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EXCLUSIVO: ENCONTRAMOS QUEM SEMEIA FLORES NUM CAMINHO DE PEDRAS

Estão aqui à nossa porta e às vezes nem damos por eles, ou por elas. Já tínhamos conhecimento do caminho duro, difícil, de… pedras; de um caminho íngreme, aparentemente, impossível de percorrer, mas desconhecíamos, na realidade, e presencialmente, quem nesse mesmo caminho sabe e gosta de semear flores. Procuramos e encontramos essa nobre gente …

Texto: José Gonçalves

Fotos: Amadeu Almeida

Estamos no Porto, mais concretamente, em Campanhã. É de noite. Está frio (“fruta” da época”, dizem). O “Etc e Tal Jornal” sabe que por aqui, assim como por muitos outros sítios, mas, por aqui, há vários caminhos de pedra – muito duros –, por onde caminham, diariamente, centenas e centenas de pessoas.

No calendário: 24 de dezembro de 2016. A viagem começa na praça da Corujeira. É véspera de Natal. Por nós – seguindo um outro trilho -, passam pessoas carregadas de sacas, certamente, a caminho de casa para cearem.

O vento é incomodativo. Aquecemo-nos, temporariamente, num café da área. É-nos oferecido o consumo, e quem nos serviu não nos conhecia de lado algum. O Natal – às vezes – também tem destas (inesperadas e bonitas) coisas.

Decidimos, então, percorrer um dos caminhos de pedras, que sabíamos terminar num local seguro, reconfortante. Um caminho – repito – percorrido, diariamente, por centenas e centenas de pessoas, faça chuva, sol, frio ou calor. Quem o percorre, normalmente, vive só; alguns nem casa têm; outros, mesmo acompanhados, estão tristes porque a comida é coisa rara, a casa está fria… há desconforto físico e psicológico.

Foto. Pesquisa Google
Foto. Pesquisa Google

Metemo-nos, então, no caminho do caminho dessa gente que carece de apoio; que a vida transformou num percurso íngreme, de um empedrado desordenado, que dá cabo do corpo, da paciência e, muitas vezes, da alma, isto à procura de alguém – como nos tinham informado – que por esses trilhos semeia flores e, com gosto, dá os seus rebentos aos corajosos caminhantes, sem nada em troca. Ou melhor, com a troca do seu carinho”; do seu abraço; do seu beijinho, ou do seu simples, honesto, sincero e, às vezes, envergonhado: Obrigado!

Associação Nun'Alvares de campanhã
Associação Nun’Alvares de campanhã

É aqui!”, avisa o Amadeu, preparado para o registo fotográfico, da que viria a ser esta reportagem, ou apontamento de vida, ou o que lhe quiserem chamar. Estejam à vontade!

E o “aqui” era o final do caminho, por sinal, literalmente, íngreme. Tínhamos chegado à Associação Nun´Álvares de Campanhã. Instituição Particular de Solidariedade Social, fundada em 1934, e que, brevemente, (re)visitaremos para vos dar a conhecer todos os pormenores acerca das suas atividades. Fica a promessa!

São sete menos um quarto da noite. Um frio do “caraças”.

Recebe-nos, de forma estática, luminosa e muito colorida, a Sagrada Família. Tínhamos, realmente, chegado ao fim do caminho de pedras. O presépio transmite quentura. Apresenta-se isolado, mas, ao mesmo tempo, cheio de gente à volta. Uma boa sensação, ainda que estranha.

E só digo “estranha” porque dizem, e dizem-no erradamente, que os jornalistas têm de ser frios; pragmáticos e outras coisas do género, não podem transmitir sentimentos. Nada disso!

“Estranha” porque criou emoção. Fez-nos parar. Fez-nos olhar… contemplar. E o presépio até era simples, sabendo-se que todos os presépios são presépios e como o são, todos transmitem boas “sensações estranhas”.

Luzes

Continuamos a subir o íngreme caminho. Ao fundo, um edifício (Centro de Dia para Idosos) com muita luz interior e já um cheirinho a bacalhau cozido. À porta alguns carros estacionados, e umas pessoas à conversa, entre eles um padre.

Na caminhada que fizemos até ao local cruzamo-nos com alguns que acabaríamos, depois, por saber que eram caminhantes diários daquele percurso. Entramos. Ao nosso lado direito, uma sala quentinha com cómodos sofás, alguns idosos à conversa, e a televisão ligada a (re)transmitir o “Natal dos Hospitais”.

Somos, então, recebidos com um “olá”, depois com um “boa noite”, também com um “então, por cá?!” (frase oriunda de quem já nos conhecia de outros caminhos). Um aperto de mão aqui, um beijinho acolá. Estávamos em casa!

Cónego Fernando Milheiro no uso da palavra
Cónego Fernando Milheiro no uso da palavra

Simpatia

Gente simpática. Quem seriam? Movimentavam-se de um lado para o outro: tratavam as pessoas, ora na segunda pessoa do singular, ora na do plural. Bonito. Estava tudo em família, nós, pelos vistos, é que éramos os “desconhecidos”. Seriam estas as tais pessoas que andávamos à procura? As tais que semeiam flores no conhecido caminho de pedras que, por vezes, a vida nos prepara sem apelo nem agravo?

