Maximina Girão Ribeiro
O Porto comemora, durante este ano, o primeiro centenário do Conservatório de Música do Porto. Esta cidade sempre prezou a música mas, é ao longo do séc. XIX, que a actividade musical é já considerável devido, sobretudo, à afirmação da burguesia e à sua necessidade de se igualar aos estratos sociais mais cultos. Por isso, os espectáculos de teatro e ópera eram frequentados pela mais distinta e abastada sociedade burguesa da época.

Com as profundas alterações urbanísticas que a cidade sofreu, na segunda metade de oitocentos, a música deixa de estar circunscrita a espaços fechados, como o Real Teatro de S. João e outras salas e surgem também os coretos, instalados em amplos jardins, os quais contribuíram para que a música fosse divulgada e tocada ao ar livre, dela podendo usufruir uma quantidade maior de pessoas.
No entanto, se a população tinha locais próprios para ouvir música, urgente se tornava que a cidade tivesse um local para ministrar a formação musical. Em 1917, após várias tentativas frustradas, fundava-se na cidade invicta o Conservatório de Música do Porto, por iniciativa da Câmara Municipal que, movida por grupos de melómanos, conseguiu concretizar o desejo de muitos cidadãos, apesar do momento de crise em que o País estava mergulhado. Embora se vivesse em plena 1.ª Guerra Mundial (1914-1918) e as dificuldades económicas fossem grandes, a criação deste estabelecimento de ensino representava um dos grandes ideais propagados pela Primeira República: dar à população mais educação e cultura!
Nesta luta pela fundação de uma escola de música oficial, destacou-se a figura de Aurélio Paz dos Reis que, a par de comerciante, fotógrafo amador e pioneiro do cinema em Portugal, foi também político, membro do Senado portuense, onde fez ouvir a sua voz em nome de muitas outras vozes que ansiavam pela criação se um estabelecimento vocacionado para o ensino artístico especializado – teórico e prático – da música instrumental e vocal.
Esta escola pública teve como primeiro director Bernardo Moreira de Sá (avô da pianista Helena de Sá e Costa e da violoncelista Madalena Moreira de Sá e Costa).

Inicialmente, o Conservatório esteve instalado na travessa do Carregal, no Palacete dos Viscondes de Vilarinho de São Romão, de onde só saiu em 1975 para se instalar no Palacete Pinto Leite, na rua da Maternidade, onde se manteve durante mais de 30 anos. Desde 2008, o Conservatório está a funcionar na praça Pedro Nunes, ocupando a ala poente do edifício da Escola Secundária Rodrigues de Freitas.

Ao longo da sua existência, o Conservatório de Música do Porto foi guardando um valioso espólio, legado à instituição por figuras proeminentes, como a violoncelista Guilhermina Suggia e o compositor e violinista Nicolau Medina Ribas, assim como ofertas de outros nomes da música nacional que constituem um acervo importante a nível de documentação variada, em que se destacam livros diversos, partituras, obras de arte, instrumentos musicais, objectos de uso pessoal ou institucional, tudo com elevado interesse museológico.
Por esta escola passaram várias figuras, sobejamente conhecidas do mundo musical, como Pedro Burmester, Pedro Abrunhosa, Pedro Osório, António Pinho Vargas, bem como muitos outros.
Foi nesta escola que teve origem a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto que, por sua vez, levou à criação da Orquestra Sinfónica do Porto, associada à Casa da Música.
O mérito desta escola permitiu, em 1992, ser agraciada com a Medalha de Mérito Cultural – Grau Ouro do Porto.
O Conservatório de Música do Porto é uma referência no ensino artístico especializado em música, tendo já formado muitos nomes, incontornáveis da cultura portuguesa.
Fotos: Pesquisa Google
01jul17
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