Maximina Girão Ribeiro
Há cem anos Portugal entrava no conflito militar que se desenrolava desde 28 de Julho de 1914. À data da participação de Portugal (1916), a contenda envolvia já a maior parte dos países da Europa, enfileirados em duas coligações: a Tríplice Entente (ou Aliados), formada pela Inglaterra, França, Império Russo (até 1917), Estados Unidos (a partir de 1917), e a Tríplice Aliança, liderada pelo Império Alemão, Império Austro-Húngaro, Império Turco-Otomano e a Itália que, mais tarde, através de um acordo com a Inglaterra e a França batalhou ao lado dos Aliados.


A jovem República portuguesa, implantada a 5 Outubro de 1910, inicialmente manteve-se neutral, mas debatendo-se sempre entre os problemas de não faltar aos compromissos com a multissecular aliança que conservava com a Inglaterra e, por outro lado, manifestando a grande necessidade de defender as colónias portuguesas (Angola e Moçambique) que eram cobiçadas pelos alemães, dado que o Sul de Angola e o Norte de Moçambique faziam fronteira com territórios ocupados pelos alemães (actualmente são territórios respectivamente pertencentes à Namíbia e à Tanzânia).

A emergência da guerra levou à decisão do Governo do Presidente Bernardino Machado de organizar uma expedição militar com destino a Angola e a Moçambique, dado que a Alemanha iniciara já ataques, no último destes territórios. Desta forma, a participação de Portugal na 1.ª Grande Guerra materializou-se primeiro na África oriental e, só depois, na Europa, porque estava em causa a defesa das possessões portuguesas, ameaçadas pelas pretensões da Alemanha.
Assim, em 11 de Setembro de 1914 partiu para Angola uma expedição militar, comandada pelo Tenente-Coronel Alves Roçadas e outra para Moçambique, sob o comando do Tenente-Coronel Pedro Massano de Amorim.
Mas, a 10 de Outubro de 1915, o governo britânico, invocando a velha aliança entre os dois países, convidou o Portugal a quebrar a sua neutralidade e a ficar activamente ao lado da Grã-Bretanha e dos seus aliados. Também em Fevereiro de 1916, a Inglaterra pressionou Portugal para que todos os barcos inimigos [alemães], atracados em portos portugueses, fossem confiscados para entrarem ao serviço dos Aliados. Portugal obedeceu à Inglaterra e, em consequência disso, a Alemanha declarou guerra a Portugal, a 9 de Março de 1916, depois de Portugal apreender os navios alemães ancorados em portos nacionais.
Foi desta forma que Portugal se viu confrontado com o imperativo de participar activamente em duas frentes de guerra, mobilizando-se militarmente para os confrontos europeus, decisão que veio a gerar fortes divergências políticas, profundas discussões na sociedade portuguesa e um enorme desequilíbrio na já muito fragilizada economia do país, pondo ainda mais em causa a instabilidade governativa da 1.ª República Portuguesa.
Vivia-se em Portugal uma fase de relações muito conturbadas entre a população e o governo, dado que a conjuntura de guerra fazia agravar as dificuldades económicas e sociais, com muitos géneros alimentares a falhar e outros racionados, os seus preços a subirem de forma brutal, a fome e a insatisfação a grassar entre a população, de onde partiam greves e motins.

Em Março de 1916, Norton de Matos estava à frente do Ministério da Guerra e, conjuntamente com o general Tamagnini organizou a Divisão de Instrução em Tancos, da qual resultou o Corpo Expedicionário Português (CEP) o qual, em final de Janeiro de 1917, partia para a Flandres, em três vapores britânicos, comandados pelo general Gomes da Costa. As primeiras tropas portuguesas chegaram à Flandres francesa, em 8 de Fevereiro do mesmo ano, para ocuparem lugar nas trincheiras que, supostamente serviriam para impedir o avanço do inimigo.
Nas trincheiras os nossos militares sofreram os bombardeamentos alemães, padeceram com a utilização de gases venenosos por parte do adversário, bateram-se corpo a corpo com o inimigo, permaneceram abandonados à fome, às doenças, às dores, às feridas, às mortes de milhares de homens… Aí se viveram dias e meses de inferno e horror!
Estes portugueses que participaram no primeiro grande conflito mundial, muito mal preparados militarmente, pouco motivados, descontentes com a sua situação, fatigados pelo tempo excessivo passado nas linhas da frente, fustigados pela dureza dos combates, nunca substituídos por outros militares, acabaram por sofrer uma pesada derrota na Batalha de La Lys, no dia 9 de Abril de 1918, devido a um bombardeamento contínuo, durante várias horas pela artilharia alemã, cercados pelo inimigo à retaguarda, forçados a um combate com meios desiguais, resultando daqui milhares de baixas e um número superior de prisioneiros.

Embora a derrota seja por demais evidente, salientamos que em termos tácticos, houve alguma vantagem para as forças aliadas, dado que o ataque alemão foi abrandando, devido à resistência portuguesa, o que fez atrasar a progressão dos alemães e permitindo aos Aliados o seu reforço face aos adversários.
Enquanto estes episódios se passavam na Europa, no palco de guerra africano registavam-se alguns insucessos militares em Naulila e Cuangar (ambas em Angola), Rovuma e Nevala (ambas em Moçambique), onde os militares portugueses sofreram numerosos confrontos com os alemães, revoltas das populações, problemas graves de subsistência, muitas febres e doenças, o abandono e o esquecimento por parte da governação portuguesa…

Cem anos depois, relevamos a coragem dos 105.542 portugueses mobilizados para Angola, Moçambique e para o Corpo Expedicionário Português que combateu na Europa. Nunca será demais preservarmos a memória de todos os que deixaram o seu país, a sua família e amigos, vivendo momentos dolorosos e dramas inenarráveis.
É imperioso recordar para que não se esvaiam nas brumas do tempo, os factos que muitos outros portugueses viveram.
Fotos: Pesquisa Google
Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01abr16
