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NOVOS SERVIÇOS NAS FARMÁCIAS: MÉDICOS TORCEM O NARIZ… FARMACÊUTICOS APLAUDEM A MEDIDA

Texto: José Gonçalves (*)

Fotos: Amadeu Almeida (AA) e Pedro N Silva (PNS)

As farmácias portuguesas (um universo de cerca de três mil estabelecimentos) poderão ter um importante papel no “alívio” do Serviço Nacional de Saúde (SNS), no que concerne ao atendimento de utentes, já a partir do próximo ano, como adiantou o semanário “Expresso”, na edição de 22 de outubro último.

De acordo com o referido jornal, o Governo prepara-se para pagar às farmácias diversos serviços que estão, atualmente, a ser prestados pelas unidades públicas, descongestionando-as. A novidade, que não agradou à Ordem dos Médicos, está ainda a ser estudada por um grupo de trabalho interdisciplinar, estando previsto a conclusão do referido estudo no decorrer de 2017.

(foto PNS)
(foto PNS)

Ora, que papel quer o Governo ver reforçado nas farmácias, as quais receberam com bom-grado a notícia, uma vez que terão receitas extraordinárias oriundas do Estado, facto que reanimará, por certo, um setor que se encontra em crise desde a altura em que foram efetuados cortes nos impostos aos medicamentos comparticipados?

Pois bem. As farmácias poderão renovar receitas de doentes crónicos; dar assistência em casos sem gravidade; controlar a adesão à terapêutica; prevenir erros de idosos e doentes muito medicados; e sensibilizar os “utentes” para reações adversas ou à medicação da glicemia ou à do colesterol.

José Manuel Silva: “Reforço do papel das farmácias só com medidas excecionais”

(Foto Google)
(Foto Google)

O Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, disse já não concordar com a medida, “excetuando”, contudo, “medidas excecionais”, enfatizando o facto, que “para o ano, todos os portugueses vão ter médico de família” pelo que seria incongruente reforçar o papel das farmácias no apoio aos utentes do SNS.

Por seu turno, Paulo Cleto Duarte, presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), em declarações ao “Expresso”, reconheceu que a “medida do Governo é muito positiva”. “As farmácias terão de trabalhar para provar que são eficientes na implementação dessas políticas”, disse.

Mais: “As farmácias apenas querem ser remuneradas pelo valor que trazem ao sistema de saúde. O Estado remunera múltiplas atividades privadas, como por exemplo concessionárias de autoestradas, serviços de televisão ou segurança; e o serviço público garantido pelas farmácias distingue-se por ser muito mais valorizado pela população mas remunerado muito abaixo, ao ponto de não cobrir os custos da farmácia média”, referiu ainda Paulo Cleto Duarte, ao referido semanário.

(foto Google)
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Entretanto, o “Etc e Tal Jornal” foi saber qual a opinião de uma médica e de uma farmacêutica, ambas Fernanda, por curiosidade. Como que, por curiosidade, ambas – com algumas reticências aqui ou ali -, concordam com o projeto que está a ser desenvolvido pelo Governo.

Fernanda Ferreira: “Só os médicos têm formação académica para fazer diagnósticos”

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Para Fernanda Ferreira, médica e colunista do nosso jornal, sendo autora da rubrica “Temas de Medicina”, a “renovação de receituário crónico poderá ser feita nas farmácias, o que concordo, por descongestionar os Centros de Saúde, mas deverá ter em atenção que, mesmo a medicação crónica, deverá ser revista pelo médico, porque, ser crónica não é o mesmo que ser vitalícia, e só quem tem o processo clínico do doente e faz controlo com meios complementares de diagnostico, poderá avaliar se a mediação é para manter ou substituir”.

Já relativamente à assistência, nas Farmácias, a pessoas em caso de situações sem gravidade, Fernanda Ferreira refere que “tudo depende do que se entender por “sem gravidade”, uma vez que o facto de se conhecer farmacologia e conceitos terapêuticos, não avaliza um farmacêutico a fazer diagnósticos e a medicar com base num diagnóstico só de presunção.”

A médica e colunista no “Etc e Tal Jornal”, diz “concordar” com o objetivo de as Farmácias poderem “ajudar os idosos polimedicados para que haja menos risco de engano. Considero uma mais-valia, uma vez que como cada principio ativo poderá ter uma apresentação em cápsulas ou comprimidos, e variar de cor dependendo do laboratório que o comercializa, muitas vezes os utentes tomam medicação a dobrar por pensarem ser princípios ativos diferentes.”
Quanto a sensibilizar para as reações adversas, Fernanda Ferreira tem também uma opinião positiva, ainda que alerte para o facto de que a referida sensibilização seja feita “sem assustar o doente”.

As farmácias, em seu entender, devem “incentivar o doente a não comprar determinado medicamento, ou a não cumprir a medicação prescrita (como já vi fazer). Mas, repito: quem tem formação académica para fazer o diagnóstico é o médico, pelo que há sempre o risco de erro.”

