Ao fim de várias décadas a que estiveram literalmente abandonadas as comunidades piscatórias do litoral de Ovar, com particular impacto na praia do Furadouro, em que a arte de pesca tradicioal costeira, Arte-Xávega, com embarcações caraterísticas para enfrentarem o mar, mesmo quando revolto em diferentes épocas do ano, há muito obrigou as famílias de pescadores a procurarem outros modos de sobrevivência, como tão realisticamente foi registado cinematograficamente na obra de Paulo Rocha com o seu filme Mudar de Vida, como testemunho de uma época em que este tipo de pesca e as companhas que empregavam muita gente, iam desaparecendo e entrando em decadência, provocando cenários sociais deprimentes e obrigando os pescadores a procurarem as fábricas que nos anos sessenta se instalavam em Ovar.
A Câmara Municipal de Ovar iniciou recentemente o processo de lançamento de candidatura da Pesca e dos Pescadores da Arte-Xávega de Ovar a Património Cultural Imaterial de Portugal.
Com esta iniciativa o Município de Ovar propõe-se contribuir para “a salvaguarda de uma arte que marca a identidade vareira”, tendo convidado a participarem numa sessão de lançamento do processo desta candidatura que decorreu no mês de março no Posto de Turismo do Furadouro, como tinha sido anunciado na página online da Câmara, as comunidades de pescadores locais da Arte-Xávega (Esmoriz, Cortegaça, Furadouro e Torrão do Lameiro) entre “outros intervenientes, especialistas e interessados nas matérias do Património Cultural Marítimo, tendo por objetivo auscultar todas as partes…” e assim iniciar o processo de organização da candidatura a Património Cultural Imaterial.
A candidatura inevitavelmente recorre a um património de séculos da prática de pesca costeira com “alagem para terra”, a designada Arte-Xávega, com registos da sua prática nas praias de Ovar nos séculos XVIII – XIX, como fator de povoamento do litoral e de criação de tantas outras comunidades piscatórias para norte e para sul do grande centro de pesca que era o Furadouro com centenas de Palheiros bem próximos do mar, com um vasto historial na relação com tempestades, mas sobretudo com os incêndios que se repetiam de forma destruidora das habitações dos pescadores e suas famílias. Mas ironicamente, a candidatura a Património Cultural Imaterial, é não só lançada num tempo em que a Arte-Xávega está há muito moribunda, reduzida a uma ou outra embarcação, cujos proprietários vêm resistindo a todas as dificuldades criadas ao setor e a todo o abandono a que tem estado sujeita esta típica arte de pesca, que no Furadouro, não há sequer garantia de que o único barco que ali operou nos últimos anos, volte a trabalhar exatamente neste ano em que se propõe a salvaguarda de um património social, cultural e humano.
Apesar de todo o simbolismo e suposta pretensão de reforço da identidade local, afirmação e atração do território e do seu património, segundo os autarcas que se propõem avançar com a candidatura, o seu lançamento no Furadouro deu-se lamentavelmente perante os escombros da própria Arte-Xávega que jazem em terra, a exemplo da mais emblemática embarcação Srª da Graça, que foi um autentico ex-libris da praia do Furadouro nas últimas décadas e tiveram um final pouco condizente com tal candidatura assumida pela Câmara de Ovar.
Um dos exemplares Srª da Graça que servia de monumento a esta arte de pesca numa rotunda do Furadouro acabou desmembrada pelo seu estado de abandono, enquanto uma outra embarcação da geração Srª da Graça também apodrece entre as dunas. Sinais pouco coerentes com as recentes apostas do Município parece ter despertado demasiado tarde para a defesa do património que representa a Arte-Xávega.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*) Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar – Aveiro
01abr16


