Sophia, aquela que é considerada uma das maiores poetas do séc. XX, era filha de Maria Amélia de Mello Breyner e de João Henrique Andresen. Nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919, no seio de uma família aristocrática e da alta burguesia da cidade, “[…] uma grande e rica família servida por uma criadagem numerosa”, segundo as suas palavras.
Com ascendência dinamarquesa pelo lado paterno, mais concretamente por parte do seu bisavô, Jan Heinrich Andresen que veio para Portugal, instalando-se no Porto.
A casa de infância de Sophia foi na Quinta do Campo Alegre, que é hoje o Jardim Botânico do Porto. Também a praia da Granja foi um dos locais frequentados por Sophia, pois aí passava o Verão. São, muito provavelmente, os dois lugares que mais e melhor retratou na sua obra, porque expressam a memória da infância e as suas vivências mais genuínas. A casa da Granja, por exemplo, surge no poema “Casa branca em frente ao mar”, no conto “A Casa” e em “A Menina do Mar”.

O seu encontro com a poesia aconteceu muito cedo, quando aprendia versos de cor, sem mesmo ainda saber ler, ouvindo-os na voz de outras pessoas, como o seu avô que lhe recitava Camões e Antero de Quental ou, através das empregadas da casa, que lhe ensinaram a “Nau Catrineta”, ou uma oração que era rezada em voz alta, em noites de temporal.
Os seus primeiros poemas foram escritos por volta dos 12 anos mas, só bastante mais tarde é que publicou o primeiro livro, numa edição paga à sua custa, cujo título é “Poesia”.
Entre 1936 e 1939, frequentou o curso de Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, onde consolidou a sua formação clássica de matriz helenística.
Em 1940, os seus poemas foram publicados nos “Cadernos de Poesia” e foram uma revelação no panorama literário português, pois anunciavam-se já algumas das características da sua arte poética, elaborada a partir de uma linguagem simples e transparente.
O seu casamento com Francisco Sousa Tavares, jornalista, político e advogado, teve lugar em 1946, passando a viver em permanência, em Lisboa. Do casamento nasceram cinco filhos e, foi a pensar nos seus filhos que começou a escrever contos para a infância.
Ao longo da sua vida, Sophia olhou o Mundo com uma atenção muito apurada, com um sentido de justiça muito elevado e uma permanente preocupação com a situação que se vivia, sobretudo em Portugal. Por isso, foi opositora do regime salazarista, insurgindo-se contra a política do Estado Novo, denunciando a injustiça e a repressão, a censura e o autoritarismo, as profundas desigualdades sociais e a condição de pobreza da população.
Participou na campanha de eleição de Humberto Delgado à presidência da República, em 1958. Foi amiga do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, comungando dos mesmos ideais de liberdade por ele defendidos.
Com a revolução do 25 de Abril, foi eleita pelo círculo do Porto, do Partido Socialista, como deputada à Assembleia Constituinte, na legislatura de 1975/1976, participando da elaboração da nova Constituição Portuguesa.
A sua voz jamais se calou em defesa dos cidadãos: lutou pelo apoio à educação e à cultura do povo; pelo direito a um ensino para todos; pela implementação de medidas para os deficientes físicos e mentais,…
Sophia foi autora de catorze livros de poesia e escreveu também obras variadas de cariz infanto-juvenil, além de artigos, ensaios e peças de teatro. Traduziu para português diversos autores, nomeadamente Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses.
A obra de Sophia revela o contacto com a rica cultura grega clássica e com o universo cristão que a rodeava no seu quotidiano.
A sua poesia está intimamente relacionada com os elementos fundamentais da natureza: a terra, o mar, o sol, o vento, a bruma, … Mas, também salienta a fantasia dos jardins misteriosos, dos labirintos indecifráveis, dos duendes e das fadas, do verde das florestas, da espuma do mar, das ilhas encantadas, do amor,…
Sophia dizia que “A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso, o poema não fala de uma vida ideal mas de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.”
A sua escrita, pela simplicidade da linguagem que utiliza, pela singularidade e pela magia que transmite, fazem a sua obra imortal, quer na poesia, quer na prosa. Algumas das suas obras dedicadas ao público infanto-juvenil, nomeadamente, “A menina do mar” (1958), “A Fada Oriana” (1958), “A noite de Natal” (1959), “O Cavaleiro da Dinamarca” (1964), “O Tesouro” (1970), “A Árvore” (1985), são peças literárias que encantarão sempre quem as ler.

Recebeu vários prémios e condecorações de que destacamos:
– Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores (1964);
– Prémio Teixeira de Pascoaes (1977);
– Prémio da Crítica pela Associação Internacional de Críticos Literários (1984);
– Grande Prémio Calouste Gulbenkian para Crianças (1992);
– Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (1994)
– Prémio Petrarca, da Associação de Editores Italianos (1995)
– Prémio Luís Miguel Nava (1998);
– Prémio Camões (1999);
– Prémio Rosalia de Castro (1999)
– Prémio Poesia Max Jacob Étranger (2001);
– Prémio Rainha Sofia de Espanha de Poesia Ibero-Americana (2003).
Foi condecorada três vezes pela República Portuguesa, respectivamente com o grau:
– de Grã-Oficial da Ordem de Sant’Iago e Espada (1981);
– de Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1987);
– de Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago e Espada (1988).
Foi ainda distinguida com o título de Doutor Honoris Causa, na cerimónia comemorativa dos 25 anos da Universidade de Aveiro, em Dezembro de 1998.
A grande poeta Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004, com 84 anos. Foi sepultada no cemitério de Carnide de onde passou, mais tarde, para o Panteão Nacional.
Texto: Maximina Girão Ribeiro
Fotos: Pesquisa Google
Obs:Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
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