, foi um trabalho demorado, durante longos anos, até 1957, ou seja, até à conclusão da construção do edifício que alberga hoje os Paços do Concelho que, com toda a sua imponência arquitectónica, simboliza o poder político, social e económico desta cidade.

Ao longo dos anos, por aqui se foram instalando serviços quer do Estado (CGD, Banco de Portugal )… como privados (clínicas, consultórios médicos, seguradora …), também muito comércio por aqui existiu, além dos mais importantes Jornais do Porto, bem como cafés, muitos dos quais já desaparecidos, mas todos importantes na História da cidade, por terem sido sempre pontos de reunião, de tertúlia e de veiculação de ideias e conhecimentos. A Avenida dos Aliados afirmava-se, assim, não só como centro de negócios e comércio, mas também como o centro nevrálgico das notícias da região.

Desenho de Joaquim Cardoso Villanova - Casa da Câmara
Desenho de Joaquim Cardoso Villanova – Casa da Câmara

Para que nascesse a Avenida dos Aliados (nome dado como homenagem aos países aliados na 1.ª Guerra Mundial em que, sofridamente, Portugal participou), foi preciso rasgar o terreno, fazendo desaparecer alguns arruamentos e desmantelando muitos edifícios. A zona correspondente ao Bairro do Laranjal, onde se vivia no meio de uma enorme insalubridade, sem saneamento, ou condições mínimas de higiene, foi arrasado.

À custa de sucessivas demolições nascia, assim, uma avenida larga, moderna, ladeada por imponentes edifícios e com duas grandes praças, a de D. Pedro (da Liberdade) e a de Almeida Garrett, junto à Câmara actual havendo, por de trás desta, uma terceira, a da Trindade.

No local onde, actualmente, se encontra a Praça de Almeida Garrett juntavam-se dois ribeiros — um, que nascia na zona do actual Marquês, descia pela Quinta do Laranjal e passava pelo antigo Campo das Hortas (actual Praça da Liberdade) e outro, que tinha a sua origem nas elevações da Fontinha, descia pelo actual Mercado do Bolhão, onde se lhe juntavam as águas de um pequeno ribeiro que descia pela actual Rua de Sá da Bandeira. Os dois ribeiros formavam, depois, o rio da Vila que continuava o seu percurso por onde hoje estão as ruas de Mouzinho da Silveira e de São João, desaguando no rio Douro, junto da Praça da Ribeira.

As profundas alterações efectuadas com a abertura da Avenida fizeram desaparecer muito património, nomeadamente o que vamos mencionar: A fonte do Laranjal que esteve localizada, inicialmente, no entroncamento com a rua da Cancela Velha e que teve de ser retirada do seu local original para ficar esquecida nos Jardins das Águas (SMAS), em Nova Sintra sendo, mais tarde, colocada atrás da Câmara, na Praça da Trindade.

Capela dos Reis Magos
Capela dos Reis Magos

Também a Capela dos Reis Magos ou dos Três Reis Magos foi desmantelada. Era um pequeno templo privado que, embora fizesse parte do palacete onde funcionou a antiga CMP, mas como tinha abertura para a rua, podia ser frequentada pelo público. As pedras desta capela foram compradas e deslocadas, em carros de bois, para a localidade de Pocariça (em Cantanhede, perto de Coimbra), onde foi reedificada, podendo ainda ser admirada. Nesta localidade é conhecida por capela de S. Tomé e, embora esta zona seja predominantemente calcária, o granito da frontaria da capela fará sempre relembrar a sua origem nortenha.

A demolição do Palacete Meireles Moreira, o qual se situava aproximadamente onde hoje funciona o Banco de Portugal, implicou o desaparecimento de uma obra com características barrocas e levou também ao apeamento da estátua do guerreiro Porto, símbolo do espírito aguerrido dos tripeiros, esculpida por João Silva, em 1817 (ano em que a CMP começou a ocupar o velho edifício). A figura garbosa do guerreiro que representa o Porto andou deslocada durante muitos anos, por vários locais da cidade, vindo de novo a ser colocada no chão da Praça da Liberdade, muito perto do local primitivo onde tinha estado inicialmente.

Para lá de muitas outras perdas patrimoniais, surgiram também alguns “desvios” que se traduziram em desenquadramentos ou desequilíbrios arquitectónicos, como é o caso do prédio que surgiu nos anos 70 do séc. XX, preenchendo o local onde se tinham feito grandes demolições. Assim nasceu o denominado “Palácio dos Correios”, edifício de linhas modernas que marca uma ruptura na unidade estética da Avenida.

Apesar dos “desequilíbrios”, o conjunto arquitectónico é magnífico na sua grandeza granítica, possuindo edifícios criados por grandes arquitectos, como Marques da Silva, Correia da Silva (colaborador de Barry Parker) Carlos Ramos, Oliveira Ferreira (autor do edifício do Clube dos Fenianos), Pardal Monteiro (autor do edifício da CGD), Rogério de Azevedo, Júlio de Brito, Viana de Lima, entre muitos outros.

avenida dos aliados - 04

O espaço também está enriquecido pela estatuária existente, com peças como a Juventude, mais conhecida por “menina nua”(1929), de Henrique Moreira, ou “Os meninos” escultura em bronze dourado do mesmo autor (1932), ou a estátua de Almeida Garrett da autoria de Barata Feyo (pai).

A extraordinária largueza desta avenida proporciona uma considerável entrada de luz, que a torna brilhante, aprazível, no meio do granito dos seus edifícios, muitos deles decorados com elementos arquitectónicos em destaque, como as cúpulas, os lanternins e os coruchéus e, nos edifícios em gaveto, têm as duas fachadas rematadas com torreões que se destacam da volumetria das restantes fachadas, dando a esta “sala de visitas” da cidade um requinte e uma personalidade muito forte.

Depois de muitas resistências e desagrados, críticas e mais críticas, a cidade acabou por aceitar as modificações e agradecer a ideia de abrir uma avenida, atribuindo à rua que liga a Praça D. Filipa de Lencastre à Avenida o nome de Elísio de Melo, o vereador da Câmara do Porto que teve a iniciativa da construção dos Aliados que é, até aos dias de hoje, o lugar de todas as manifestações, onde se festejam momentos especiais, sendo de cada um dos portuenses e daqueles que nos visitam, um pedaço da sua própria casa…

Fotos: Pesquisa Google

 Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01mar16

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.