A devoção à Paixão e Morte de Cristo, manifesta-se publicamente na cidade de Ovar através das Procissões Quaresmais, que, há vários séculos compõem o ciclo pascal como momentos de encenação quaresmal, em que se exprimem as vivências do Culto da Cruz e todo um rico património cultural, religioso e humano, que dão mais relevância a eventos.
A Procissão dos Terceiros a cargo da Ordem Terceira de São Francisco, que demos conta na edição de março do “Etc e Tal Jornal”, a que se seguiu a Procissão dos Passos no 4.º domingo quaresmal (6 de março), seguida da Procissão do “Ecce Homo” ou “Terro-Terro” (24 de março) e na 6.ª Feira Santa o dia começou com a “Via Sacra” e terminaria com a Procissão do “Enterro do Senhor” que seguiria até à Capela do Calvário, com toda a sua longa escadaria iluminada pelos adereços transportados pelos membros das Irmandades, caso o mau tempo que se fez sentir neste final de dia da sexta-feira Santa não tivesse obrigado ao cancelamento desta Procissão sair à rua. Momentos solenes sempre acompanhados pela Banda Filarmónica Ovarense e um grupo de coristas do Orfeão de Ovar.

No calendário da quaresma, a Procissão dos Passos é sempre um dos momentos marcantes. Organizada pela Irmandade dos Passos, saiu da Igreja Matriz, do Passo do Pretório em que Jesus “toma a Cruz”, para se encontrar com sua Mãe em frente ao Passo do Encontro, um momento alto desta manifestação religiosa que percorre as sete Capelas dos Passos de Ovar em que se encontram representados episódios da Paixão de Cristo, destacando-se também a passagem pelo Passo da Verónica, na Praça da República, como um segundo momento recheado de simbolismo desta Procissão, em que a jovem da Faíilia Maia se estreou no ano passado como 5.º elemento da terceira geração desta família a interpretar a Verónica de Ovar.
Episódios da encenação quaresmal que mobilizam muitas dezenas de participantes das diferentes classes sociais, que asseguram a organização das procissões, desde as mulheres que vestem os Santos e compõem os andores ou cuidam das Capelas dos Passos, aos participantes nas procissões e no transporte dos andores ao longo das ruas da cidade, perante uma multidão de fiéis e forasteiros que vivem o ambiente de devoção à Paixão e Morte de Cristo proporcionado pela componente humana desta dramatização e pelo rico património cultural e arquitetónico que representa.
Preservação do património de arte sacra
Várias têm sido as intervenções para preservar elementos do vasto património de arte sacra, como quadros artísticos e arquitetónicos fundamentais para a indispensável encenação da representação do Culto da Cruz em Ovar. Há mesmo casos de intervenções de restauro de significativos custos financeiros, que poucos resultados eficazes deixam transparecer aos olhos das multidões que contemplam a arte sacra e a talha dourada ou os frescos nas Capelas dos Passos datadas de meados do século XVIII, denominadas: Pretório (na Igreja Matriz), Queda, Encontro, Cireneu, Verónica, Mulheres de Jerusalém e Calvário.

O conjunto das sete Capelas dos Passos, classificadas como de interesse patrimonial nacional, ao longo dos últimos séculos foram absorvidas e descaraterizadas arquitetonicamente pelo crescimento urbano da cidade. No entanto, estes monumentos guardam no seu interior exemplares de rara beleza de arte sacra que o tempo tem colocado em risco, assim como polémicas intervenções, que em nome da recuperação de frescos, podem ter adulterado e tornado irrecuperável algumas destas representações em pinturas murais do tema da Paixão, que continuam aguardar maior interesse das entidades competentes para uma coerente e eficiente intervenção que valorize e preserve verdadeiramente este património.
Nos últimos anos, estes monumentos e todo o seu recheio artístico têm merecido particular atenção e mesmo vigilância do pintor e ceramista Marcos Muge, um artista da cidade com provas dadas na arte do restauro e da preservação de todo este património indissociável da componente humana nas vivências do Culto da Cruz.
Uma das recentes intervenções de Marcos Muge ocorreu na Capela dos Passos da Verónica, que se situa na Praça da República, numa área das paredes em que existem vestígios de pintura a fresco e por cima pintura mural, cuja última intervenção foi feita pelo pintor espanhol German Iglésias nos anos 40 do século XX. Uma polémica pintura a que se viria a seguir uma intervenção entre 1997 e 1999 que acabou por não contrariar a acentuada degradação das paredes e consequente perda de uma área de parede e pintura do conjunto da representação deste Passo da Verónica. Um alerta dado por uma das zeladoras do Passo ao Padre Manuel Pires Bastos, que tem encontrado no artista Marcos Muge a disponibilidade e sobretudo, a sensibilidade para resolver tecnicamente estes casos, que exigem um trabalho dedicado, especializado e de uma grande paixão à arte sacra.
Segundo Marcos Muge na sua página facebook, no caso do Passo da Verónica, tratou-se de fazer, “uma intervenção pontual na sequência da degradação contínua e que ninguém fazia nada para que não se perdesse mais original do conjunto da pintura a fresco por baixo e pintura mural por cima”. Uma obra realizada entre 1997 e 1999, que, ainda na opinião deste artista, “gastaram-se cerca de 80 mil contos no que deveria ser uma correta intervenção de conservação e restauro nas Capelas dos Passos, que passado tão puco tempo, infelizmente em 2016 o seu estado de conservação é degradante”.

