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Abel Salazar

O nome de Abel Salazar está incontornavelmente ligado ao Porto. Embora tenha nascido em Guimarães, em 1889, veio aos 14 anos com os pais para o Porto, onde frequentou o Liceu Central do Porto (localizado em S. Bento da Vitória). A sua primeira revelação pública poderá ter sido através de um jornal escolar, “O Arquivo”, elaborado em parceria com outros estudantes, onde já manifestava tendências ideológicas republicanas e aptidões artísticas, dado que elaborou caricaturas de colegas e de professores, para essa publicação.

Auto-retrato
Auto-retrato

Em 1909, Abel Salazar matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, concluindo aí o curso de Medicina, em 1915, com a apresentação da tese “Ensaio de Psicologia Filosófica”, classificada com 20 valores. Logo depois iniciou a sua carreira universitária e, em 1919, apenas com 30 anos, tornou-se professor catedrático das disciplinas de Histologia e Embriologia, sendo nomeado Director do Instituto por ele fundado, dedicado a estas duas especialidades.

Abel Salazar descreveu, pela primeira vez, em 1923, o método que inventou de coloração celular tano-férrico revelando, mais tarde, um dos componentes da célula, o aparelho Paragolgi, que descobriu através da utilização do referido método.

O seu trabalho de investigação depressa foi reconhecido e divulgado atingindo fama mundial, devido a inúmeras publicações de artigos em revistas científicas, portuguesas e estrangeiras. Mas, o trabalho tão intenso que desenvolveu, mesmo em condições muito adversas, conduziu-o a um esgotamento e à interrupção desta actividade, por um período de quatro anos. Quando regressou de novo à faculdade, o Instituto que fundara estava quase ao abandono e sem a biblioteca que possuía que, entretanto, tinha sido mudada para outro sítio.

Estátua de Abel Salazar no Jardim do Carregal (Porto)
Estátua de Abel Salazar no Jardim do Carregal (Porto)

A partir de 1935, Abel Salazar começou a sentir a pressão que lhe era movida por motivos políticos, acabando por ser expulso da sua actividade docente, através de um despacho ministerial que o obrigava a deixar a Faculdade de Medicina, o mesmo acontecendo a outros professores da Universidade portuguesa, opositores ao regime fascista, alegando-se que a actuação política e social destes docentes era nefasta, sobre os estudantes.

Busto de Eça de Queirós, da autoria de Abel Salazar
Busto de Eça de Queirós, da autoria de Abel Salazar

Como resistente ao regime salazarista, Abel Salazar sofreu inúmeras dificuldades, entre as quais a de ficar impedido de se ausentar do País, o que o impossibilitava de pôr os seus conhecimentos ao serviço de outras instituições congéneres, no estrangeiro. Acabaria, então, por se dedicar com afinco à elaboração e publicação de textos de cariz científico, ocupando-se também na prática artística de que foi notável representante, sobretudo na pintura, gravura e nos cobres martelados.

Este homem multifacetado, cujo lema era “O Médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe”, que se destacou como médico, professor, filósofo, artista plástico e homem de cultura, um dos maiores intelectuais portugueses da sua época, só em 1941, foi reintegrado na Universidade, no laboratório da Faculdade de Farmácia do Porto.

Pintura de Abel Salazar
Pintura de Abel Salazar
"Mercado da Ribeira" - Pintura de Abel Salazar
“Mercado da Ribeira” – Pintura de Abel Salazar

Abel Salazar foi casado com Zélia de Barros, desde 1921, casamento do qual não houve filhos. Viveram em S. Mamede de Infesta, cerca de 30 anos, sendo a sua casa transformada em Casa-Museu, em 1963, espaço que encerra o espólio científico, artístico e pessoal desta figura notável da cultura do séc. XX.

Morreu há 70 anos, em Lisboa, onde fazia tratamento a um cancro do pulmão. Tinha 57 anos e era um fumador compulsivo. O seu corpo foi trasladado para a cidade do Porto, onde foi depositado no Cemitério do Prado Repouso. O funeral deste homem ilustre concentrou uma multidão de pessoas, o que significou uma enorme manifestação oposicionista, embora silenciosa, ao regime de António de Oliveira Salazar.

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: Pesquisa Google

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Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

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