Menu Fechar

A Trumpa aqui tão perto…

António Pedro Dores

Tornou-se uma moda perguntar como é possível que os norte-americanos tenham escolhido para presidente uma anedota (como os partidos europeus escolheram para presidente da Comissão Europeia um homem com nome de esquentador que andou a facilitar a evasão fiscal das grandes empresas, em vez de ser primeiro ministro do seu país?).

Esta pergunta reproduz o nacionalismo (não é populismo, não!) que é preciso combater. É preciso, pois, combater também esta pergunta.

A pergunta questiona não a salvaguarda dos direitos dos norte-americanos (há muito abusados, sobretudo depois do 11 de Setembro de 2001). A pergunta questiona as novas condições contratuais de trocas entre as duas margens do Atlântico Norte. Será, perguntam-se os perguntadores, que a economia europeia vai parar de crescer por causa do nacionalismo proteccionista do Trump?

A pergunta certa, porém, é a inversa: caso o crescimento económico estivesse saudável, em particular beneficiasse todos (os famosos jogos de soma positiva, que tanta falta fazem), palhaços como tantos que pululam na vida política teriam o poder que têm hoje, de ambos os lados do Atlântico? O sucesso económico de Obama – comparado com o que ocorre na União Europeia – deu nisto? Porquê?

Os norte-americanos (aliás como os europeus) estão fartos de tretas. A crise está a ser escamoteada, continuada em vez de enfrentada. Como todos os anos é anunciado, os mais ricos são cada vez mais ricos e os mais pobres cada vez mais pobres. E isso só vai dar mais problemas. Problemas mais peludos.

Isso é novidade? Claro que não. Faz quase dez anos que se vive em crise declarada. E agora querem fazer querer que a crise está normalizada. A civilização já não dá mais que isto? As gerações mais novas nunca souberam o que fosse viver com esperança legítima de poder trabalhar para vir a viver melhor. As mais velhas reclamam voltar ao passado, às esperanças de quando eram jovens. Mas a história não se repete. É preciso inventar esperanças novas. Tomá-las a sério. É preciso fazer política democrática, sem a qual a democracia irá fenecer. Sem a qual a democracia está a fenecer.

trumpa - 02

Na Amadora, mais uma vez, a selvajaria oficial atirou para a rua moradores de bairros pobres porque a autarquia quer limpar a paisagem. Um dos moradores foi parar ao hospital. A polícia diz que foi ele quem bateu. A presidenta manda dizer que ninguém fica na rua. Outra vez. Os trabalhadores afro-portugueses são tratados como lixo. Não é racismo, porque isso não existe na nossa terra. Só dos Estados Unidos isso existe, não é?

Os comentadores de serviço perguntarão: que relevância política tem isso? Acrescentarão: importante é saber se se deve tornar pública a correspondência de emails entre o senhor Domingos e o senhor Centeno. Isso é que é um problema moral de primeira grandeza.

Eis precisamente porque eu desligo desta trumpa de politiquice. A política que ignora as limitações existenciais de uma parte importante da população, culpando as vítimas do que lhes acontece, por lhes faltar ambição ou por não se saberem comportar. Trumpa, trumpa, trumpa!

O nacionalismo foi criado para responder às capacidades de revolta dos povos, camponeses, confrontados com o espectro da fome quando ainda tinham forças para reclamar com violência junto dos seus senhores. As ordens sociais tornaram-se classes de acesso diferenciado aos mercados nacionais, abertos à troca por dinheiro. O fornecimento de alimentos passou a ser controlado industrialmente, na produção e na distribuição. Ao Estado cabia garantir que não haveria fome. Ao menos, não haveria a perspectiva da fome generalizada que pudesse animar revoltas populares enquanto os camponeses e os trabalhadores ainda tivessem forças para organizar a contestação violenta.

Esse fundamento do nacionalismo é ainda o fundamento social da União Europeia, cuja única política social comum é a agrícola: a subsidiação da produção industrial e a circulação global de produtos alimentares a baixo preço.

O nacionalismo controla a pobreza. Aprendeu a estender a fome (mitigada, envergonhada, traduzida “apenas” numa esperança de vida menor das pessoas com mais recursos) a centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo na Europa.

O cuidado de crianças (em Portugal, as escolas noticiaram 1/3 das crianças só comiam nas cantinas – e o Jorge Coelho reclama que o governo não lhe liga quando diz que é preciso combater a pobreza infantil) não ocupa as discussões políticas. Taxas de 20% de pobreza merecem votos platónicos do esquentador da Comissão Europeia, quando fala da necessidade de um rendimento garantido para todos, sem explicar o que quer dizer. Tal como a erradicação da pobreza é letra morta – até hoje – apesar de inscrita nos objectivos do milénio.

O que está a acontecer foi que a globalização real foi incapaz de ultrapassar a fase histórica do nacionalismo. Hoje, com cerca de duas centenas de países no mundo, o nacionalismo expandido a nível global tornou-se obsoleto para os negócios e para o bem-estar das pessoas. Mas é a última referência identitária social firme. Quando o individualismo atinge níveis de perfeição nunca vistos e o controlo das vidas privadas ocupa os estados (como denunciou Snowden).

Há um desejo de segurança, incentivado pelas políticas securitárias, que remetem as pessoas para as eras anteriores. Estas têm uma grande vantagem: naquelas condições, sabe-se por ciência certa, por experiência própria dos sobreviventes, a humanidade tinha esperança no futuro.

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Foto: Pesquisa Google

01mar17

 

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.