Com a habitual mas sempre entusiasta moderação de Carlos Nuno Granja, a edição do À Palavra com Ivo Machado que se realizou no dia 24 de março, reafirmou a dinâmica e a especificidade deste evento literário que promove maior proximidade entre escritores e leitores num ambiente acolhedor e tão intimista no Museu de Ovar.
Conversar com o Ivo Machado, nascido na ilha Terceira, nos Açores, em outubro de 1958, e que, em 1987, se viria a fixar no Porto, foi como realizar uma extraordinária viagem literária, revivendo memórias deste autor que, ainda estudante do Liceu se revelou como poeta, tendo o seu primeiro trabalho sido publicado em 1977 no jornal “União” de Angra do Heroísmo e que, de entre a sua vasta obra, partilhou os mais recentes trabalhos, “A Cidade Desgovernada” e “O Monólogo do Merceeiro”, apresentados nesta sessão na cidade de Ovar.
Perante um poeta com vasta “obra” publicada, ainda que o próprio prefira falar de livros em vez de obras, o tema de arranque para a conversa da noite, lançado por Carlos Nuno Granja, inevitavelmente seria “o que é poesia?”. A resposta foi pronta, “não sei!” e assim iniciaria um diálogo em que se cruzaram muitas histórias, como agradáveis resumos da sua já longa viagem por países latinos americanos ou europeus, de que falou sobre amigos, lugares, acontecimentos nesta sua caminhada de participação em encontros com escritores e a dar voz aos seus poemas, editados em línguas como: castelhano, inglês, eslovaco, húngaro, italiano e bósnio.
Um serão em que Ivo Machado prendeu a atenção dos presentes com os seus testemunhos de amizade e convívio com nomes da literatura e da poesia como Sofia Mello Breyner ou Natália Correia. Mas também Amália Rodrigues ou Fernando Lopes Graça que musicou para canto lírico sete dos seus poemas a que chamou “Sete Breves Canções de Mar dos Açores”.
Nestes momentos literários, o ambiente muito familiar proporcionado, acaba sempre, e de forma natural, por criar condições para os convidados falarem das suas memórias, que nuns casos se confundem com a sua própria obra e que no caso de Ivo Machado, permitiu partilhar a sua relação com os livros, não em casa dos pais, que não os tinha, mas na dos avós nos Açores, lembrando-se da avó que acompanhava à missa e da troca de livros que fazia à porta da Igreja.
Contato com os livros que o despertaram para a poesia, tendo contado mesmo o marcante encontro que teve nos Açores com Sofia Mello Breyner, que integrou uma delegação politica para um comício sobre as primeiras eleições para a Assembleia da Republica, com quem Ivo Machado teve o privilégio de conhecer pessoalmente a poeta, que por ali passou sem qualquer registo da imprensa da época, como entretanto veio mais tarde a constatar, numa consulta aos jornais, que falavam de Mário Soares, Jaime Gama e outros que integraram a comitiva da campanha eleitoral, sem terem identificado Sofia Mello Breyner que ficou para sempre na memória do então jovem estudante, tal como ficou o dia em que ouviu ler poesia de Garcia Lorca, “foi o meu embate com a poesia!” declarou, entre a leitura de poemas que foi intercalando com Carlos Nuno Granja, numa noite dedicada à poesia.
A publicação dos seus trabalhos começaria nos finais dos anos 70 em suplementos literários das ilhas. E ainda antes de partir para o Porto, o poeta açoriano viu o seu primeiro livro editado em 1981, “Alguns Anos de Pastor” de que resultaram sete poemas musicados para canto lírico por Fernando Lopes-Graça.
Uma década depois a publicação dos livros de Ivo Machado, são a verdadeira resposta, que repete à insistente pergunta do moderador, “a poesia mata-me a sede”. Três Variações de Um Sonho (1995), Cinco Cantos com Lorca e Outros Poemas (1998), Os Limos do Verbo (2005), Verbo Possível (2006), Poemas Fora de Casa (2007), Quilómetro Zero (2008), Tamujal (2009) ou Animal de Regressos (2011), são alguns dos títulos, entre outros trabalhos deste poeta.
Esta foi mais uma edição do evento literário À Palavra no Museu de Ovar dinamizado pelo escritor Carlos Nuno Granja, que, como acontece em cada uma destas sessões, com mais ou menos participantes, deixam, pelo menos na memória dos que vêm correspondendo a tal desafio de convívio literário, momentos inesquecíveis de histórias contadas por poetas e escritores que partilham de forma tão familiar e intimista.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*) Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar – Aveiro
01abr17


