Ivo Ribeiro / Tribuna Livre
Na vida temos cores, mil cores que nos falam ao coração através dos olhos, são por isso as ruas em que seguimos, os pequenos pecados em pedaços, de mim…de ti…de todos enfim!
Pedaços de tela e de mim
Descobri uma tela
Numa esquina de uma viela
Ao cruzar uma rua do meu pensamento
Fui dar com tintas e pincéis abalroados ao relógio
De neles ao tempo ido não mais ter voltado a pegar
Fui com o estudo do tempo que não tinha
E de água senti pincel e rosas quebrando a minha alma
Rezei em sino que naquele momento apenas eu fizesse existência de não ter existido
Esperei imaginação num gesto de deleito comigo próprio
Esbati tina e impressão digital
Na tela cheia de branco e de nada
E por isso, tanto me custou repintá-la
Foi a beldade que descobri
E a escrita que concebi
Com a saudade de nunca mais ter voltado a pegar na tinta
Que horas depois me escorria com água corrente caindo e recaindo na minha mão
Que por isso afagava meus cabelos,
E beijava meus pés
Enfim fechei a água, da amargura que despoletei
Torneira enclausurada de cruzes sentenciadas
Água corrente, mas não livre
E conta matemática e artística
Usei, predispus e desposei,
Pincel e tinta em tela virgem
Perpetuei depois pincelada e dedada num amontoado de cores vivas, que juntas à tela deram tom soturno
E fica tela, escorrendo gotas que lhe salpiquei
Como num baptismo,
Mas não benzi
Apenas mal disse
Do tempo que passou
E que agora, apenas relembro…
Que verdade?
Que verdade procuramos para viver nos nossos dias?
Que cores usamos para salpicar a tela da vida?
Da nossa, vida…
Porque é que nos tornamos loucos por algo que não defendemos
E porque é que nos resignamos face a tão precárias magnificências
Quem somos e o que fazemos?
O eu fazemos de nós??
E o que farão as gerações vindouras?…
Natal do que sou
Quero um Natal longe de sonhos
Quero um Natal sem hipocrisias
Quero no meu Natal, a realização das minhas consagrações
No meu Natal, não quero globos espelhados refletindo almas vazias
Nem luzes brilhando cruzando polos na imaginação
Não quero utopias de Sãos Nicolau vertiginando compras ou lojas
Nem carros fitados e dinheiros comprados
Não quero ruas cheias de gente de nenhum
Não quero lojas promovendo ou descontando o paraíso e o inferno
Carteiras cheias e pinheiros ocos carregados por luxúrias e mentiras
Não quero no meu natal, cartões postais e textos escritos
Depressões filosóficas ou arrependimentos satíricos
No meu natal não quero almas inconstantes de presentes descontáveis
Nem animosidades relativas ou energúmenos ficcionais
Não quero ver a caridadezinha orientando um povo
Enrolando em mortalhas estimuladas durante todo um ano
Não quero hospitais cheios de lágrimas, cemitérios mentais, barrigas saciadas de nada, ou dinheiro fugido por uma assobiadela do destino, nem farrapos cobrindo o que teima congelar
Neste meu Natal
Quero puramente ver um vela iluminando todo o mundo
Quero sentir calor de lareiras ou aquecedores desligados, apenas aconchegado nos corações a quem sou e me é caro
Quero só cobrir-me numa manta de meus avós, sorrir com minha mãe e brincar com a minha imaginação
Quero unicamente algo que me alimente o espírito,
Que me sacie a organicidade corporal
E ser eu, o prazer de mim mesmo
Quero neste Natal, ser a alegria do que não escrevi
Quero ser pauta indefinida e música por tocar
Ser sino de igreja tocado em silêncio
Ser simples e belo vivendo o presente sem nada mais
Quero um sorriso nos lábios de cada um
E lágrimas caindo não por solidão, mas antes, por comunhão
Quero ser brinquedo da criança que outrora fui, e ser maturidade no homem que serei
Quero ser filho, e ser avô,
Natal é isso, é contar o presente por cada envelhecimento
Nascer estando mortos
Evocar memórias
(Re)Descobrirmos-mos
Eu quero só isso…mas nem tão pouco disso sonho ter
Escrever é nada
Viver é tudo…
Fotos: Ivo Ribeiro
01dez16