Fernanda Oliveira: “O verdadeiro trabalho das farmácias é junto das populações”

(foto AA)
(foto AA)

Fernanda Oliveira, diretora técnica da (centenária) Farmácia do Bonfim (Porto), não podia estar mais de acordo com o estudo que o Governo está a desenvolver e que poderá ser posto em prática já no decorrer do próximo ano. Pelos vistos, o reforço do papel das farmácias, no apoio a doentes é bem-vindo e muito útil para a comunidade, como enfatiza a nossa entrevistada.

“Concordo com o estudo e com as novas regras quanto ao reforço do papel das farmácias”, começou por dizer Fernanda Oliveira, abordando de seguida, e quase ponto por ponto, as medidas a serem implementadas.

“Dar apoio a doentes polimedicados é, sem dúvida, muito importante. Haver controlo e supervisão, das farmácias, desses doentes, é essencial. É que, muita das vezes, eles ficam cansados, ou porque vivem sozinhos, ou porque estão chateados com a sua própria doença, ou pelo seu próprio estado de espírito, e não fazem a devida ação terapêutica. Os doentes, em meu entender, não devem mudar, constantemente, de farmácia.”

“Quando o doente pede um recibo em seu nome, ele, ao tirar esse recibo, ajuda-nos a controlamos a frequência com que a pessoa vai à farmácia. Temos, assim, e nestes casos, a preocupação de saber o porquê de não ter vindo há uma semana, ou há um mês à farmácia; se tem estado acamado… se continua doente. Enfim, fazemos, por assim dizer, um acompanhamento. A assiduidade com que eles vêm à farmácia é muito importante, como importante é a sua fidelidade à mesma.#

(foto AA)
(foto AA)

No entender de Fernanda Oliveira, “a farmácia, como estabelecimento de saúde é muito importante para a comunidade. Ela está espalhada por todos os sítios do país. A farmácia está mais espalhada pelo país do que os tribunais, ainda que algumas já tenham pedido insolvência.”

Um problema “grave” que, como refere a nossa entrevistada, “surgiu após a troika. Nessa altura, “esmagaram” tanto a nossa margem lucro, como também “esmagaram” os pagamentos e o poder de compra do cidadão português. Passou-se por uma grave crise.

Crises á parte, o importante, agora, – realça Fernanda Oliveira – é “as farmácias, entre outras coisas seguirem os doentes polimedicados. Há pessoas menos cultas, e até analfabetas, que precisam das explicações do farmacêutico para o cumprimento da dosagem dos medicamentos prescritos. É que, se deixarem de tomar a medicação – por exemplo, um diabético – podem correr o risco de terem muitas sequelas: o pé diabético; as cataratas; a paragem do rim, etc.”

Diminuição de custos para o Estado

“Para o Estado”, continua, “ficará muito mais caro dispensar camas hospitalares para esses doentes, assim como os consequentes cuidados médicos, pelo que a nossa prevenção (nossa: a das farmácias), e o nosso seguimento é muito importante para que se possa poupar milhões de euros.”

“Falei da diabetes, mas podia também falar do colesterol. Aí, incentivamos o doente a fazer uma alimentação mais equilibrada; a ter uma melhor higiene de vida… a andar; a fazer caminhadas. Assim sendo, penso que a terapia é importante neste caso, pois o doente pode vir a ser vítima de ataque cardíaco; podem ficar acamados ou para paralíticos. O nosso objetivo futuro, é a farmácia participar ativamente neste tipo de prevenção.”

Ações de formação

Relativamente ao apoio nas Farmácias a doentes em casos não urgentes, Fernanda Oliveira está também de acordo com a medida.

“Saiba que o farmacêutico tem seis anos de licenciatura, mais o estágio. Temos também formações permanentes – por obrigação da Ordem – de modo a revalidar a nossa carteira profissional anualmente. As formações são dadas quer fora, quer dentro da farmácia. Com essas ações formativas, ficamos preparados para resolver pequenos casos de saúde de várias vertentes. Isso dá-nos a possibilidade de aconselhamento direto (presencial) para determinados problemas de saúde, que se apresentam fáceis de tratar o doente e este não “entupir” assim uma urgência hospitalar, ou um centro de saúde.”

Diagnósticos

(foto Google)
(foto Google)

Defendendo que os diagnósticos “só mesmo os médicos é que os podem fazer”, a diretora técnica da Farmácia do Bonfim volta a valorizar o papel interventivo das Farmácias junto das pessoas, combatendo, por assim dizer, a curiosa corrida à Internet.

“Se os doentes vão a um fórum na internet para se aconselhar sobre esta ou aquela maleita, sabendo que por lá se diz muita asneira, por que não deslocar-se à farmácia e, presencialmente, tratar do assunto com um especialista que os aconselhará devidamente? Nós estamos cá para dialogar e esclarecer tantos os clientes habituais, como os outros. Há até estrangeiros que aqui se dirigem e fazem as suas perguntas sobre esta ou aquela doença.”

