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Ovar: DIA INTERNACIONAL DO CIGANO reuniu comunidades locais

Tal como um pouco por todo o país, também em Ovar foi assinalado o Dia Internacional do Cigano, no passado dia 8 de abril. A iniciativa, designada Conversas de Ocasião, “Ser Cigano: Preservar a Tradição, Valorizar a Integração”, que decorreu na Escola de Artes e Ofícios, foi dinamizada pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens – CPCJ de Ovar, o projeto Agitana-Te, Cruz Vermelha Portuguesa – delegação de Ovar e Cercivar, com o apoio da Câmara Municipal de Ovar.

Este evento, em que estiveram envolvidas as técnicas e responsáveis das diferentes entidades que intervêm nesta área social e multicultural, contou com a participação de cidadãos adultos, crianças e jovens adolescentes das comunidades ciganas da Marinha, Válega e S. Vicente de Pereira Jusã, que fizeram demonstração de danças caraterísticas, através da atuação do grupo Art Gipsy e leitura do poema “Ser Cigano”, que diz, “Ser cigano é percorrer esta estrada sem se prender a nenhuma estação. Ser cigano é acender uma fogueira no próprio coração para dançar a vida com magia, coragem e paixão (…)”.

Tratou-se ainda de um momento de partilha, das experiências e expectativas, em que Noé, até então mediador ou “facilitador”, passou o testemunho a uma mulher jovem cigana, com todo o significado de emancipação e positiva evolução no seio destas comunidades, a quem foram feitos apelos de aceitação desta nova realidade e oportunidade, que representa uma mulher cigana no exercicio desta função, importante na relação entre as familias, a escola e as várias entidades que dinamizam os projetos, como o Agitana-Te e o ali apresentado, projeto 6.ª Geração.

A abertura da sessão, que esteve a cargo do Presidente da Câmara, da CVP – Delegação de Ovar e da própria CPCJ de Ovar, foi antecedida da mostra de um vídeo sobre um projeto fotográfico de Miguel Vieira Pinto, que mostra em toda a sua dimensão, a realidade social das três comunidades de ciganos em Ovar, com particular incidência na componente habitacional e áreas envolventes, que mostram alguns cenários verdadeiramente deprimentes a exigirem medidas que promovam alguma dignidade a estes cidadãos portugueses.

Foi feita uma interessante caraterização das Comunidades Ciganas, no que toca ao seu modo de vida, componente social e níveis de escolaridade, refletindo a dificuldade de conclusão do 3º ciclo, enquanto o ensino secundário ainda é uma miragem. Foi igualmente feito o balanço do trabalho realizado no âmbito do projeto “Agitana-Te” que entre outras atividades, dinamiza também o Ensino à Distância, como uma solução que procura contrariar o abandono escolar das jovens ciganas.

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Entre os intervenientes convidados a abordarem a cultura e tradição das comunidades ciganas, estas “Conversas de Ocasião” contaram com a intervenção do Pastor Jaime, que começou por dizer que, “para poder entrar no povo cigano é preciso intermediários” referindo-se a mediadores ou facilitadores, porque, como alertou, “quem melhor que os ciganos para conhecer a sua realidade?”. Manifestando-se de espirito aberto aos novos tempos e realidades ao ponto de deixar também o apelo para que a jovem mulher cigana seja aceite no papel de nova mediadora, o Pastor Evangélico, admitiu que alguns anos atrás, nunca se pensaria ter uma mulher cigana mediadora, mas como adiantou, nesta sua atividade religiosa em que prega há mais de 20 anos, sempre apelou para que o povo cigano se integre na sociedade em que está inserido.

Afirmando mesmo que há tradições boas que devem ser preservadas e tradições que não devem ser levadas tão a rigor, a exemplo da desvalorização da escolaridade das mulheres ciganas. “Nós hoje que vivemos um tempo diferente, podemos mudar e queremos mudar para melhor” assumiu. “Estamos num processo” disse ainda, referindo-se á relação da comunidade com a Escola. O Pastor manifestou também preocupação para a questão da violência doméstica, que nenhuma tradição pode justificar, e concluiu, num profundo agradecimento a todas as técnicas das organizações que vêm trabalhando com as comunidades ciganas de Ovar, numa base de confiança mútua, “porque gostamos de quem gosta de nós”.

Por fim a vereadora da educação da Câmara Municipal de Ovar, Ana Cunha, realçou o “grande dinamismo e entusiasmo deste momento” e agradeceu todo o trabalho desenvolvido pelas técnicas do “Agitana-Te” e à CPCJ, “por colocar este tema em debate”. A representante do Ministério da Educação na CPCJ, Ana Paula Graça Reis Rodrigues, encerrou os trabalhos recapitulando que, “falamos de processo, mudança, afetos, respeito e confiança mutua, porque gostamos de quem gosta de nós”.

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O Dia Internacional do Cigano que é assinalado desde 1971, foi um momento para as comunidades ciganas de Ovar, técnicos das instituições e projetos em desenvolvimento, partilharem experiências do trabalho desenvolvido para a inclusão dos ciganos nas comunidades locais. Uma intervenção que tem sido feita, sobretudo, em redes de articulação entre diversas entidades, governamentais e privadas, junto de um povo que há cerca de 500 anos está radicado em Portugal, mas só em 1822 passou a beneficiar de cidadania portuguesa de pleno direito. Ainda que em pleno século XXI a discriminação e a marginalização das famílias ciganas, ainda não esteja completamente erradicada na sociedade em que a situação dos ciganos ainda é considerada vulnerável, apesar das grandes transformações sociais que têm ocorrido, e que o exemplo de uma jovem mulher cigana como mediadora em Ovar, é um feliz indicador de novas dinâmicas entre ciganos e não-ciganos que se estão a gerar.

Texto e fotos: José Lopes

Obs: A foto de destaque é da autoria da jovem Ana Monteiro (12 anos) e conseguiu o primeiro prémio do II Concurso de Fotografia da CPCJ de Ovar (2015).

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