A prática desportiva esteve sempre presente como elemento integrante no desenvolvimento e crescimento da jovem Liliana Maria Dias Resende, natural de Ovar, onde nasceu a 20/01/1995. Mas, bem cedo a canoagem foi a modalidade a que se dedicou de forma entusiasta e apaixonada, tornando-se uma referência no seu clube de sempre, o Clube de Canoagem de Ovar (CCO), como exemplar canoísta que começou a ser campeã logo no primeiro ano de federada, familiarizando-se com o pódio ao longo do seu percurso na canoagem nos diferentes escalões, em representação do CCO e da seleção nacional em provas nacionais e internacionais.
Com 22 anos de idade, Liliana Resende, continua empenhadamente a lutar por objetivos desportivos, como o mais recente em que atingiu o pódio no Campeonato Nacional de Fundo em Melres, Gondomar, com um excelente terceiro lugar. Objetivos desportivos que se foram complementando com naturalidade entre a canoagem e o seu aproveitamento e percurso escolar, porque, como afirmou ao “Etc e Tal Jornal”, quando frequenta o 3.º ano do curso Fisiologia Clínica, “ desde miúda sabia o que queria e era a área da saúde que me cativava”.
Formada desportivamente numa verdadeira escola de canoístas preparados para vencerem as adversidades das próprias condições de treino, como são as consequências das dificuldades de navegabilidade da Ria de Aveiro nas horas de maré vazia, ainda que o CCO presidido por Filipe Pereira apresente hoje melhores condições de equipamentos para proporcionar aos seus atletas.
A jovem canoísta e aluna universitária em Coimbra, Liliana Resende, mesmo tendo de definir prioridades, levou o saudável “vício” da canoagem para a cidade do Rio Mondego, beneficiando de condições para se manter entre o pódio e o curso a que dá natural prioridade, como nos conta nesta entrevista ao nosso jornal.
LILIANA RESENDE: “DESDE MIÚDA SABIA O QUE QUERIA!”
Que curso frequentas?
“Neste momento estou no 3º ano do curso Fisiologia Clínica, ou seja, Cardiopneumologia e Neurofisiologia na Escola Superior de Tecnologia e Saúde de Coimbra.”
E qual foi o teu percurso escolar até ao secundário?
“Sendo residente em Válega, foi lá que estudei os primeiros seis anos e os seis anos seguintes em Ovar. Desta forma, iniciei o meu percurso académico na Escola Oliveira Lopes até ao 4.ºano, depois segui para o ciclo na Escola EB 2,3 Monsenhor Miguel de Oliveira até ao 6ºano. Nesse ano, o meu irmão terminou o ensino básico e teria que mudar obrigatoriamente de escola. Para não ficarmos a estudar em sítios diferentes, e por decisão dos meus pais, mudei também e fomos os dois estudar para a Escola Secundária Júlio Dinis. No 10.º ano optei pelo curso de Ciências e Tecnologias porque desde miúda sabia o que queria e era a área da saúde que me cativava.”
Como surgiu o interesse pela canoagem e com que idade?
“A canoagem surgiu quando eu tinha 12 anos e por intermédio do meu irmão. Ele tinha uns amigos que já praticavam a modalidade e foi experimentar por curiosidade ainda quando o clube estava no início e era numa casa particular no Torrão do Lameiro. Gostou muito e “chateou-me” para experimentar também. Até então eu nunca tinha feito desporto. Aceitei o desafio e levei o meu primo comigo. Começou aí o gosto pela modalidade para os três. Entretanto eles deixaram a canoagem em “standby” por motivos académicos, exceto eu, que sou a única a praticar atualmente e trouxe para Coimbra o vício. Claro que tive que fazer opções e definir prioridades, sendo que o curso está em primeiro.”
Para além da canoagem, que outras modalidades gostarias de praticar ou praticaste no âmbito do desporto escolar?
“Para além da canoagem a minha outra grande paixão são as danças de salão que surgiram por intermédio de amigos do secundário. Apesar de ser uma vertente muito diferente, considero que foi um aspeto muito positivo e tenho saudades. Talvez um dia regresse. No início do secundário, com a exigência da escola e a carga horária de treino tive que optar. Até porque os meus pais sempre me apoiaram no desporto mas, por outro lado, não me deixavam esquecer a importância dos estudos. Como estava numa boa forma competitiva e as danças eram um hobby, optei pelo kayak. Já no desporto escolar joguei voleibol durante três anos, andei no atletismo e ganhei cinco anos consecutivos o Corta Mato a nível escolar.”
Na altura da tua iniciação, o CCO funcionava no Cais do Puxadouro ou no Carregal?
“Sempre competi pelo Clube Canoagem de Ovar (CCO). Quando comecei era no Torrão do Lameiro, mas pouco tempo depois passamos para o Cais do Puxadouro, em Válega. Lá as condições eram más, posso afirmar que só treinava quem tinha amor à camisola. É uma modalidade em que estamos sujeitos às condições climatéricas e era desmotivador ir para o rio treinar, em pleno inverno, a saber que no fim não tínhamos nem balneário, nem luz, nem água quente. Isto durou seis anos, mas mesmo assim o CCO conseguiu ter cinco atletas na Seleção Nacional. Atualmente, temos melhores condições e o clube está em pleno crescimento na Marina do Carregal.”
