Ivo Ribeiro
Olho para não ver; sorrio para não sentir; tudo enfrento por me não rever nesta ambiguidade de existir…
Epitáfio da consciência
O medo da morte
É uma consequência de se estar vivo
Quem tem medo dela
Da sua, ou da dos outros,
É quem vive plenamente
Viver é uma união de facto entre o nascimento e o dia fúnebre
Cabe ao fado de cada um, a agenda da vida, a concretização de uma divindade
A morte é uma dor
Tão dor que dói só de se imaginar
Que nossos mais próximos parentes um dia por fim
À cova irão dar
Uns vivem morrendo
Outros morrem vivendo
Mas o casamento ideal entre estes dois parâmetros antagónicos e fugazes
Tão fugazes como o sonho de mistério da pátria que vos contempla
Seja desse modo, simples brasão na arte de recriar vida e seres humanos
A terra, mãe nossa que nos viu nascer, como às plantas alimenta-nos e enraíza-nos
E um dia a ela, retornaremos
Todo o escritor escreve sobre as temáticas prementes em seu estro
Mas todos o ser vivente
Faz da sua vida,
Um poema inacabado…
“Do caixão à cova”
Lusco-fusco trespassante
Brilho transparente,
E árvore que gemia ao rumor do vento
Estalidos que dava o braseiro no oco tronco,
Ou flamejante chama que luzia aos deuses
Apensa incêndio
Simples fogueira
Mas lá dentro, bem dentro,
Uma catarse sentida
De alguém
Que como as árvores
Tinha um dia de morrer de pé
Não me apraz
Ironias e cansaços dos braços que não cruzei
Antes, apartei á consciência indigna de meus passos
Dos, meus próprios passos
De arquiteto vil e desprezível, fui pintor destemido e indesejado
Apenas indivíduo cumprindo um destino que o usa como um “necessaire”
Onde, à cabeceira da cama da vida, escondo em lâmpada a vidraça incauta que parti
Gás cedendo alma aos químicos, que como ampolas polvilham o céu e as rosas do mundo em que me encontro
Lareira apagada de mim, de um fogo ardendo, intensamente
Água terrivelmente fria, que lá fora cai cá dentro, em mim
Ou arbusto celerado da compaixão vindoura
Não…
Apenas tela translúcida, mas opaca à minha mente
Que de luneta em luneta, acende lume e cinzas, do fogo que outrora fui
Hoje, sou antes incêndio, que só fogo
Eucaliptal, tocando oxigénio e carbono que de nariz, em pés na terra, não consigo doutro modo alcançar
Sou metáfora à vida que não tive
Mas sou também poema inacabado
À espera de poeta falecido….
Fotos: Ivo Ribeiro
01jan17


