Os desenhos, pinturas e ideias da autoria do artista plástico Emerenciano Rodrigues que integraram a sua exposição “A minha alma está na escrita”, que esteve patente até 4 de março no Museu de Ovar, proporcionaram o ambiente natural para mais uma específica sessão de À Palavra (3 de março), que nos levou a uma “viagem pela vida e obra do artista. Uma viagem cultural pela arte”, como realçou o moderador deste evento literário, Carlos Nuno Granja.
Na linha dos textos que traçam o pensamento deste artista nascido em Ovar e que complementaram a sua exposição, em que escreveu, “a minha alma está na escrita desde 1973, já havia pensamento e experimentação, mas a inconsequência da pintura foi motivo suficiente para fazer a não pintura, quando poderia ter desistido”. Emerenciano tomou, então, verdadeiramente a palavra, neste À Palavra, para falar da atividade regular de artista plástico que passou a desenvolver deste o início dos anos setenta.
Foi uma autêntica viagem pela vida e obra do artista, partilhada numa sala cheia de amigos e admiradores da sua arte que ali tiveram o privilégio de acompanhar e revisitar o percurso artístico da pintura de Emerenciano e a sua aproximação à escrita, porque, como adiantou, “queria estar acompanhado, ter a meu lado gente para conversar, e percebi que a normalidade é estar só”.
Ao convite de Carlos Granja para falar dos trabalhos expostos na sala, que acabavam por ser a própria introdução e apresentação deste À Palavra com Emerenciano, o artista diria que, “há quem veja nos desenhos e nas pinturas obras, eu vejo manifestações que se inscrevem numa obra que não pode deixar de ser de uma vida. Nesta circunstância, na terra onde nasci, pareceu-me fazer sentido mostrar imagens de um momento influente da obra”.
Nesta “viagem” com o artista, pela sua vida e obra, que o Museu de Ovar acolheu, entre os vários temas abordados, a escripintura mereceu particular atenção para a compreensão dos projetos artísticos que caraterizam o autor, que, como partilhou, “estava ainda a concluir o curso de pintura, insatisfeito com algumas experiências, já a escrita espreitava.
Comecei a escrever nas telas, mas abandonei o que na altura parecia-me ser um trabalho de escritor, para iniciar a aproximação à escrita, que fez-se escripintura, as palavras não eram a matéria primeira da pintura, portanto”.
“As pinturas assumiam-se palavras pintadas, a figuração da escrita, a escrita que é desenho, no contexto geral das imagens um desenvolvimento unidirecional de sinais distribuídos por linhas e colunas”, admitindo ainda ter percebido, que, “a minha alma estaria bem aqui, encontraria a minha salvação indo e vindo, resistindo à ilusão de um trabalho desenvolvido apenas com desenhos e pinturas”, utopias, pensamentos e ideias que deram forma a pinturas e desenhos que, como escreveu o escritor Carlos Nuno Granja, “a nós cabe-nos apreciá-los, com serenidade, com turbulência, com harmonia, com persistência”.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*)Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar – Aveiro
01abr17