Mesmo sem curso superior, Marcos Muges, com formação especializada nomeadamente na vertente do restauro, tem no seu curriculum artístico, muito trabalho prático a recuperar importantes peças da arte sacra, como o Santo Sudário transportado pela Verónica nas Procissões, por si pintado em 1992 e particular destaque teve a descoberta em 2011 de um fresco datado de 1727 na Igreja Matriz de Ovar, a quando de mais uma das suas intervenções no roteiro das Capelas dos Passos e neste caso, na Capela do Pretório em que a sua experiência e aturada investigação permitiu tal descoberta do fresco que este artista tinha partilhado com o Padre Pires Bastos poder ali vir a encontrar na parede, por detrás da imagem do Senhor dos Passos.
Uma descoberta que veio valorizar o valioso património religioso da cidade, tratando-se neste caso, de uma pintura em tons de azul primitivo, que se revelou desta intervenção de Marcos Muge, que nesta sua pesquisa implicou remover cuidadosamente o revestimento de corticite pintado de branco, de uma antiga e inadequada intervenção que estranhamente escondeu o fresco numa Capela que integra o conjunto do património das sete Capelas dos Passos em Ovar, neste caso, revestida de talha barroca nas paredes laterias.
É, pois, com todos os exemplos do entusiasmo e empenho de muitos cidadãos, que nas diferentes tarefas, responsabilidades e áreas específicas de intervenção, tornam possível a preservação deste rico património e das tradicionais Procissões Quaresmais no ambiente natural desta cidade para a representação dos quadros artísticos das vivências da “Paixão de Cristo”.
Texto: José Lopes (*)
Fotos: José Lopes, Fernando Pinto e Marcos Muge
(*) Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar – Aveiro
01abr16




Li atentamente o artigo escrito por José Lopes. Sobre o Santo Sudário que vai na procissão dos Passos em Ovar, em 1992 e porque o que usavam já estava muito apagado e pouco visível, solicitaram-me para fazer outro para integrar no contexto da Procissão, o que gratuitamente o fiz num dia á noite, tendo no dia seguinte de manha o entregue á senhora Clara Maia, pois ainda não estava completamente seca a pintura. Quanto á intervenção correta que deveria ser feita em todas as Capelas dos Passos, o assunto é simples de explicar: O interior das Capelas dos Passos foram ao longo dos tempos sucessivamente repintados por interpretações diferentes. Também no tratamento das madeiras se alguma coisa possa ter sido feito melhor, ainda foi no tempo do German Iglesias porque tive acesso á uma enorme lista dos materiais por ele empregue, pois na intervenção que realizaram entre 1997 e 1999 com a indicação dos técnicos pelo IPPAR e que foram pagos cerca 80 mil contos, foi fogo de vista porque eu andei a ver o que iam fazendo. Se houver bom gosto e vontade de trabalharem na conservação e restauro no conjunto da talha, nas esculturas, paredes e tetos das capelas dos Passos, com toda a certeza a conservação das madeiras, das policromias na talha e esculturas, a folha de ouro e os restos dos frescos que são a primeira camada e depois todas as intervenções posteriores que já foram pintura mural, tenho toda a certeza que temos património artístico para deixar aos vindouros por todos os seculos depois de nós. A mania é que em Ovar só os estrangeiros de outras terras em Portugal é que são bons. Essa falsa e hipócrita mania já deveria ter sido ultrapassada á muito tempo, pois com gente de Ovar o trabalho da conservação e restauro é feito com absoluta competência e qualidade porque na pratica eu tenho conhecimentos eruditos por tudo o que estudei o muito que já trabalhei nas diversas áreas, com os Mestres João Calisto em Aveiro e Ranieri di Bernardo em Lisboa, na Fundação Ricardo do Espirito Santo e Silva. Ainda com Jorge Fonseca que era de Ovar estive com ele e acompanhei algumas intervenções que fez em sua casa em Ovar, bem como a troca de sebentas e informação especializada que me facultou e as discussões técnicas que travamos, pois ele integrou no curso que tinha sido realizado no Museu de Aveiro com Técnicos do Instituto José de Figueiredo e intervieram no quarto onde faleceu a princesa Santa Joana em Aveiro. Sobre o que tenho vindo a fazer nas Capelas dos Passos tem sido sempre um trabalho técnico em acudir para não continuar a degradação do que ainda temos, pois os funcionários públicos que deveriam trabalharem, pois nunca o fizeram, apenas servem para andarem a envenenarem o padre Manuel Pires Bastos e a envenenarem as direções regionais da cultura. Como me choca como cidadão haverem tantos inúteis e fúteis homens e mulheres a receberem ordenados públicos vindos dos impostos dos portugueses que produzem e deixam memoria para o Futuro.