Chega, entretanto, o cónego Fernando Milheiro – pároco de Campanhã – nosso conhecido, até porque foi um dos convidados do nosso jornal para uma entrevista vídeo-gravada. Entra também, o presidente da Junta de Freguesia de… Campanhã, Ernesto Santos, outro nosso conhecido. O senhor Filipe, outro nosso conhecido, e mais outros conhecidos… ena! A acrescentar a este nobre rol, os desconhecidos que se iam tornando conhecidos. Estávamos em família!

“Natal de Sós”

Quando escrevo “estávamos”, refiro-me a mim (José) e ao Amadeu. Foi assim que fomos tratados na associação Nun’Álvares de Campanhã, e, para quem não soubesse os nossos nomes, a organização (Paróquia de Campanhã) teve o cuidado de nos dar uma fichinha para colocar no casado. Ali podia haver doutores ou engenheiros e por aí fora, a verdade é que todos eram tratados pelo primeiro ou último nome e… mais nada!

“Façam o favor de avançar para a outra sala. Vamos lá, senão o bacalhau arrefece!”, avisava uma das muitas voluntárias que se dispuseram a dar apoio à iniciativa intitulada “Natal de Sós”, que já se realiza (vejam só) há 30 anos, e sempre na véspera de… Natal.

Carinhas larocas, simpáticas, viemos a saber que as tais voluntárias eram oriundas de diversas localidades do norte do país.

A sala ia se compondo. As pessoas (cerca de meia centena) sentavam-se junto à mesa que entendessem, sendo que cada tinha uma referência: ou era a mesa do “Alegria”, do “Diálogo” ou… do “Sonho”. Foi nessa que nós calhamos. Nós (José e Amadeu), o cónego Fernando Milheiro e mais um simpático casal de idosos. “Sonho”…

Ernesto Santos ao centro
Ernesto Santos ao centro

De pé, representantes da Junta de Freguesia de Campanhã e da casa Diocesana, assim como o organizador, o cónego Fernando Milheiro. Era altura para dar as boas-vindas.

Fernando Milheiro: “Os políticos próximos dos pobres ganham outra legitimidade”

“Este é o Natal dos Sós, como chamamos a esta iniciativa, já lá vão trinta anos ininterruptos. Aqui ninguém está só. Nas próximas horas, as pessoas, que aqui estão, vão ser a vossa família”. Palavras do cónego e pároco de Campanhã, Fernando Milheiro.

Salientando que os produtos que compõem a ceia são “oferecidos à Paróquia pela Associação Nun’Alvares”, Fernando Milheiro relevou ainda o facto de já se ter “distribuído mais de 100 cabazes a famílias carenciadas de Campanhã, assim como 600 refeições a moradores da carenciada zona de Azevedo”.

Por último, o pároco referiu o facto da “Junta de Freguesia dar um apoio mensal destinado aos pobres, demonstrando, assim, que os políticos não servem só para pedir votos. Os políticos próximos dos pobres ganham outra legitimidade”.

Esta intervenção, como as que se seguirão, foram intervaladas com a atuação do Coro da Paróquia de Campanhã, e de um grupo de pessoas da Casa Diocesana que leram poesia.

Ernesto Santos: “está aqui a família que nos falta nos outros dias”

“Quando falta o afeto familiar – não é, felizmente, o meu caso, pois tenho 18 familiares em casa para consoar -, encontramos aqui a família que nos falta nos outros dias”, começou por referir Ernesto Santos, presidente da autarquia de Campanhã.

“Nós vamos, na medida dos possíveis, mas com todo o gosto, ajudando esta e outras iniciativas de caráter social, e não precisamos de publicidade para que saibam o que vamos fazendo. Hoje, por sinal, temos aqui o “Etc e Tal Jornal” que, em boa verdade, tem publicado, nos últimos anos algumas notícias da nossa freguesia. Esse é dos poucos jornais que não se lembra de Campanhã só pelos maus motivos. Aqui estão em família!”, concluiu Ernesto Santos.

Barros Marques: “Há pessoas a semear flores”

Em representação da Casa Diocesana usou da palavra Barros Marques. Fica esta frase: “Apesar das dificuldades da vida e das pedras do caminho, há – como se pode ver – pessoas a semear flores”.

Tínhamos, finalmente, encontrado quem semeia as tais flores. Todos eles e elas a colaborarem com uma causa solidária, altruísta… humana. Os autarcas, os padres, a comunidade e os/as voluntário/as, algumas das quais de longe vieram prestar serviço em prol de quem mais necessita.

Coro da Paróquia de Campanhã
Coro da Paróquia de Campanhã
poesia: casa Diocesana
poesia: casa Diocesana

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Depois de um momento de oração, foi, então servida a ceia. O tradicional bacalhau cozido com todos; as rabanadas, o leite-creme, a aletria, o Vinho do Porto ou maduro do Douro, tudo quanto na casa se deve ter, mas às vezes não se tem.

E depois veio a distribuição das prendas pelo Pai Natal, e depois o carinho, e depois o afeto e depois o abraço emocionado de todos que, findo o convívio, foram transportados a suas casas pelos Anjos de Natal (voluntários que disponibilizam as suas viaturas, conduzindo-as, para evitarem mais uma caminhada aos “caminhantes”).

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Eis uma obra que mereceu uma reportagem, um apontamento de vida, ou o que lhe quiserem chamar. Estejam à vontade.

01jan17

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