Em que escalão iniciaste a pratica da canoagem?
“Comecei a praticar canoagem no primeiro ano de Infantil. Sendo que cada escalão tem a duração de dois anos à exceção dos Seniores e dos Veteranos.”
Na altura a participação das mulheres na prática da modalidade já era significativa?
“Apesar de ser uma modalidade onde a grande maioria é masculina, já haviam mulheres e, ao longo dos anos, são cada vez mais. Penso que o facto de em 2012, nos Jogos Olímpicos, a canoagem ter sido a única a conseguir trazer uma medalha para Portugal através da dupla do Fernando Pimenta e do Emanuel Silva, nos deu mais visibilidade e consequente crescimento.”
O teu pai (Américo Resende), como ex-membro do clube (CCO), teve influência na tua motivação para a prática da canoagem?
“Como era o meu pai a levar-nos aos treinos ele acabava por passar tanto tempo quanto nós no clube. Entretanto, foi convidado a fazer parte da direção do CCO e, mais tarde, tirou formação como treinador. Apesar de nunca ter sido meu treinador, pois ensinava a iniciação, enquanto eu já pertencia ao grupo da competição, ele era aquela pessoa que sabia sempre o que me dizer antes de competir e isso era muito importante para mim, porque de certa forma me dava confiança. Sempre esteve presente tanto nos momentos mais tranquilos como naqueles que exigiam mais concentração e o nervosismo era inevitável. Sem dúvida que a presença dele foi um fator muito positivo e motivador para ter algum êxito desportivo.”
Quando começaram os teus destaques classificativos?
“Começaram relativamente cedo porque logo no fim do primeiro ano de federada fui campeã nacional e nos dois anos consecutivos também.”
Quais os prémios alcançados que mereçam mais destaque na tua carreira desportiva?
“Até agora destaco cinco momentos na minha carreira desportiva: a primeira vez que subi ao lugar mais alto do pódio a nível nacional em k1; a primeira convocatória para integrar a Seleção Nacional; a regata “Olympic Hopes” na Polónia; o Campeonato da Europa de Juniores e Sub-23 e o Campeonato do Mundo Universitário, ambos em Portugal.”
Em que época começaste a integrar a seleção nacional e que prestações mais marcaram tais provas internacionais?
“Integrei a Seleção Nacional na minha terceira época, era cadete, e lá permaneci durante 5 anos consecutivos, até ingressar na universidade. A primeira presença internacional foi em Bydgoszcz onde competi em k4 500m (embarcação de 4 pessoas) e k4 200m, conquistando o 5.ºlugar e o 6.ºlugar, respetivamente. Mais tarde, em 2012, participei no meu primeiro Europeu em k4 500m onde ficamos em 10.ºlugar. O ano passado competi em k4 500m e k4 200m no Mundial Universitário e, em ambas as distâncias, alcançamos o 5.ºlugar.”
Nunca pensaste em mudar de clube?
“Não! O meu clube é pequeno mas nunca me faltou com nada e sempre me apoiaram, acho que isso é o essencial e tenho muito orgulho em poder representar a minha cidade.”
Que treinadores de canoagem destacas na tua formação, como atleta no clube e nas seleções?
“Em 10 anos de canoagem tive dois treinadores, o João Tiago Lourenço que me ensinou a remar e me acompanhou durante muitos anos e agora sou treinada pelo Rui Romão, o atual treinador do CCO.”
Para além das condições naturais que existem, que condições para a prática da modalidade na ria são desejadas pelos atletas?
“Enquanto canoísta as condições ideais de treino é ter um bom plano de água, isto é: pouco ou nenhum vento, assim como a corrente. Na nossa ria temos sempre em atenção a maré.”
Que dificuldades podem obstaculizar que a canoagem seja uma modalidade a desenvolver no âmbito do desporto escolar em Ovar?
“No ano passado, inseriu-se pela primeira vez a canoagem como desporto escolar na Escola Secundária Júlio Dinis. É uma grande conquista, tenho pena de não ter tido essa oportunidade mas espero que os mais novos aproveitem! Nós, enquanto clube, estamos sempre de portas abertas para receber novos elementos naquela que consideramos ser a nossa segunda “família”.”
Na atual fase dos estudos universitários, como concilias a prática e objetivos desportivos e a formação profissional?
“Quando cheguei à universidade tive que optar e decidi continuar a treinar mas não com o objetivo de integrar a equipa da seleção. Sei que isso exige uma grande preparação física e é muito complicado conciliar essa carga horária de treino com o horário da faculdade, principalmente quando estás numa cidade que não é a tua e para ires treinar “perdes” muito tempo em transportes públicos. Exige de mim uma grande capacidade de sacrifício e organização para conseguir conciliar os estudos com os treinos.”
Atualmente qual é o teu escalão?
“Sou sénior, ainda dentro da sub-categoria de sub-23.”
Texto: José Lopes
Fotos: DR
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