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“Trumpalhadas” à portuguesa

António Pedro Dores

Aprendi jovem, com o saudoso Paquete de Oliveira, que a censura, embora fosse um pilar do regime fascista, era também um problema praticamente inextrincável da comunicação social. A vida de professor universitário deu-me a conhecer a censura nas universidades. Por isso, quando um dos raros adeptos do antigo regime que se manteve firme nessa posição se vem queixar – hoje – de censura, pergunto do que está a falar. Será que há mesmo um caso que vai espoletar um debate para denunciar e conter a censura?

À direita, personalidades com sangue na guelra, sensíveis a princípios, lembraram-se e lembram-nos da situação no PREC, onde ser de direita era sinónimo de ser fascista. Mas também nos recordaram que estamos longe das circunstâncias que tornaram temível a censura das esquerdas contra quem viveu e não condenou o regime anterior.

De que estamos a falar, perguntará o leitor. Precisamente: estamos a falar de uma “Trumpalhada” à portuguesa. Que meteu Presidente da República e tudo.

Usando as suas relações privilegiadas com a comunicação social, em pose de vítima, o prof. Nogueira Pinto declarou que queria ver esclarecido um alegado acto de censura de que teria sido alvo na faculdade de ciências sociais e humanas (FCSH).

O ridículo da denúncia de censura de uma figura com acesso livre aos meios de comunicação social fez-me lembrar o caso do arrastão de Carcavelos.

Para quem não se recordar, o arrastão foi uma notícia racista inventada por praticamente toda a comunicação social portuguesa, sob provocação de anónimos saudosos do antigo regime, que nem os desmentidos formais da polícia fizeram recuar. Na “silly season”, fotos de jovens negros a correr, agarrados a pertences mal arrumados, foram apresentadas como prova documental de um roubo colectivo – falou-se em 500 assaltantes dos bens dos banhistas. Que mais fariam pretos senão fugir da polícia? Era isso mesmo que eles estavam a fazer, cada um com os seus próprios pertences na mão. A proteger-se de uma carga policial na praia. Cuja violência nunca chegou a ser questionada, e menos ainda explicada.

Neste novo caso insólito, o director da Faculdade utilizada para a encenação, professor Francisco Caramelo, divulgou um comunicado a explicar o que se passou. Embora o Presidente da República tenha exigido explicações, não me recordo dessas explicações terem sido divulgadas. O caso foi abafado, como se costuma dizer. Por isso, no quadro da minha responsabilidade na comunicação social, uso esta coluna para oferecer aos leitores um resumo da explicação:

“A reserva da sala foi solicitada por um aluno da FCSH, membro da (…) organização [Nova Portugalidade] à Associação de Estudantes. (…) A Nova Portugalidade, em contactos telefónicos com a Faculdade, no dia 6 de Março, exigiu a presença da Polícia antes e durante a conferência. Isso era inaceitável [para a faculdade]. (…) Aquela organização anunciou então que traria dez homens, que estariam na sala durante a conferência, e que garantiriam a segurança do evento. (…) Contactei pessoalmente, nesse mesmo dia, Jaime Nogueira Pinto, a quem disse não existirem condições de segurança para se realizar a conferência (…) e convidei-o a voltar à FCSH [em melhor ocasião] para proferir a sua conferência.

(…) Hoje, tomaria, em consciência, a mesma decisão. Ainda com mais convicção depois dos acontecimentos que se tornaram públicos nos últimos dias, nomeadamente a entrada de dezenas de pessoas, identificadas como pertencentes à extrema-direita, com atitudes intimidatórias sobre os nossos alunos, e a concentração promovida pelo PNR, prevista para a entrada da FCSH, com o propósito de reivindicar a `liberdade de pensamento, opinião e expressão´. “

censura

Aí está: em vez de fazerem a auto-crítica relativamente aos regimes que apoiaram e apoiam, estes activistas, a que o orador convidado chamou organizadores, deu-lhes para representar indignação de defensores da liberdade e contra a censura.

Valha-lhes Deus. Tão versáteis que são. Onde estará a espinha dorsal dessa gente?

E porque razão o Nogueira Pinto activista usou o seu papel de figura pública da democracia para se juntar a gente sem espinha dorsal? Como explicará ele, no seu papel de académico, retaguarda que muitos usam (e bem) para lamber feridas políticas e perspectivar futuros melhores, ter desta vez cedido tanto, a ponto de fazer da luta contra a censura o seu cavalo de batalha?

É mesmo uma “trumpalhada”, senhor professor. Trump, na presidência, clama contra as falsas notícias de que ele próprio é arauto, lá nos “States”.

Cá no burgo, o professor, quiçá ambicionando ser presidente honorário da extrema-direita lusa envergonhada (por que clandestina não é), usa a liberdade de expressão que a ele lhe é dada para alinhar numa prova de vida fabricada à força pelos “organizadores”. Francamente, parece-me que lhe ficava melhor o título de D. Quixote do integrismo serôdio. Mas eu sou suspeito.

Foto: Pesquisa Google

Obs: Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01abr17

 

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