Maximina Girão Ribeiro
Pedro V viveu num período da Monarquia Constitucional, marcado pela política de desenvolvimento económico, época que ficou conhecida como Regeneração e que teve como grande dinamizador o ministro Fontes Pereira de Melo, à frente do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria. Tratou-se de uma fase em que Portugal gozava de uma certa acalmia, após diversas convulsões político-sociais e que, face ao forte atraso de Portugal relativamente a outros países da Europa, surgia a grande necessidade de concretizar medidas de fomento de obras públicas para que se proporcionasse a modernização das infraestruturas do país. Daí, a necessidade de melhorar os transportes e comunicações, como factor primordial para o desenvolvimento da agricultura, do comércio e da indústria.

O jovem rei D. Pedro V foi um dos onze filhos da rainha D. Maria II e de D. Fernando II, duque de Saxe-Coburgo-Gota, Rei Consorte português. Assumiu o trono, após a morte de sua mãe, tinha ele, então, apenas dezasseis anos de idade, ficando seu pai como regente do reino, até à data em que D. Pedro completou 18 anos (em 1855). Com a orientação inicial dada por seu pai, homem culto, a par da cultura já adquirida pelo jovem rei, foram estes os dois aspectos mais significativos para uma governação inteligente e equilibrada. É sabido que D. Pedro V foi preparado para reinar, crescendo rodeado por livros e mestres ilustres. A sua aprendizagem também se fez com as viagens que realizou ao estrangeiro, visitando várias cortes europeias e observando escolas, asilos, fábricas, museus,… Todos os locais lhe serviram como aprendizagem de outras realidades, sobretudo os mais inovadores, aqueles que urgia implementar no nosso país.
Embora o seu curto reinado de oito anos tenha sido assolado por numerosos infortúnios, como as epidemias (a cólera morbos e a febre-amarela) que castigaram o país com um número muito elevado de vítimas, assim como por tragédias pessoais, ligadas à família real, especialmente a morte por difteria de sua mulher, a bela e instruída D. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen, com a idade de 22 anos, apenas 14 meses após o casamento real, o que muito contribuiu para uma condição de grande tristeza em que o rei passou a viver.

Apesar de todos estes acontecimentos nefastos, D. Pedro V não descurou o desenvolvimento do país. Foi no seu reinado que se inaugurou o primeiro telégrafo eléctrico português, assim como a primeira linha de caminhos de ferros, de Lisboa até ao Carregado. Embora esta primeira linha só tivesse 36,5 km, o certo é que era o arranque de um grande empreendimento que representava uma abertura de horizontes e um elo de ligação com o mundo civilizado.
O rei D. Pedro V sempre demonstrou uma especial predilecção pela cidade do Porto, admirando–a pelas suas gentes e pelo seu dinamismo económico.
Visitou a cidade várias vezes. A primeira foi ainda durante o reinado de sua mãe, em 1852 quando, acompanhado pelos seus pais, fez a primeira viagem ao norte do país.

Depois, em 1860, visitou a Exposição Agrícola do Porto com os seus irmãos, D. Fernando e D. Luís, fazendo por essa altura, a 23 de Novembro de 1860, uma visita à Cadeia da Relação do Porto, onde se encontravam presos o escritor Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, depois de terem sido acusados de viverem uma relação ilícita, à época.
Em 1861, D. Pedro V voltou ao Porto, permanecendo na cidade entre os dias 24 e 28 de Agosto. Partiu, depois, no dia 29 para Braga, onde se demorou até ao dia 2 de Setembro regressando, novamente ao Porto de onde partiu para Lisboa, definitivamente, no dia 4 de Setembro.
Nesta última viagem à cidade, o principal objectivo foi visitar a Exposição Industrial do Porto que decorreu no Palácio da Associação Comercial (Bolsa), exibição que apresentava a cidade e o seu desenvolvimento económico, mostrando-a como tendo capacidade para promover este tipo de iniciativas, porque era já considerada “[…] a mais industrial das cidades portuguesas […]”, tal como o monarca reconheceu no discurso de abertura da referida exposição.
Durante os dias de estada no Porto, o rei não se limitou à inauguração festiva da exposição, porque privilegiou um contacto muito directo com a cidade e as suas instituições. Aceitou os convites que lhe foram dirigidos: no dia 24 assistiu a um espectáculo da Companhia Portuguesa, no Teatro S. João e, no dia 25, esteve no Teatro Baquet, onde a Companhia Nacional de Ópera Cómica representou. Em dias posteriores, voltou a assistir a récitas de diferentes companhias. Conviveu com a elite da cidade, mas salientou sempre a companhia da burguesia e dos industriais, pois representavam o progresso e o avanço do país.

