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Incêndios e aquecimento global

António Pedro Dores

Ler hoje as declarações do ministro do ambiente a respeito do acordo de Paris, produzidas em Abril de 2016, sobre o aquecimento global, é revelador. Não há menção ao interior do país, em risco de desertificação, e, evidentemente, não há estratégia para minimizar tal risco. Há referências às linhas de costa que afectam o turismo, à pluviosidade que afecta o trânsito. Nenhuma referência à monocultura do eucalipto, que é matéria prima de um bem transacionável produzido para a indústria da celulose.

Há referências aos esforços internacionais para reduzir o aumento médio da temperatura que, já se sabe – reconheceu o ministro –, não vai ficar dentro dos parâmetros desejáveis. Há também a omissão quanto ao papel dos incêndios na degradação das condições de vida em Portugal.

Na perspectiva de explorar as possibilidades de mais umas colheitas do eucalipto, bom para fazer papel para todo o mundo, enquanto for possível plantar alguma coisa em território português, admite-se implicitamente, por omissão, que ardam as aldeias, como está a acontecer este verão.

A inauguração da época histórica em que o Estado alegadamente se prepara com os meios operacionais, logísticos e materiais para a época dos fogos, em Portugal, tem mais de uma década, se não erro. Antes não havia época de fogos. A minha questão para todos os meus concidadãos é esta: não ensinaram aos vossos filhos e netos que já houve um Portugal em que não havia época de fogos? Se não o ensinaram, de que é que estão à espera? Se não o ensinaram, porque não o fizeram?

Lembro-me até de quando os políticos responsáveis pelo ordenamento do território manifestavam, provavelmente de forma cínica, o seu espanto pela litoralização do país, como se fosse uma mera a opção das populações por viverem na costa, quando o governo português decidiu, nos anos 80, acabar com as actividades rurais, sem as substituir por outra coisa que não fosse a abertura de estradas para o interior; por razões que tiveram mais a ver com os negócios de fazer estradas do que com políticas articuladas de desenvolvimento das populações. Estas, por isso, abandonaram os locais onde faltavam, e faltam, condições de sobrevivência autóctone.

desertificacao

Não tenho saudades do tempo em que a urbanização era um modo de distinguir os saloios (nome usado para discriminar os rurais, como também se usava, e usa, os alentejanos, os camponeses, quando não havia imigrantes para servir para esse efeito). Não há orgulho a ter do tempo em que Portugal servia de terreno para estudos antropológicos em terras atrasadas, que, com o fim do colonialismo, nos anos sessenta, deixaram de ser acessíveis nas antigas colónias das potências europeias.

Alguns antropólogos começaram a sua reconversão profissional em Portugal, onde continuaram a estudar laços de parentesco, numa sociedade que resistia à modernização, orgulhosamente só. A questão é saber se os nossos filhos vão poder, um dia, ter orgulho da vida que tiveram hoje, em função da nossa capacidade de nos adaptarmos às necessidades da vida deles, no futuro? Seremos capazes de transformar as nossas tradições de emigração de aflitos em emigração de qualidade, como já acontece em parte? Seremos capazes de manter um território em vias de desertificação, mas aprazível e sem riscos miseráveis, como aqueles que se correm nas épocas de fogos?

A conversa está a ficar desagradável. Vamos precisar de pensar. Onde e como se faz tal coisa? Não é preferível arranjar um culpado, ou vários: eles que paguem o nosso descanso de pensamento. Preferem o SIRSP ou a coordenação da protecção civil? Os bombeiros ou as câmaras municipais? A ministra ou o primeiro ministro? Ou, em vez de pensar, entregar a tarefa de acabar com o problema a organizações especializadas em abafar problemas – ao menos, por algum tempo mais – as forças armadas ou/e as prisões. As primeiras podem dar máquinas e as segundas mão-de-obra. Para fazer aquilo que lhes mandarem fazer. Mas o que é preciso fazer?

Antes de mais, o que há a fazer é abandonar as retóricas da culpa – seja contra os incendiários, seja contra os políticos de turno – e passar aos actos de assumir, pessoal e colectivamente, as responsabilidades que cabem a cada um e a todos de dizer que o rei vai nu: o estado português, envolvido em políticas de divisão de trabalho internacionais, defende a especialização de Portugal. Entre outras coisas, o país deve produzir pasta de papel para o mundo. Parece não poder prescindir disso, para ajudar a pagar a dívida eterna imposta pela troika. Não havendo como reverter o abandono do território pelas pessoas, território disponibilizado para ser entregue às indústrias interessadas, como haverá interesse e necessidade (entre os eleitores) em nos adaptarmos, enquanto é tempo, à desertificação anunciada?

Os nossos filhos podem sempre importar beduínos, para lhes ensinarem a viver no deserto. Mas temos, ou não, a possibilidade, hoje, de criar formas de resiliência estruturada e adaptativa às mudanças climáticas? Isso é que eu gostava de poder discutir. Mas onde?

Obs: Por vontade das autoras, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal Jornal”, o artigo inserto nesta “peça” foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa

 01set17

 

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