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Sexo fluído

António Pedro Dores

Pensava não ser um ignorante. Durante alguns anos tenho colaborado com uma associação gay e sido confrontado com as diferentes sensibilidades entre activistas gays, lésbicas e transgénero. A par do alheamento da generalidade do público, incluindo pessoas com orientações de género não cis (cisgénero, acabei de aprender, é como se designam as pessoas que se conformam com o género que lhe foi atribuído à nascença), os activistas desgastam-se em disputas intestinas por razões ideológicas e também por haver uma hierarquização de prioridades de que a transsexualidade é última.

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Assisti, por curiosidade e para minha surpresa, a uma conferência sobre “Diversidade de género na infância”. Que me disse – porque é que não era evidente antes? – que o género não se define aos 18 anos, aquando da idade adulta legal. Pelo contrário, começa a definir-se na infância e muito cedo, dois, três anos, e é imediatamente alvo de correcções, repressões, liberdades, amor ou desafeição, rejeição e traumas. Dos pais, dos amigos, dos colegas, das pessoas que não conhecem de lado nenhum as crianças, dos educadores e dos profissionais de saúde. O que vestir, como cortar o cabelo, como se despir para actividades físicas, com quem conviver, tudo são escolhas marcadas pelo género e que podem ser obstáculos à livre expressão do que as crianças sentem, muito antes da puberdade.

A ideia de a sexualidade infantil não ter tanta importância assim, afinal as crianças são seres humanos em projecto, permite a quem com elas contacta não dar atenção ao sentido de género que as acções das crianças comportam. Mas a incomunicação dessas crianças com o mundo, incluindo as pessoas que as amam e que elas amam, não lhes passa desapercebida. Como dizia um testemunho, “estou cansado de ser como sou!” Invisível. Tolerado desde que não se manifeste.

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Na adolescência, claro, tudo explode. Os cuidados de saúde que poderiam atenuar e eventualmente tornar tolerável o desajustamento da sua pessoa com o seu corpo e os perfis socialmente dominantes passam a ter outro grau de intensidade e de irreversibilidade. A intensidade das dinâmicas sociais próprias da idade, as expectativas dos pais, dos familiares, dos amigos – o que queres ser quando fores grande? Já tens namorada/o? Que desporto escolher? – tornam mais urgente assumir plenamente a identidade social estigmatizada como pessoal.

Um indicador (mais de 40% de incidência de tentativas de suicídio) serve para mostrar como o desajustamento pessoal é gigantesco nas pessoas que vivem a repressão das respectivas identidades de género desde a infância. Como é que é possível que passe ignorado? Como é possível que eu próprio não tenha tido a oportunidade de parar para pensar durante os meus sessenta anos de vida? Por que só desta vez partilhei as minhas lágrimas emocionadas com uma declaração de amor de um pai para com o seu filho/a ainda na infância?

Há meninas que preferem ser meninos, o vice-versa e há ainda os que preferem não se definir. Vão sendo aquilo que vão sentindo em cada momento e que não é fixado pelos padrões de género maniqueístas que a nossa sociedade adoptou e impõe. São as pessoas de género fluído.

O sofrimento destas pessoas e das suas famílias não é evitável. (“Não dramatizes” pediu um filho à sua mãe que foi apresentar o seu caso – deles). Os conflitos intrafamiliares e entre amigos existem e podem ser devastadores. O que é melhor para o nosso amor, @ nosso filh@? Proteger a sua liberdade ou ajudá-l@ a adaptar-se às regras sociais? O que esta conferência assumiu foi a luta contra as discriminações. Ao menos aquelas de que sofrem as consequências mais directamente.

Um dia senti-me apaixonado por um colega meu de escola. Perguntei à minha mãe o que fazer com aquele sentimento. A minha mãe riu-se e disse-me: “Não tenho dúvidas de que és um homem!” Recordo este episódio por que imediatamente fiquei com a sensação de que aquela resposta da minha mãe me aliviou muito sofrimento. Ela confiou na minha liberdade de opção. Todos devíamos poder viver a nossa sexualidade com a mesma leveza.

Quando mães que prestaram testemunho falaram das culpas que sentiram e sentem por terem falhado (ou poderem ter falhado) em momentos decisivos da vida dos seus filhos, sem má intenção mas com todas as consequências que a relação maternal tem, deram-me um vislumbre do que a sociedade pode fazer (para o melhor e para o pior) com cada um de nós.

Como comecei por dizer, nunca tinha pensado no assunto antes. A não ser como um preconceito: imaginei que se os transgéneros gostavam de o ser, por isso, teriam que assumir todas as responsabilidades sozinhos; na verdade as culpas. Mas as crianças?

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Agora que caí em mim – obrigado AMPLOS – pergunto-me: não seremos todos animais de sexo e género fluídos? Não será a sociedade – desde quando? Como? Para quê? – a conformar-nos aquilo que acabamos por incorporar? Não devemos nós, cada um de nós, partilhar com a sociedade as responsabilidades por aquilo que somos? Por que razão devemos privilegiar os seres humanos mais adaptativos e reprimir tão insidiosamente os mais criativos? Por que é que o mérito vai todo para os fingidores e não vai nada, nada, nada, para os que não têm nem querem ter essa capacidade de conformidade social?

Fotos: Pesquisa Google

Obs: Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01nov16

 

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