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Eu não confio na Justiça!

António Pedro Dores

Há quem pense que as instituições judiciais servem para fazer justiça. Mas isso não passa de ideologia. Todos estamos informados e cientes da impossibilidade terrena de cumprir tal missão. Condescendemos em aceitar – por vezes reclamamos – que o Estado faça esforços para realizar essa missão impossível. Na verdade, para muita gente justiça é sinónimo de apanhar e castigar um culpado. Não interessam os detalhes. Se o levaram é porque “alguma coisa ele fez”, costuma dizer-se para afirmar o despudor moral habitual.

O mesmo ocorreu com o júbilo de alguns por o Tribunal Federal Brasileiro ter impedido o Cunha, Presidente do Senado e principal obreiro do impedimento da Presidente brasileira. Foi caçado antes da sua presa o ser. Porém, a questão fundamental permanece: quem manda no Brasil? Quem sabe?

Há suspeitas sobre o interesse norte-americano em usar a sua tradicional influência no Brasil, através do sistema corrupto construído pelo colonialismo que, no fundamental, se mantém, para contra atacar as recentes políticas de não convertibilidade da moeda chinesa em dólares e da recusa dos russos em venderem petróleo contra dólar. O banco de desenvolvimento (sucedâneo do FMI) recentemente criado no âmbito da parceria estratégica entre os países emergentes estará a dar os seus passos.

brasil - futuro

E o Estado norte-americano está a ver se penetra. Comprando, como o fez abundantemente no passado, alguns dos mais importantes políticos brasileiros. Ou alguns dos mais importantes políticos no futuro do Brasil. Porque os jogos democráticos estão sob o controlo alienígena. E nós, meros mortais, sem ver nada. Porque tudo é secreto. Como passámos todos a saber pela divulgação dos textos dos tratados transatlânticos de livre comércio – de facto de comércio forçado pela ingerência das multinacionais nas competências soberanas dos estados: há quem esteja a fazer da humanidade ratos de laboratório. E saiba como fazê-lo. Perante a apatia geral.

Não será muito difícil de saber que assim é, se se quiser olhar para as misérias deste mundo. Não apenas as guerras, que destroem em nosso nome, ocidentais, países que viviam as suas vidas eventualmente melhor do que nós (como na Líbia de Kadafi, então no primeiro lugar do ranking do desenvolvimento humano). Também a miséria que destrói a vida de centenas de milhões de pessoas pelo mundo fora. É impressionante ver a desfaçatez da política portuguesa e dos portugueses perante as notícias, oriundas das escolas, que dão conta da fome porque passam 1/3 dos alunos. Não há nada que se possa fazer? Que se deva fazer?

Há já muitos seres humanos, milhões de seres humanos, que nos entram diariamente pelos telejornais a dentro, a serem usados como cobaias. Perante a nossa impotência. Na verdade perante a nossa indiferença. Para não nos incomodarmos e distrairmos das nossas obrigações quotidianas. Que justiça pode haver em sociedades assim?

No Brasil – e não será semelhante por todo o mundo? – o trabalho judicial é uma conspiração para evitar conspirações. Por isso, pode servir também para as encobrir ou participar nelas, ao mesmo tempo. Para evitar justiça popular, para reprimir ameaças aos poderes estabelecidos, a justiça pode também manobrar os poderes estabelecidos, incluindo a Presidência da República ou a presidência do Senado. Por ser assim é que há, em muitas constituições, direitos de imunidade. Para não acontecer aquilo que está a acontecer no Brasil.

policia judiciaria - 01jun16

Se o ex-presidente Lula está a ser acusado pela polícia federal e ainda por cima vai sob escolta para ser interrogado será, como se costuma dizer, por que alguma coisa fez. Se há um número exorbitante de políticos corruptos, por que razão este seria diferente? Vindo do operariado, é mais uma razão para ser socialmente legítimo reprimi-lo, reduzindo-o ao estatuto de sindicalista do começo da sua carreira. Pensarão os seus opositores.

Em Lisboa, entretanto, a Polícia Judiciária prendeu o chefe da brigada antidroga da Polícia Judiciária por tráfico de droga. Isto é, o homem terá – se as acusações são reais – um problema de incompatibilidades. Não sei se tão grande quanto o dos políticos que servem interesses privados nas suas funções públicas.

Bem dizia João Cravinho: a corrupção chegou ao mais alto nível do Estado. E ficará por lá. Enquanto alguma coisa de mais fundamental não for feito.

Fotos: Pesquisa Google

01jun16

 

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