O (atual) papel das farmácias

O papel das farmácias é já visível em certas situações, como por exemplo, a troca de seringas, mas a Associação Nacional das Farmácias (ANF) espera chegar mais longe e celebrar outros protocolos com o estado e, designadamente com o Ministério da Saúde.

“A ANF está aberta à negociação de novos protocolos, como por exemplo dar apoio direto a doentes que estejam a fazer quimioterapia; apoio esse extensível a doentes com medicação crónica para doenças que são dispensadas em farmácias hospitalares. Pensamos também dispensar medicamentos, dentro da farmácia, a doentes que têm de percorrer grandes distâncias para se deslocarem a hospitais centrais para adquirirem medicação. Essa medicação, espera-se que possa vir a ser dispensada pelas farmácias. O doente poupa dinheiro e tempo.”

Relação farmacêutico-médico

Quando se fala num maior reforço do papel das farmácias, há quem pense na substituição do médico de família pelo farmacêutico. Pensamento, pelos vistos, errado, já que um não se substitui ao outro. Pelo contrário, ambos colaboram entre si. Fernanda Oliveira esclarece.

“Por exemplo, quando as pessoas reagem mal a um medicamento podemos alterar a prescrição médica? Não! Temos, isso sim, que informar, de imediato, o médico assistente ou de família das reações adversas detetadas. Há um protocolo para isso. Por vezes há receitas cruzadas (enganos), telefonamos, por exemplo, para o serviço de urgência de onde vem o doente, e a médica de serviço dá-nos as informações necessárias para colmatar o problema.”

Genéricos

(foto Google)
(foto Google)

Como que em suma, a nossa entrevistada concorda com o estaudo que o Governo está a desenvolver, pois “tudo que seja um avanço na saúde pública, a bem da comunidade, é sempre bem-vindo.”

Mais: “como houve um “esmagamento” das margens e do preço dos medicamentos genéricos – porque há medicamentos genéricos que são fornecidos a custo zero ao utente. As pessoas escusam de andar a procurar farmácias com descontos. Todo o medicamento genérico é autorizado pelo INFARMED, por isso é um medicamente que tem biodisponibilidade; ou seja, está preparado para fazer o seu efeito, e entre os quatro mais baratos, todos eles têm a sua ação. Se o doente permitir que seja dispensado, há medicamentos a custo zero ou a escassos cêntimos.”

“O Estado tem portanto”, continua Fernanda Oliveira, “projetado que, por cada embalagem que entre no grupo das quatro mais baratas, dar um prémio à Farmácia de 35 cêntimos. É um pagamento de 35 cêntimos que se o medicamento for a custo zero, tratar-se-á de um prémio para as farmácias. Se não for das mais baratas, mas que a mesma ultrapasse um ou dois cêntimos, nós podemos retirar esses cêntimos para baixar o preço e o medicamento entrar no leque das quatro mais baratas, ou a custo zero. Aí perdemos alguns cêntimos, mas, pronto! É bom, entretanto, que se saiba que o processamento de uma receita fica por 35 euros dentro de uma Farmácia, isto segundo um estudo efetuado pela Universidade de Aveiro.”

“Há concorrência desonesta entre as farmácias”

Num universo de três mil farmácias (em Portugal), independentemente de cerca de meio milhar tenha pedido insolvência, imagina-se, facilmente, que nesse “mundo” tudo esteja “pintado” a cor-de-rosa…

“Há, na verdade, concorrência desonesta entre as farmácias. Desde que houve liberalização das Farmácias, essa liberalização nem sempre foi sinónimo de lisura. As farmácias vendem-se rapidamente. Aparecem gestores que que prometem fazer maravilhas, mas que, passado um ou dois anos, desaparecem do mapa. Pensa-se que elas, para se “safarem”, vivem à custa dos descontos nos medicamentos. Não! É mentira! As farmácias fazem-se com os seus trabalhos; com o trabalho junto das populações. É aí é que têm mostrar o que é que valem! A Farmácia existe pela prestação de trabalhos na área da saúde pública e com isso o Estado pode poupar milhões e milhões de euros.”, diz Fernanda Oliveira

O que é que as farmácias mais podem fazer?

“A promoção da qualidade de vida. Desde a adesão à terapêutica, à supervisão das doenças. A prevenção! O tabagismo é outra grande área. Os jovens com 14, 13, 16 anos estão a fumar. Essa área devemos trabalhar. Esclarecer, dizer, mostrar. Não chega as pornográficas imagens que estão nos maços de tabaco, tem de haver protolos com as escolas e juntas de freguesia para lutar contra este flagelo. Os jovens aderem a estas iniciativas porque são inteligentes… “ concluiu a diretora técnica de uma das mais antigas farmácias da cidade do Porto, a do Bonfim.

 (*) Consulta: “Expresso”

01nov16

 

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