O poema “Ode Marítima” de Álvaro de Campos constituiu o pano de fundo para o recital que o ator Diogo Infante protagoniza, com música de João Gil, na inauguração do programa “Cultura em Expansão” deste ano, realizada na noite do passado sábado (25mar17), no Bairro da Pasteleira.
Um dos mais significativos poemas do heterónimo de Fernando Pessoa – em que um paquete “pequeno, negro e claro”, entrando no cais, serve de ponto de partida para reflexões filosóficas enquadradas pelo Portugal do início do século XX – irrompeu pelo Bairro Social da Pasteleira e marcou, desde logo, a ligação à água que será uma presença regular ao longo dos próximos meses em vários projetos municipais nas áreas das artes visuais e do pensamento.
Em “Ode Marítima”, a que assistiram o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, o vereador da Habitação e Ação Social, Manuel Pizarro, e o Adjunto para a Cultura, Guilherme Blanc, um homem observa um porto marítimo e assume o comando de um paquete que não chegou a entrar no cais. Inicia, então, uma viagem dentro de si mesmo, perpetrando todos os comportamentos humanos e procurando “sentir tudo de todas as maneiras”.
O imaginário marítimo tão lusitano e a metáfora do fluxo/refluxo do mar sustentam a contradição violenta de um homem que tenta relacionar diferentes sensações de identidade, transformando-se ele no cais e no destino, revelando a sua pluralidade de sentidos e tornando corpórea a viagem.
Com esta apresentação, Diogo Infante e João Gil abriram também o projeto “Arena”, uma nova área da programação “Cultura em Expansão” que estará centrada em monólogos singulares da criação teatral portuguesa mais ou menos recente, os quais serão apresentados num dispositivo cénico configurado pelo próprio público e em forma de arena.
Estrelas no “Arena”
Ao longo dos próximos meses, o “Arena” levará à Associação de Moradores do Bairro Social da Pasteleira – Previdência/Torres vários outros momentos de referência na arte dramática, num dos quatro pilares (a par do cinema, da música e dos laboratórios) do “Cultura em Expansão” que vai já na quarta edição.
Constituindo já a evidência do conceito de “cidade líquida”, o “Cultura em Expansão” pretende que a noção de espaços de Cultura perca sentido e se dilua com o tempo, afirmando a ideia de que não existem lugares definidos para a sua oferta e que a cidade, em toda a sua variedade e extensão, deve ser um palco ativo.
Por isso, até dezembro, nomes incontornáveis da cultura portuguesa, como Sérgio Godinho, Simone de Oliveira, Edgar Pêra, Leonor Keil, João Salaviza, Diogo Evangelista e vários outros, vão cruzar-se com jovens artistas e criadores, partilhando experiência e visões da prática artística, mas também protagonizando eventos e expandindo cada vez mais a cultura do e no Porto.
Texto: GCPCMP / EeT
Foto: Pesquisa Google
01abr17