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Genocídio, populismo e demagogia – é possível lutar

António Pedro Dores

Passará por Portugal, nos primeiros dias de Junho, Ládio Verón, cidadão brasileiro em missão de sobrevivência, em nome do povo Guarani-Kaiowá. O périplo pela Europa está na sua fase final. Pretendem lutar contra o genocídio multissecular de que são vítimas as culturas ameríndias. Organizados no conselho Aty Guasu, que reunirá entre os dias 15 de Agosto e 2 de Setembro, no Mato Grosso do Sul.

Os Jesuítas defendiam os índios que os Bandeirantes dizimavam. Gostaríamos que estas fossem só histórias do passado. Mas não são. O genocídio continua. Quem estiver disposto a fazer alguma coisa útil, tem aqui uma excelente oportunidade. Aty Guasu apela à presença de observadores internacionais no próximo conselho, com vista a organizar uma rede global de acompanhamento da situação do genocídio e, através do conhecimento, derrotar a força bruta (contacto português: apad@iscte.pt). Há muitas outras formas de colaborar, para quem não tiver condições para ir ao Brasil.

Os sucessivos governos brasileiros, como outros nas Américas, não honram as obrigações decorrentes dos acordos e das leis. A Constituição de 1988 impõe a delimitação do território Guarani-Kaiowa. Traduziu em termos de propriedade aquilo que é o direito à auto-determinação da vida dos povos primeiros no território. Povos que vivem em respeito pela natureza (Acosta 2013). Porém, o desenvolvimento terrorista não aceita parar as ameaças e as matanças. “A falta de demarcação é uma razão e uma motivação do nosso genocídio”, disse o Grande Conselho da Assembleia da Guarani-Kaiowa.

aty guasu

Todos sabemos o que valem as assinaturas dos políticos. Mas hoje temos também a democracia directa; o direito à intervenção dos cidadãos avulso para assegurar aquilo que o direito e os braços armados dos estados desdenham ou violam.

Entre os governos Lula-Dilma, que arrastaram os pés, e o governo Temer, que retoma o apoio do estado ao genocídio, vai toda uma diferença. A diferença entre a falta de demarcação e o genocídio. Na Europa, esperam os Guarani-Kaiowá, a opinião pública, a sensibilidade das pessoas comuns, a compaixão que os seres humanos com vidas tranquilas espontaneamente manifestam, os recursos técnicos informáticos e os conhecimentos jornalísticos sobre como montar e organizar uma rede de divulgação de informação em tempo real, terá efeitos práticos nos respectivos governos e estes saberão como pressionar o estado brasileiro a evitar o genocídio.

Haverá uma Europa dos povos? Onde está a Europa dos direitos humanos? Quem defende hoje os índios brasileiros?

A demagogia das últimas décadas, com o fim da União Soviética, transformou tudo o que é estado em democracia. Porque será, então, que não nos sentimos representados? Porque são cada vez mais os que preferem fechar as portas da Europa aos refugiados? Porque é visível a serpente fora do ovo e não sabemos como a domesticar?

Proteger os refugiados é uma declaração política contra a Europa fascista. Participar na luta contra os genocídios de ameríndios é outra oportunidade de estar, na prática, a defender os direitos humanos: deles e nossos. Humanos somos todos. É o único modo de lutar pela democracia prática, sem excluídos nem donos disto tudo.

A aquífera Guarani tem água potável suficiente para muitas dezenas de anos de consumo humano. Há quem veja nisso a possibilidade de exploração agrícola e comercial num mundo em que o etanol (produzido a partir da cana) está a ser comercializado para combustível e a água privatizada. O desenvolvimento predador quer ver-se livre das pessoas, não por razões xenófobas, mas para continuar a destruir a capacidade do planeta ser habitável em nome do negócio. Quem está disponível para recriar utopias menos distópicas do que a que mundialização colonializadora produz? Quem está capaz de passar das palavras aos actos e reconhecer que as humilhações da dívida em Portugal é uma forma de colonialismo, embora num grau muito diferente de um genocídio? Vamos mexer-nos?

Acosta, A., 2013. El Buén Vivir – Sumak Kawsay, una oportunidad para imaginar otros mundos, Barcelona: Icaria&Antrazyt.

Obs: Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal Jornal”, o artigo inserto nesta “peça” foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa

 Foto: Pesquisa Google

01jun17

 

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