Cecília Menezes / Tribuna Livre
“Gostaria muito de ser politicamente correta e fazer declarações generalizadas sobre interessantes temas atuais. Mas não consigo. Por isso vou falar do que sei, das minhas experiências pessoais, nomeadamente de alguns dos trabalhos porque passei.
Quero expor aqui a minha realidade de trabalho em dois locais onde trabalhei. Ambas as empresas são da área da restauração mais concretamente pastelaria e padaria, ambas tem uma dimensão significativa, uma com nove lojas entre Sintra-Cascais e Oeiras, e outra com 31 sempre a aumentar entre Lisboa-Sintra-Oeiras e Cascais, ambas tem impacto na economia local e ambas funcionam com péssimas condições de trabalho para os funcionários.
Na pastelaria com nove lojas, o patrão exerce a chefia insultando, ameaçando e coagindo os funcionários a obedecer a todas as ordens sem questionar. Comporta-se como um “Deus” no local de trabalho e consegue fazer com que, em épocas de maior lucro na empresa (Natal e Ano Novo), o pessoal trabalhador faça mais horas que o permitido por lei e fique a dormir nas instalações sem qualquer tipo de condições para o efeito.
A falta de ética e moral é tão violenta que o chefe da empresa chegou a propor resolver um conflito com um funcionário “Lá fora”, sugerindo um confronto físico, alegando que é assim que se resolve um confronto, não é em Tribunal. O descontrolo da raiva deste chefe surge na forma de falta de respeito, consideração e na intimidação que utiliza, usando também o ataque psicológico de ir despedir o funcionário, mas usando artimanhas para que seja o funcionário a despedir-se.
Na pastelaria/padaria com 31 lojas muito famosa e divulgada pelos media portugueses as práticas de trabalho regem-se por uma forma de exploração que tenta passar por subtil, pedindo (quase cobrando) aos funcionários que “vistam a camisola” da empresa, sendo que este vestir a camisola é trabalhar várias horas a mais sem apontar as horas extra na folha de horas, e ter a capacidade de fazer o trabalho de duas ou três pessoas, ao mesmo tempo (por um contrato de 6 meses) caso contrário há um problema com o gerente da loja. A explicação dada ao tempo de horas a mais é que os RH do escritório que gerem as folhas de horas exigem que seja o horário teórico a ser apontado, senão não se recebe.
E, se realmente se insistir em assinar as horas reais, o que pode acontecer é falsificarem a assinatura? E a justificação por não se conseguir fazer o trabalho de várias pessoas ao mesmo tempo, é que se é preguiçosa, ”atadinha” e não se quer trabalhar?
Nesta empresa, o gerente desconhece os direitos dos trabalhadores, e acha que pode fazer o que quiser porque é ele quem manda, e neste exercício de todo soberano existe a conivência de outos superiores que agem de modo igual e só recuam, e se tornam conscientes das ilegalidades, quando o funcionário toma uma atitude judicial de se proteger pelos meios legais e os comportamentos que ali se praticam são chamados à razão por elementos externos.
Existem comportamentos exploratórios de quem gere grandes ou pequenas empresas, porque estas pessoas estão treinadas (ou está-lhes no sangue) para fazer “quebrar” o funcionário e fazem-no utilizando o assédio moral, a arrogância, maus tratos psicológicos, ou chantagem implícita, que são muito difíceis de serem provados no local de trabalho.
Fazem-no com a cumplicidade de outros funcionários que querem sempre agradar ao gerente ou tem tenções de subir de posto, e nesta empresa compactua-se com praticamente tudo, até com a praga de baratas que lá existe, porque ou se compactua ou ao fim de seis meses… rua! “
Fotos: Cecília Menezes
01abr16

