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Na comemoração do V Centenário da beatificação da Rainha Santa Isabel

Maximina Girão Ribeiro

Quando se comemora o V Centenário da beatificação da Rainha Santa Isabel e se celebra, de diferentes formas e em vários pontos do país esta data, recordarmos também aqui alguns aspectos da vida desta rainha.

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Isabel de Aragão veio para Portugal, ainda menina (com 12 anos), a fim de casar com o Rei D. Dinis. Tudo isto acontecia num tempo, a Idade Média, em que os casamentos eram tratados através de negociações, sem que os noivos manifestassem a sua opinião, mais ainda quando se tratava de casamentos reais, em que falavam mais alto os interesses políticos e económicos.

Esta princesa nasceu na corte de Aragão, em Saragoça, talvez a 11 de Novembro de 1270 (?), sendo neta do poderoso rei Jaime I, o Conquistador, rei de Aragão, da Catalunha e de Maiorca, senhor de Montpellier e de outros feudos.

A sua meninice foi passada na corte deste avô e, quando a pequena Isabel tinha cerca de 11 anos, seu pai que na altura já era monarca reinante (Pedro III de Aragão) encetou as longas negociações para o casamento da Infanta aragonesa com o jovem rei de Portugal, D. Dinis, que subira ao trono com 17 anos. Segundo os conceitos da época, era conveniente que a jovem princesa “saísse de sua casa como rainha”, por isso, o casamento realizou-se por procuração, a 11 de Fevereiro de 1281, em Barcelona.

A pequena Isabel partiu da Catalunha a caminho de Portugal, acompanhada pelas suas aias e confessores pessoais, bem como por um número considerável de criadagem que velava pelas arcas do seu enxoval, composto por “muitos ricos dons e grande baixela de prata”.

Atravessou as terras de Castela e entrou em Portugal por Bragança, mas só em Trancoso viu, pela primeira vez o seu noivo, D. Dinis. Nesta vila realizaram-se os esponsais, na igreja de S. Bartolomeu, assim como as bodas nupciais, envolvendo a população da terra. Pelo facto de ter conhecido a sua noiva nessa terra, o rei doou-lha, assim como lhe ofereceu também várias outras vilas e castelos, como dote de casamento.

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Desta união, entre D. Dinis e D. Isabel, nasceram dois filhos: D. Constança e D. Afonso, futuro rei de Portugal (D. Afonso IV), embora o rei tivesse outros filhos, fruto de relações adúlteras, filhos bastardos, mas todos eles foram entregues e protegidos por D. Isabel que os tinha na corte, educando-os e estimando-os.

No entanto, os desentendimentos familiares, frequentes entre o rei e o filho herdeiro ao trono, os conflitos vários decorrentes da governação, as intrigas contra a rainha conciliadora e as inúmeras infidelidades do rei, tudo fez com que a vida de D. Isabel não tivesse sido fácil.

Apesar da sua benéfica actuação pacificadora, nem sempre bem entendida pelo monarca, quando este adoeceu gravemente, em Santarém, foi a própria rainha que o tratou e o acompanhou, em todos os momentos. Em sinal de dor e de luto, no próprio dia da morte do marido, Isabel vestiu o humilde hábito de clarissa, o qual passou a usar até ao último dia da sua existência.

Durante a sua vida, D. Isabel acompanhou o marido em algumas deslocações pelo país, mas pensamos que a viagem que mais a terá marcado, de forma espiritual, deverá ter sido a que realizou em peregrinação a Santiago de Compostela, pouco depois da morte de D. Dinis, em 1325.

Como rainha já viúva, ao iniciar este novo ciclo da sua vida, D. Isabel agiu como se preparasse a sua partida deste mundo, empreendendo uma peregrinação até Santiago de Compostela, numa perspectiva penitencial, como meio de perdão dos seus pecados.

No mundo medieval, o caminho de Santiago representou o desenvolvimento da vida espiritual de todos aqueles que o percorriam, fazendo um afastamento voluntário do mundo, como forma de penitência e como meio de cada ser humano pensar a sua própria existência.

