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PARDILHÓ: MERCANTEL EM CONSTRUÇÃO PARA TURISMO NA RIA DE AVEIRO

Depois de muitas décadas de abandono e do fim de algumas das atividades económicas, comerciais e sociais, através da navegabilidade de barcos moliceiros e mercantéis, que davam vida à Ria de Aveiro e terras ribeirinhas….

Opini_José_Lopes

Texto e fotos: José Lopes

A construção de embarcações tradicionais para navegarem nestas águas calmas da laguna, ganharam algum alento com o turismo que se faz sentir na cidade de Aveiro, em que, com grande preponderância dos típicos barcos moliceiros, mas também de alguns exemplares dos característicos mercantéis, se cruzam a navegar os vários canais.

Construir este tipo de embarcações, hoje, mesmo sem a beleza que proporcionariam as suas velas desfraldadas ao vento, para navegarem ao longo da Ria, é indiscutivelmente um acontecimento digno de registo, até pela sua raridade numa das terras ribeirinhas, como é o caso de Pardilhó, Estarreja, em que ainda resistem cerca de três construtores de embarcações, como os moliceiros, mercantéis, bateiras ou barcos de arte xávega para o mar.

Mestre António Pardaleiro
Mestre António Pardaleiro

Entre estes verdadeiros artesãos, com os seus estaleiros localizados perto do Cais da Ribeira das Bulhas, em Pardilhó, pode-se encontrar atualmente o mestre João Pardaleiro, com 75 anos de idade, especializado em barcos moliceiros e mercantéis, que tem em mãos a construção de raiz de um destes gigantes da Ria como era o mercantel, que se diferencia do moliceiro essencialmente no tamanho e na ausência dos típicos painéis coloridos com pinturas brejeiras, já que no que toca à decoração, ela é muito simples e com pinturas muito sóbrias, em que ostenta signos sem grande significado à proa e à ré, sendo identificados por números correspondente à sua legalização.

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Com a oferta de passeios turísticos na Ria a exigirem renovação de frota, as encomendas vão mantendo este mestre quase solitário, ocupado na construção artesanal do conjunto de peças que dão origem a tais embarcações, como relíquias da Ria de Aveiro que de certa forma ganharam vida, deixando para trás um tempo em que muitas apodreceram ao longo das margens da Ria.

Mas a atividade da construção de embarcações, que representam um significativo património da região, obedecem a métodos normas rígidas de construção, segundo materiais a utilizar, como o recurso a madeiras de “pinheira” como designam os pinheiros mansos, adquiridos com perícia para lhes retirarem partes fundamentais que dão origem a peças únicas para as “cavernas”, unidas pelos chamados “pregos” de madeira ou “pines”, uma operação de sustentação do “esqueleto” da embarcação que remonta às origens da construção naval.

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Exigentes são também as burocracias para o empreendimento que representa assumir um tal projeto de construção, que no caso deste mercantel ronda os 33 mil euros e cerca de três meses de trabalho em grande parte manual, podendo-se ainda observar ferramentas, como motosserra, máquina de corte de madeira de “fita” ou máquinas de furar, por entre uma enorme variedade de peças de ferramenta e utensílios artesanais para as mais diversificadas operações na construção e montagem destes barcos, da proa à ré, até à sua conclusão devidamente pintado e apetrechado com todos os equipamentos exigidos ao nível de segurança, para se submeterem à respetiva legalização para poder navegar.

A propósito do processo de legalização de uma destas embarcações, o mestre com alguma amargura, indica-nos o Cais da Ribeira das Bulhas ali mesmo ao lado, em que está atracada a sua mais recente obra, o barco moliceiros com o nome “Bulhas”, prontinho a transportar turistas na Ria, mas ainda terá de ali permanecer durante cerca de cinco anos até obter a devida legalização. Restando-lhe atrair os curiosos para a brejeirice dos seus painéis, com desenhos e legendas em que se pode ler, «Tanta terra p´ra lavrar e o meu arado a inforrujar!».

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Esta obra em curso, que já ganhou definitivamente forma de mercantel, com toda a sua grandiosidade, como os que nas águas da ria, fosse à vela, à sirga ou à vara, transportavam sobretudo sal entre as salinas de Aveiro e o Cais da Ribeira de Ovar, assim como para o Cais do Puxadouro, em Válega, mas também toda uma variedade de materiais, como meio de transporte mais adequado em outras épocas. Segundo António Pardaleiro, em junho estará pronto para o batismo da entrada na água, que habitualmente naquela zona ribeirinha de construtores de embarcações, se dá através da Ribeira das Bulhas.

