Com todas as dificuldades da Paróquia de Ovar, Ordem Terceira de S. Francisco e Irmandade dos Passos para a organização de um vasto programa de realização das procissões quaresmais em Ovar, quer de ordem financeira, quer mesmo ao nível da participação nesta tradição religiosa secular que remonta ao século XVII, tais encenações públicas do Culto da Cruz, que nesta cidade se exprimem com alguma exuberância, numa muito antiga devoção à “Paixão e Morte de Cristo”, cumpriram a tradição e o vasto programa, encerrando o quadro pascal com as imponentes procissões do “Ecce Homo” ou Terro-Terro e do Enterro do Senhor, perante alguma retoma do interesse turístico que se foi constatando, fazendo recordar tempos em que a cidade de Ovar atraia muitas visitas para tal ciclo celebrativo.
Entre o vasto programa de devoção à “Paixão e Morte de Cristo” vivenciada em Ovar e dada a vivenciar a forasteiros, destacam-se com particular relevo também no âmbito cultural, as marcantes procissões quaresmais, que mais uma vez integraram o cartaz turístico apoiado pelo Município, ainda que este ano os custos se tenham agravado, já que segundo a organização, cada procissão teve um custo adicional de cerca de 300 euros só para policiamento.
Uma novidade que deixou incrédulos os participantes trajados a rigor, segundo as Irmandades organizadoras, incluindo no transporte dos andores, em que os elementos integrantes, tradicionalmente oriundos de várias famílias locais entre outros crentes e voluntários, também vão diminuindo a sua disponibilidade, dificultando assim a colocação na rua de procissões com a grandiosidade que representam as procissões dos Terceiros, Passos, Ecce-Homo, Via-sacra e Enterro do Senhor. Ainda que, com reconhecido empenho e dedicação de quem, de forma entusiástica e empenhadamente participa, tais eventos vão resistindo ao tempo e às dificuldades dos novos tempos.
Tendo o nosso jornal feito referencia na edição anterior às procissões dos Terceiros e dos Passos, cujas condições atmosféricas impediram a saída da Procissão dos Passos, curiosamente uma das mais marcantes no calendário litúrgico, seja pela vivência de fé ou pela envolvência que o significativo património religioso de arte sacra representado nas várias capelas dos passos proporcionam. Registamos também a Procissão do Enterro do Senhor para concluir este trabalho dedicado a uma tradição com mais de três séculos.
Na sexta-feira Santa, a prolongada escadaria da Capela do Calvário é cenário privilegiado e emblemático para assistir ao encerramento deste ciclo de procissões quaresmais, como é o Enterro do Senhor. Um momento antecedido pela celebração da Paixão, na Igreja Matriz de Ovar, para depois terminar com a sepultura simbólica de Cristo na Capela do Calvário.
Trata-se também de uma das mais antigas procissões organizada pela Irmandade dos Passos que, com a noite a dar profunda solenidade ao cortejo durante o seu percurso pela cidade, volta à Capela dos Passos perante uma multidão que se foi juntando e que teve ainda como ponto alto a paragem no Passo da Verónica com o habitual canto de “Verónica” retratando o conhecido episódio do tema da “Paixão” em que uma mulher que assistia à passagem de Jesus decide limpar-lhe a cara com um pano, ficando a sua cara gravada.
Este ciclo de procissões tem particulares tradições que pelas suas características representações, tornaram-se momentos verdadeiramente únicos como património coletivo de um povo, a exemplo da procissão do “Ecce-Homo” ou popularmente designada por Terro-Terro que se realiza na quinta-feira Santa, e que remonta aos finais do século XVII e chegou a ser proibida durante algum tempo, tal era o escândalo público causado pela prática vivida à época por penitentes descalços, vestidos com andrajos e com a cabeça velada, segundo as histórias que vão passando de geração em geração sobre tal representação, que nos dias de hoje, bem mais contida, se torna um elemento fundamental do cartaz turístico na cidade de Ovar.
Realizou-se ainda a Procissão da Via-Sacra, considerada uma das mais populares manifestações religiosas no calendário litúrgico, que se realiza na sexta-feira Santa de manhã.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*)Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar – Aveiro
01mai17



