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O São João do Porto

Maximina Girão Ribeiro

Este é o mês do S. João e… o S. João é a maior festa do Porto! Os diversos folguedos e eventos, relacionados com a data, espalham-se pela cidade e prolongam-se por 30 dias…

Não é de hoje que estas festividades têm significado e impacto nesta cidade. Vêm de longe!

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Há quem afirme mesmo que o S. João é um pouco da alma de cada portuense… Na realidade, esta festa está entranhada na maneira de ser e de sentir das gentes do Porto.

No entanto, esta festa está intimamente relacionada com uma tradição pagã, cuja raiz assenta nas festividades do solstício de Verão – o dia mais longo e a noite mais curta, num tempo em que os campos oferecem a fartura ligada às colheitas. O solstício de Verão associa-se ao sol, à luz, ao exterior, ao contacto com a natureza…

À semelhança do que aconteceu com outras celebrações, como o Entrudo, ou o Natal, a Igreja assimilou essas datas, cristianizando-as e encontrando santos padroeiros para cada uma das datas, embora esta sobreposição cristianizada, nunca tenha apagado os resquícios pagãos. Digamos que o profano e o religioso se misturam num cruzamento perfeito, nesta festa, em que a figura de S. João Baptista, que foi um homem místico, considerado austero por viver no deserto como asceta, alimentando-se de mel e gafanhotos e pouco dado a folguedos e convívios, ficou associado à festa mais popular e animada da cidade.

S. João Batista do escultor Cutileiro
S. João Batista do escultor Cutileiro

Durante a Idade Média, o dia de S. João (24 de Junho), marcava o início de um novo ano económico e político, na cidade do Porto, havendo reunião dos vereadores e dando-se início a um novo Livro de Vereações que continha as respectivas actas das sessões camarárias, até ao próximo dia 24 de Junho do ano seguinte. Nessa altura, eram também escolhidos os magistrados judiciais e procedia-se à mudança dos pelouros dos vereadores. Na véspera do dia de São João, mandava-se lançar pregão para se convidar os homens-bons do Concelho e os moradores da cidade (vizinhos), a fim de escolherem os seus representantes que haviam de proceder à eleição, reunião que se fazia no claustro do mosteiro de S. Domingos, desta cidade.

Fernão Lopes descreveu, na “Crónica de D. João I”, aquilo que observou no Porto, na véspera do S. João, quando se encontrava na cidade para preparar uma visita do rei. Descreve uma grande festa, vivida pelas gentes do burgo, que cobriam o chão de flores e de ramagens, que queimavam plantas bem cheirosas, inundado o ar dos odores perfumados do alecrim, da alfazema, da erva-cidreira e do limonete… É o primeiro registo escrito das festas do Porto: “o povo celebra no meio de grande animação e entusiasmo desabrido […] no dia em que os moradores daquela cidade costumam fazer «gran festança»”.

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Embora S. João não seja o padroeiro do Porto, a sua importância na cidade e nas festividades tem sido tão grande que, apesar de se terem registado muitas alterações nestas festas, ao longo dos tempos, há referências que persistem e que chegaram aos nossos dias.

Nesta noite mais longa que o Porto vive todos os anos, continuamos a usufruir de uma convivência saudável, quase fraterna, entre conhecidos e desconhecidos, a sentir a alegria no desfilar das pessoas pelas ruas, ao som das variadas músicas, envolvendo-se nos múltiplos cheiros, que vão da sardinha assada, aos manjericos, das flores e ervas cheirosas às farturas adocicadas pelo açúcar e canela – tudo vai inundando o espaço e espalhando sensações diversificadas.

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Os olhos encantam-se com as cascatas e o fogo-de-artifício, com o fascínio de ver subir os balões… Os corações vibram com os encontros combinados ou com os furtuitos porque, todo este itinerário pelas ruas da cidade, representa emoções, lembranças de antigos amores, episódios ou memórias dos que já estiveram no meio de nós, a nostalgia de muitas das vivências passadas.

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– Quem não se lembra das ingénuas cascatas, feitas nos degraus das escadas, ou nas soleiras das portas, sobre o musgo fresco, com bonecos de barro, rebanhos, moinhos e a imagem de S. João a encimar o conjunto, onde também se colocavam bocados de espelho a lembrar a magia da água dos ribeiros ou dos rios?

– Quem não se lembra de romper multidões para ir às Fontainhas ver a cascata, onde S. João faz o baptismo de Jesus?

– Quem não se lembra do pão quente, comido com manteiga, depois da meia-noite, quando das padarias saíam as primeiras fornadas?

– Quem não se lembra das rusgas, dos bailaricos, dispersos pela cidade, dos alhos-porros “mal-amados” pelo seu mau-cheiro, ou dos vasos com manjerico, ostentando pequenas quadras populares?

Fui ao S. João à Lapa

Da Lapa fui ao Bonfim.

Estava tudo embandeirado

Com bandeiras de cetim…

 

O S. João da Lapa

Escreveu ao do Bonfim.

Visse bem o que fazia

Que a coisa não ia assim…

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Tudo isto são recordações, vivências sentidas. Mas, como preservar a memória é preservar a nossa identidade, nunca será demais recordarmos e passarmos a mensagem aos mais jovens – para que a festa continue!…

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Fotos: Pesquisa Google

01jun17

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