Registar ao vivo a fase de construção de uma embarcação com o simbolismo que tem um mercantel da Ria de Aveiro, é também o privilégio de poder partilhar e contatar com um dedicado mestre e artesão, que é verdadeiramente um guardião deste património, que urge preservar com ações concretas e não só com as exigências dos legisladores que não conhecem tais realidades, do ponto de vista económico ou social.

Uma arte à qual António Pardaleiro se familiarizou logo a partir dos seus dez anos de idade. Depois esteve emigrado 20 anos nos Estados Unidos da América como tantos outros conterrâneos que procuraram melhores condições de vida na América ou Canadá. Sempre esteve ligado à construção naval e especializou-se mesmo nas embarcações de fibra produzidas através de moldes. Uma técnica que entretanto teve de parar devido às exigências legais para que as embarcações construídas sejam segundo as técnicas tradicionais.

Reviver memórias da atividade do sal

Nesta reportagem sobre a construção de um barco mercantel, acontecimento muito limitado a Pardilhó e a um dos mestres que no século XXI ainda vai dando vida a esta arte e património, como é o exemplo de António Pardaleiro. Podemos ainda registar memórias e nostalgias de António Valente, que enquanto jovem e residente no Cais da Ribeira em Ovar, aprendeu desde muito cedo a manobrar e dominar as técnicas de navegabilidade dos mercantéis no transporte do sal entre Aveiro e Ovar.

Uma atividade que obrigava a viver noite e dia na embarcação, em que se cozinhava, almoçava, jantava e dormia, sempre com um dos homens tripulante a navegar para aproveitar os ventos e as correntes, num espelho de água em que estes gigantes, mercantéis e moliceiros se cruzavam numa intensa labuta, com suas velas dominadas por tripulantes fortes e ágeis, que governavam os barcos até aos esteiros das salinas ou pelos esteiros dos vários canais em função do produto transportado.

António Valente: ex-tripulante de mercantel
António Valente: ex-tripulante de mercantel

Entre tantas memórias, António Valente, recorda o episódio em que um dos mercantéis em que trabalhou, foi ao fundo e encalhou, causando um rombo cuja solução para continuar viagem, foi tapar o buraco com cimento, que após ter consolidado, ainda manteve a embarcação a navegar durante alguns dias antes de rumar aos estaleiros para a respetiva reparação.

Conhecedor da Ria, dos seus canais, das correntes e marés, das diferentes atividades, como a pesca e suas espécies e artes que também praticou como pescador de enguia, quando esta era “rainha”, António Valente, de pé ou sentado naquele mercantel em construção pelas mãos de António Pardaleiro, não resistiu a identificar peça a peça que compõem o tipo de embarcação que aprendeu a viver e a crescer a navegar com bom ou mau tempo, partilhando a beleza da Ria com tantas outras embarcações tradicionais, como as da “família” dos mercantéis, os “mercantela”, um barco mais pequeno então usado no transporte de mato e junco das margens da laguna, para as camas do gado numa região com grande atividade agrícola.

Cais da Ribeira das Bulhas, Pardilhó
Cais da Ribeira das Bulhas, Pardilhó

Aos 13 anos de idade António Valente já carregava sal dos barcos para os armazéns existentes no Cais da Ribeira ligados à industrial de transformação deste produto natural. Até quase aos vinte anos de idade e em diferentes períodos, conheceria barqueiros de mercantéis, como os que ainda recorda: João Pardal, José Rabias, José Saranda, Manuel Arrenta ou Francisco Veiros, com quem partilhou momentos de muitas aventuras na liberdade proporcionada pela disputa de cada tripulação para chegar a Aveiro e regressar contra o vento pelo canal do norte até Ovar, no caso do sal, em que trabalhou nos mercantéis identificados por números, como o 1028, 1029, 1030 ou 574, embarcações propriedade de industriais do sal, como: José Rasteiro, José Marques Oliveira, Maria do Céu ou Costa, que em alguns casos ali ficaram a apodrecer no Cais da Ribeira a exemplo de tantas outras embarcações características da Ria que em muitos casos não chegaram a ser salvas para voltarem a ter vida com o turismo.

Felizmente que mestres como António Pardaleiro, resistem a desistir deste seu trabalho artesanal, que permite reviver cenários que fazem refletir nas águas da Ria de Aveiro memórias como as de António Valente.

01abr17

 

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