As preocupações de assistência social e da saúde pública estiveram sempre presentes na mente e nas acções deste rei que, no Porto, fez questão de visitar os mais desfavorecidos, sobretudo aqueles que estavam em estabelecimentos de caridade, como o Asilo de Mendicidade e o Asilo das Raparigas Abandonadas, o Colégio dos Órfãos, a Creche de S. Vicente de Paula, a Roda dos Expostos, o Hospício dos Lázaros e das Velhas Entrevadas. Também o Hospital de Santo António e o Hospital Militar receberam a sua visita, ficando o jovem rei sensibilizado para determinar a construção, de raiz, de um novo hospital militar, devido às condições precárias em que os doentes militares se encontravam, dispersos por vários mosteiros da cidade. Assim, o futuro Hospital Militar de D. Pedro V que teve como principal mentor, precisamente este rei, começou a ser construído, em 1862, no Campo das Pardelhas (hoje Avenida da Boavista), pouco tempo depois da morte do monarca.
Como rei liberal / constitucional, D. Pedro V também no Porto manifestou preocupações com a instrução da população, quer visitando estabelecimentos onde se ministrava ensino, tal como o Liceu da Trindade, quer relevando a exposição industrial como detentora de uma função educativa, dado representar uma actividade cultural promotora do progresso do país.Pedro V pode ser visto como um rei progressista, não só pela promoção de medidas relacionadas com o desenvolvimento do trabalho e da indústria, como pelo apoio de todas as tentativas demonstrativas de um arranque industrial.
Antes de regressar a Lisboa, em 3 de Setembro de 1861, o rei inaugurou, simbolicamente, os trabalhos para se dar início à construção do edifício que seria, mais tarde, denominado por “Palácio de Crystal Portuense”, complexo com a finalidade de dotar o Porto de um espaço maior e melhor para servir os objectivos de promover novas exposições, na cidade.

De cada vez que este rei esteve na cidade do Porto, foi sempre recebido com entusiasmo e pompa registando-se, de todas as vezes, um banho de multidão e de regozijo pela sua presença, reconhecendo-lhe a enorme bondade e disponibilidade para com todo o seu povo. O jornal “O Comércio do Porto” salientava que “[…] o povo se apinhava e corria para o ver, não se cansava de manifestar com entusiásticos vivas o contentamento de que está possuído.” Destacava também o mesmo jornal que o rei era “[…] sempre vitoriado por uma grande quantidade de cidadãos.”
Na altura desta sua última visita ao Porto, a cidade tinha já, desde 1855 (ano da aclamação de D. Pedro V), algumas ruas iluminadas a gás. O Jornal O Comércio do Porto descreveu a beleza da cidade com a iluminação nocturna e o entusiasmo da população, perante a figura real.
Pedro V morreu em 1861, a 11 de Novembro, pouco tempo após a visita ao Porto. Tinha 24 anos.
O Porto não o esqueceria.

A sua afabilidade, a sua bondade e a alta estima e consideração que o rei tinha pela cidade, fizeram com que as gentes do Porto o quisessem perpetuar em monumento. Assim, logo em Fevereiro de 1862, foi aprovado o projecto do escultor Teixeira Lopes (pai) para a execução de uma estátua em bronze, em que o rei está representado de pé, com a cabeça descoberta e envergando uniforme militar de tenente-general. A estátua viria a ser inaugurada, na praça da Batalha, por D. Luís, irmão e sucessor de D. Pedro V.
Fotos: Pesquisa Google
Obs:Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01nov16
GRATO EU E GRATA A CIDADE POR ESTA LIÇÃO.
Dona Maximina Girão Ribeiro, muitos parabéns pelo texto, dignifica em pleno esta grande personalidade da nossa história
Gostei muito.Sóbrio, esclarecedor e memorável.