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Eça de Queirós e a sua ligação ao Porto

Maximina Girão Ribeiro

Embora nem sempre se tenha dado muita importância à ligação de Eça de Queirós ao Porto, talvez porque não tivesse nascido nesta cidade e tenha vivido mais tempo fora dela, o certo é que existem fortes ligações entre o escritor e a Invicta.

José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim a 25 de Novembro de 1845 mas, entre 1855 e 1861 frequentou, como aluno interno, o Colégio de Nossa Senhora da Lapa, desta cidade, onde estudou as disciplinas correspondentes a um ensino secundário. Usando a designação francesa, este colégio era também conhecido como “Liceu da Lapa”, dirigido pelo pai de Ramalho Ortigão. Com dezasseis anos, Eça de Queirós ingressou na Universidade de Coimbra, onde estudou Direito e quando, em 1866 terminou a licenciatura passou a viver em Lisboa, exercendo a advocacia e o jornalismo.

Igreja e Colégio da N. Sra da Lapa - Porto (3.º quartel sec. XIX)
Igreja e Colégio da N. Sra da Lapa – Porto (3.º quartel sec. XIX)

Mas, a sua passagem pelo Colégio da Lapa proporcionou-lhe amizades de grande importância para a sua vida futura. Este colégio situava-se perto da Quinta de Santo Ovídio, propriedade que, à época, era residência dos Condes de Resende, família com a qual travou conhecimento, estabelecendo uma forte relação de amizade com os jovens, filhos desta família: Luís, o herdeiro do título de conde de Resende e o irmão deste, Manuel, que viria também a herdar o título, dado que o mais velho teve morte prematura, após uma viagem ao Oriente, viagem que realizou na companhia de Eça de Queirós, de 23 de Outubro de 1869 a 3 de Janeiro de 1870.

Casa dos Pamplonas
Casa dos Pamplonas

A amizade com esta família perdurou e reforçou-se dado que, em 1886, Eça de Queirós casou com D. Emília de Castro Pamplona (Resende), filha dos proprietários na Quinta de Santo Ovídio, no Porto, efectuando-se aí o casamento, na capela particular do solar, em 10 de Fevereiro desse ano.

Esta vasta propriedade, com uma área de 6 hectares, era composta pela quinta, palácio e capela, cocheiras e cavalariças, parques e jardins, campos de cultivo e situava-se entre a actual Praça da República, com entrada pelo nº. 61 e a Rua de Cedofeita.

Eça de Queirós e D. Emília de Castro
Eça de Queirós e D. Emília de Castro

Primitivamente era conhecida pela denominação de Quinta da Boa Vista e possuía uma capela dedicada a S. Bento e Santo Ovídio. Situava-se entre o Campo da Regeneração (Praça de Santo Ovídio, chamada desde 1910 até à actualidade, como Praça da República) e prolongava-se até à Rua da Boavista, através de vários parques e campos de cultivo, chegando até à Rua de Cedofeita e estendendo-se para Sul até ao Largo do Mirante (hoje Praça do Coronel Pacheco).

O Palácio de Santo Ovídio, edificado no século XVIII, cujo risco poderá ser da autoria de Nicolau Nasoni, segundo opinam alguns autores, foi construído para a família Figueiroa mas, no séc. XIX, chegou à posse dos Condes de Resende. Por isso, a quinta foi conhecida por “Quinta dos Figueiroas” e, mais tarde, por “Quinta dos Pamplonas”.

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Quando em 1890, Eça de Queirós que já vivia em Paris, exercendo a actividade de diplomata, teve de vir ao Porto por motivos de partilhas, por morte da condessa de Resende, defrontou-se com um palácio já muito degradado e um arquivo histórico, propriedade da família, quase inteiramente destruído, isto para grande constrangimento do escritor que, em carta a sua mulher, se lamentava do estado em que se encontravam pergaminhos de inestimável valor.

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Algum tempo depois, a partir de 1892, os herdeiros dessa belíssima propriedade iniciaram a alienação da quinta, a qual foi vendida em 144 lotes, o que deu origem ao desmantelamento do palácio e restante propriedade e à posterior abertura de uma rua desde o Campo da Regeneração até à Rua de Cedofeita, ou seja, a actual rua de Álvares Cabral…

Eça de Queirós, escritor, um dos mais notáveis cultores da língua portuguesa e cônsul, sucessivamente colocado em Havana (1872), Newcastle (1874), Bristol (1878) e Paris (1888), embora vivendo por muito tempo fora de Portugal, haveria de voltar muitas vezes ao Porto e ao Norte, sobretudo a Santa Cruz do Douro, concelho de Baião, à casa de Tormes que foi o lugar de inspiração para a sua obra literária “A Cidade e as Serras”.

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Quando vinha ao Porto, Eça de Queirós hospedava-se em hotéis, nomeadamente no Grande Hotel de Paris, onde permaneceu entre Novembro de 1885 e 10 de Fevereiro de 1886, tempo que antecedeu o seu casamento com D. Emília de Castro. Sabe-se que, deste hotel, ele enviou 14 curtos bilhetes, através de um portador, para a residência da sua noiva, assim como correspondência para os seus amigos Ramalho Ortigão e o Conde de Ficalho.

Igualmente foi hóspede frequente do Grande Hotel do Porto, na rua de Santa Catarina, fazendo dele o seu escritório, quando vinha ao Porto.

É sabido que Eça de Queirós não morria de amores pelo Porto, pois punha sempre Lisboa em primeiro lugar.

Em 1884, ainda solteiro, quando Eça elaborava a sua obra “A Relíquia” e pretendia vir ao Porto para trocar ideias com Ramalho Ortigão sobre as personagens da sua obra, escreveu de Lisboa uma carta, em Agosto desse ano a Luís de Magalhães em que se queixava da cidade:

«[…] rabisco-lhe à pressa estas linhas, para lhe perguntar se você ainda estará no Porto para a semana que vem, que é quando eu conto sair daqui […]. Dizem-me que o Porto está deserto como o coração sem esperança. Parece que as senhoras de Santo Ovídio se acham numa dessas praias políticas de que se fala em artigos de fundo [referia-se à praia da Granja]. Parece que Oliveira Martins não se encontra também no covil filosófico da Boavista. Você anuncia que vai, não sei para que longínquos areais… [referia-se à praia da Costa Nova, junto a Aveiro]. Então que resta do Porto? A liberdade? É pouco.»

Apesar destas considerações, o escritor vinha ao Porto sempre que podia, pois existia algo que o atraía aqui e que lhe agradava: a amizade com Ramalho Ortigão, as afinidades com os elementos da família proprietária da Quinta de Santo Ovídeo, as recordações da sua juventude, os lugares que fizeram parte do seu percurso de vida,…

Fotos: Pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal Jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01jan17

 

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