Poucas pessoas o conhecerão por este nome – Deocleciano Monteiro, o grande homem que foi o chamado Duque da Ribeira, uma das figuras mais carismáticas do Porto.
Conta-se que lhe foi dado o nome de Deocleciano mas, a mãe, pela dificuldade de pronunciar a palavra, começou a tratá-lo por Duque e, por este nome, ficou para sempre conhecido.
Este homem nasceu no Porto, a 24 de Março de 1902 e cresceu na Ribeira, um dos locais mais típicos da cidade mas, num tempo, em que o local era bem diferente do que hoje é, sem a pressão turística que na actualidade se sente. O Duque da Ribeira viveu num tempo em que a Ribeira era pouco atractiva, muito pobre, mal cuidada e onde só fervilhava gente que procurava qualquer actividade, onde pudesse angariar algum dinheiro para matar a fome e sobreviver, no meio da miséria que grassava por todos os lados.
Assim, homens, mulheres e crianças afluíam à Ribeira na procura de trabalho, quer na descarga dos barcos, quer no transporte de produtos, ou nos recados que faziam aos que vinham de longe… Era ainda um tempo em que os barcos rabelos desciam o Douro, carregados com as pipas de vinho para as caves, situadas ao longo do cais de Gaia, ou carregados de carvão, lenha, caruma, carqueja e tantos outros produtos para abastecimento da cidade.
Deocleciano, o Duque da Ribeira, teve uma infância de criança pobre que deambulava pelas ruelas e becos, ou pela beira-rio, numa luta constante pela sobrevivência. Cedo se habituou às águas do Douro, às correntes, às cheias e às dificuldades que o dia-a-dia lhe ia apresentando.
Diz-se que o rio não tinha mistérios para ele, pois conhecia-lhe as entranhas! A sua ligação ao rio era grande, porque toda a vida viveu no rio e do rio – era barqueiro e ensinava natação às crianças.
Mas, o grande desafio da vida do Duque da Ribeira foi socorrer, com toda a abnegação, quem estava em perigo, nas águas do rio, ou retirando aqueles que se tinham afogado, ou aqueles que punham fim à vida, suicidando-se.
Quando tinha 11 anos, o Duque salvou de morrer afogado um rapaz mais velho do que ele. Tudo começou com este acto heróico – depois, sucederam-se muitos outros episódios!
Trabalhar como barqueiro no Douro, levou-o a passar a maior parte do tempo no rio, onde foi protagonista, ao longo de décadas, de inúmeros salvamentos – resgatava corpos presos no fundo do rio, quase sempre através de um processo conhecido por “gratear”, isto é, usar um utensílio para raspar, “limpando” o fundo do rio.
Diz, quem ainda privou com o Duque da Ribeira, que ele conhecia as correntes do rio tão bem que, quando alguém lhe pedia para procurar um corpo caído à água, era capaz de determinar a zona provável em que o mesmo poderia estar. Procurava o corpo, infatigavelmente, até o encontrar, trazendo-o para terra e dando um beijo na testa do cadáver, como se quisesse dizer – missão cumprida!
O Duque da Ribeira faleceu a 9 de Novembro de 1996, com 94 anos, prestando-lhe a cidade uma homenagem, com a atribuição do seu nome à praça junto à Ponte Luís I, onde também foi colocada uma lápide, apresentando o seu busto, trabalho da autoria do escultor José Rodrigues, que regista o seguinte:
«Ao Duque da Ribeira, Símbolo e Sentido, Testemunha e Protagonista da Ribeira. A homenagem da cidade.»
Texto: Maximina Girão Ribeiro
Fotos: Pesquisa Google
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01abr17