A devoção que se foi criando em torno do Apóstolo Santiago, fez circular pelas rudes veredas da época, sobretudo a partir do séc. XI, peregrinos de vários pontos da Europa, o que levou ao surgimento de pontes para se atravessarem rios, hospitais e albergues de acolhimento, bem como mosteiros que se iam localizando por onde os caminhantes passavam.

As velhas vias romano-medievais representavam mil dificuldades a vencer, pelos inúmeros perigos que rondavam os viajantes, desde as florestas a atravessar e os animais bravios que atacavam, as emboscadas dos bandos de salteadores, o cansaço, as feridas, as pestes, a fome e a sede e até o medo do desconhecido,… Tudo eram provações e obstáculos… Isabel quis enfrentar tudo isto! D. Isabel chegou a Santiago nas vésperas da festa do Apóstolo e, no dia seguinte, a 25 de Julho, no momento do ofertório, na missa que era oficiada pelo Arcebispo, fez a sua oferenda como sinal de renúncia à sua grandeza de rainha: entregou a sua riqueza mundana, constituída por um conjunto variado de jóias e de outras belas peças de ourivesaria.

De acordo com o ideal franciscano de pobreza e de despojamento dos bens materiais, ofereceu a sua coroa de rainha, de ouro e cravejada com pedrarias, os seus mantos bordados a ouro e embelezados com pérolas e diamantes, as tapeçarias com os seus brasões, assim como paramentos, cálices e uma taça ricamente decorada que era de uso pessoal de seu marido.

Este despojamento das riquezas que faziam parte da sua vida quotidiana, o afastamento da opulência e de todos os sinais exteriores de riqueza, marcam o começo da sua última etapa de vida terrena, com a retirada por livre vontade para o “seu” mosteiro, o Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde vestiu o hábito humilde das religiosas Clarissas, “um véu sem votos” e onde continuou a sua obra de assistência, numa opção reflectida de consagração às obras de Deus.

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Esta piedosa rainha que dedicou a sua vida à oração e à devoção, praticando jejuns, abstinências, vigílias, foi também auxiliadora de pobres, de mosteiros e de igrejas, entregando dádivas e fazendo benesses. Não se limitou a mandar construir gafarias para acolher os leprosos mas, com as suas mãos bondosas também os tratou, acudiu aos doentes com peste e curou as feridas dos expostos nos caminhos.

Foi também uma mulher culta, no seu tempo, vivendo cerca de 44 anos casada com D. Dinis, talvez o primeiro monarca português verdadeiramente alfabetizado – era poeta e trovador e vivia numa corte em que eram frequentes os saraus com apresentações de jograis e trovadores.

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Em Junho de 1336, já com 66 anos, D. Isabel fez a sua última viagem terrena. Foi com o coração despedaçado até Estremoz, onde se encontrava seu filho, o rei D. Afonso IV, o Bravo que pretendia atacar o genro, Afonso XI, rei de Castela, casado com a Infanta D. Maria, filha do monarca português, a qual vivia um casamento atormentado, devido aos maus tratos que sofria por parte do marido. D. Isabel, sempre conciliadora e, para pôr fim às hostilidades que se faziam adivinhar entre os dois monarcas, fez uma penosa jornada até ao Alentejo – uma viagem fatigante, debaixo de um calor excessivo. Este esforço acabou por ser fatal para a rainha que adoeceu gravemente, morrendo poucos dias depois, a 4 de Julho em 1336.

As práticas continuadas de caridade e de misericórdia, assim como os milagres e as curas milagrosas que lhe eram atribuídas, fizeram nascer uma aura de santidade à sua volta. Assim, foi beatificada em 1516 e canonizada, em 1625.

O dia 4 de Julho assinala a morte da Rainha que, popularmente ficou conhecida como Rainha Santa Isabel ou, simplesmente, a Rainha Santa.

Fotos: Pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

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2 Comments

  1. Hugo Sousa

    Pela informação que temos trata-se de uma aguarela de Alberto de Souza (1911) da Isabel de Aragão (rainha santa Isabel).

  2. Isabel M Moreira

    Btarde e obg plo conteúdo. Devota, gostaria de saber a localização da penúltima imagem (estátua?) da Rainha Santa que ilustra este texto.
    Grata plo v/ esclarecimento, apresento os meus melhores votos,
    Isabel M. Moreira
    92 916 3032

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