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Inquietação

Carla Ribeiro

Tenho que vos confessar que não foi fácil definir o tema para vos falar este mês, pois tantas seriam os temas e as temáticas, que tive que apenas sentir no meu mais intimo aquele, que neste momento em que vos estou a escrever, tem mais força e mais me inquieta.

Sim inquietação, é mesmo este o meu sentimento, Inquietação…

E perguntam muito bem vocês, qual o motivo de tamanha inquietação, e muito justamente.

Passo algumas noites, pelas ruas da cidade, na procura de um abraço, e do brilho de um olhar, e estas são noites de pleno Amor incondicional, faça frio ou faça chuva, elas que agora já se aproximam.

São sem dúvida, momentos em que me auto desafio, e confronto, com estas realidades e com estes inúmeros sentimentos.

Neste momento toda a dinâmica de apoio às pessoas que estão na rua, está, na cidade do Porto a sofrer alterações, que espero sinceramente que sejam para melhor, para estas Pessoas, pois e mais uma vez eu o digo, Eles/as são Pessoas, que merecem e têm que ser respeitadas como tal.

Sem dúvida devem ser tomadas medidas, no sentido de reintegrar estas Pessoas, tirando-as da rua, e dando-lhes condições dignas para viverem.

Ora numa das notícias que li e reli várias vezes, diziam entre muitas outras coisas, isto: ”… O plano inclui quatro pilares de ação: uma nova equipa de rua, um novo espaço de acolhimento de emergência, restaurantes sociais e alojamento de longa duração.”

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Ora, eu pergunto-me, onde estão as equipas de rua, da Câmara, será que estas já vieram para as ruas durante a noite, falar com as Pessoas que nela moram, ou apenas vêm, quando alguém os mandar recolher os pouco e o muito que estas Pessoas têm, e que acabam por recolher e deitar ao lixo?

Preocupa-me, inquieta-me, sim, e a cada dia que passa mais e mais.

Muito importante, sim a criação de refeitórios sociais, não só para os que na rua e em quartos de pensões habitam, mas também para colmatar a fome, de tantas famílias, que ainda conseguem manter a casa que habitam, mas já não conseguem comprar alimentos. E temos famílias completas nestas situações, que com vergonha, que vão perdendo coma fome, procuram o alimento nas ruas da nossa cidade.

Um espaço de acolhimento de emergência, seria essencial, mas achei que até já existia… mas não nos esqueçamos, que para entrar há regras… não consumir drogas, nem álcool.

Ora, mas não é suposto ser um acolhimento de emergência, e somente depois perceber o enquadramento de toda a situação do ser Humano que neste momento se encontra na rua?

Resta-me esperar que estas condicionantes se alterem.

Sem dúvida temos na cidade, espaços a serem reabilitados, para acolher em regime de “alojamento de longa duração”, como lhes estão a chamar, estas Pessoas, mas preocupa-me, e inquieta-me a forma como todo este processo se vai processar.

Para tal bastará apenas pensarmos e refletirmos um pouco.

Algumas destas Pessoas, já moram nas ruas da nossa cidade, há umas dezenas de anos, são elas a sua casa, a sua morada e o seu canto de descanso, quer em dias de sol, frio, calor, chuva… não importa o tempo, mas sim que elas estão em cada recanto em que encontram um pedacinho de paz, para o corpo repousar.

Não podemos simplesmente castrar a liberdade a que estas Pessoas estão habituadas.

Somos seres humanos, e temos que ser respeitados como tal, e nunca ninguém, conseguiu com resiliência, e sem relutância, resistir às mudanças que lhe causam desconforto…

Não podemos impor regras, a quem já não vive com elas…

Não pode este processo ser imediato, mas progressivo, pois estas Pessoas, terão que se adaptar a nova realidade, e ao fato de voltarem a viver em sociedade, mesmo que em espaços preparados para eles.

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Mas e vamos apenas dar-lhes espaços para se abrigarem?

Ou vão criar-se estruturas para reabilitar estas Pessoas no mercado de trabalho?

Vamos dar o peixe, apenas, ou vamos também dar ferramentas para voltarem a aprender a pescar?

Sim estou inquieta, pois não sei até que ponto todas estas decisões estão enquadradas legalmente, na liberdade do ser Humano, pois estes espaços não podem ser cativeiros, para limpar as ruas da cidade, de um “lixo”, que não se quer mostrar, e de uma realidade que apenas se pretende camuflar.

Estou inquieta, pois todos estes seres Humanos necessitam de ser ajudados, e devidamente acompanhados por equipas que estejam preparadas e disponíveis, para se sentarem no chão da rua e falar com eles, percebendo desta forma, qual a melhor maneira de fazer esta reintegração.

Já pensaram que tantos já nem saberão como se dorme numa cama, pois já há muitos anos, que não sabem o que isso é.

Já alguém se perguntou, porque tantos preferem a rua, a tentarem dormir nos albergues existentes na cidade, mesmo nos dias de invernos em que todos os alertas são lançados devidos ao mau tempo que se instala.

Já pensaram, será que já alguém pensou, nestas e em tantas outras questões…

E deixo esta no ar… como vão reintegrar os consumidores de droga e álcool, que até agora eram tão descriminados…

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Que liberdades vão estas Pessoas ter, elas que não estão habituadas a horários e regras?

Não podemos querer mudar o ser o Humano de um dia para o outro, pois ninguém consegue produzir fruta, no primeiro ano em que planta as arvores, todo este processo tem que ser gradual e feito com muito Amor.

Nós, nós vamos continuar na rua a apoiar estas Pessoas e procurar cada vez mais e mais respostas para estas e tantas outras inquietações, que visem e desrespeito da condição humana e dos direitos do cidadão.

Inquieta, sim eu estou inquieta…

É nestas partilhas que crescemos e com humildade e sentimentos verdadeiros sempre, abrimos o nosso coração a novas partilhas, conquistas e aprendizagens diárias.

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A todos sem igual,

Obrigada

Até breve com novos “sentir”, novos “amar”…

Fotos: Corações Amigos e Pesquisa Google 

CARLA RIBEIRO LANÇA LIVRO

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A nossa colaboradora e autora da rubrica “Relatos”, Carla Ribeiro vai lançar, no próximo dia 13, pelas 15h30, na Biblioteca Almeida Garrett, ao Palácio de Cristal (Porto), o seu primeiro livro, intitulado “Desnudo-me em Palavras”. A obra será apresentada pelo escritor José Sá.

O “Etc e Tal Jornal” – como não podia deixar de ser – vai reportar o acontecimento, sendo assim, certa uma reportagem a inserir na próxima edição do nosso jornal. Já agora: Parabéns Carla.

Texto: José Gonçalves (diretor)

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1 Comment

  1. Carla Ribeiro

    Sou eu quem tenho que agradecer ao Jornal, ao seu diretor, e também aos meus leitores.
    São todos vocês importantes para este novo passo, um novo caminho
    Apareçam e partilhem comigo este momento em que me desnudarei… em palavras.
    Obrigada
    Namasté
    Carla Ribeiro

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