“Se o meu sangue não me engana
Como engana a fantasia
Havemos de ir a Viana
Ó meu amor de algum dia
Ó meu amor de algum dia
Havemos de ir a Viana
Se o meu sangue não me engana
Havemos de ir a Viana”
Excerto do poema de Pedro Homem de Mello, “Havemos de Ir a Viana”, eternizado pela voz de Amália Rodrigues. E nós fomos. Fomos a Viana. A Viana do Castelo….
José Gonçalves Pedro N. Silva
(texto) (fotos e vídeo)
Deixamos a terra do poeta (Pedro Homem de Mello nasceu e morreu no seu Porto de sempre) e rumamos, na manhã do dia quatro de setembro de 2017, pelos trilhos do “Celta” – o famoso comboio, que liga a Invicta a Vigo, e que é famoso nem sempre pela melhor das razões. “Rumamos” – escrevia -… à Princesa do Lima.
Temperatura agradável. Uma “apaixonante” neblina. O Sol só nos abraçaria com quentura (e que quentura!) lá mais para a tarde.
O Porto parecia triste ao ver-nos partir. A cidade também sente saudade dos seus e sabe deles despedir-se, isto com aquele “semblante”, que só os tripeiros sabem sentir e traduzir.
Mas viajar é sempre viajar. É ir à descoberta do desconhecido, por mais conhecido que ele seja. Neste caso, Viana do Castelo despertou-nos alguma curiosidade, no momento que por lá paramos (poucos minutos), aquando da nossa última reportagem especial (em março deste ano) à capital industrial da Galiza… (a romântica) Vigo.
E lá foi (08h15) o “Celta” sem grandes barulhos de motor (pelo menos na nossa carruagem não eram audíveis), mas com a notícia fresca (do dia anterior) do jornal “Faro de Vigo”, na qual se soube que o “dito cujo” não tinha – como continua a não ter – as exigíveis condições técnicas para exercer as suas funções de transporte, recordando o diário viguês, a tragédia de Porriño (09 de setembro de 2016) causada por idêntico comboio, na qual perderam a vida quatro pessoas e saíram feridas 48.
Sentimos algum desconforto com a “novidade”, mas atrevemo-nos a viajar no mais conhecido comboio internacional português, e que envergonha qualquer luso cidadão quando o vê estacionado junto dos seus robustos “hermanos”. Bem…. contas de outros “rosários”.
A capital do Alto Minho estava a uma hora de distância.
Não nos podemos queixar da viagem. A paisagem anestesiou qualquer tipo de ansiedade.
Felizmente não tivemos necessidade de experimentar o WC do comboio que, às vezes,… não funciona (vamos já lá, não diretamente ao WC, mas quase. Calma!). Connosco, outras (ainda algumas) pessoas partilhavam a “corrida” do Celta, mas mais agarradas aos tablet do que propriamente às janelas, para contemplarem o que a natureza do nosso litoral duriense e do nosso Minho oferece, isto, excetuando, duas asiáticas que, de vez em quando, lançavam “sons” de admiração por aquilo que viam e nunca tinham visto. Refiro-me à paisagem, está claro!
Campos verdejantes. Nada de terrenos queimados. Obras na ponte sobre o rio Cávado, e o tradicional e comummente conhecido “rum-rum” de um comboio que, às vezes, se valia de diversas guinadas para respeitar as exigências do (contra)relógio.
E, pronto. Lá ao fundo… Viana do Castelo. Antes, porém, a travessia pela bonita e emblemática ponte Eiffel, com o Lima a seus pés. Mais um “ponto de contacto” (desta feita de engenharia) da “Princesa” com a Invicta. Uma densa neblina dava-nos as boas-vindas.
Santa Luzia
Estação limpinha, airosa, mantendo a traça que carateriza quase todas as estações ferroviárias do início do século passado, para, logo ao lado, erguer-se um (simpático) Centro Comercial (Estação Viana Shopping), tudo no sopé do Monte de Santa Luzia, que nos preparávamos para subir com a preciosa ajuda do elevador/funicular, até ao Templo-Monumento de… Santa Luzia, ou do Sagrado Coração de Jesus.
Para mal dos nossos pecados, o elevador/funicular não estava de serviço, devido a obras de manutenção da linha, ou seja da linha mais longa de todos os funiculares/elevadores do país… 650 metros. Íamos desembolsar seis euros (três euros cada; ida e volta), para, durante seis minutos e na companhia (máxima) de mais 22 pessoas, chegarmos lá em cima ao templo e daí contemplarmos a paisagem sobre Viana do Castelo.
Solução: táxi. Subir a escadaria? Nem pensar!
No “interface” local, lá estava o “nosso” motorista e respetiva viatura. Simpático, o gorducho senhor que nos conduziu até ao “santuário”, pelas curvas e contracurvas (poucas, porque a viagem é relativamente rápida) de um monte verdejante, escondendo porém, como descobrimos mais tarde, alguma área ardida.
Cinco euros e, pronto, arrumou-se a questão da “escalada”. Depois foi o impacto com a deslumbrante paisagem sobre Viana do Castelo, e a “singela imponência” do seu altaneiro templo, como documentam as imagens que se seguem.
Saiba que a construção deste templo iniciou-se em 1904, através de um projeto de Ventura Terra e direção de António Adelino de Magalhães Moutinho. As obras foram interrompidas aquando da Implantação da República, para se reiniciarem em 1926, sob a direção de Miguel Nogueira. Os trabalhos do exterior estenderam-se até 1943, e dos interiores até 1959, como se pode ler na Wikipédia. Portanto uma obra, relativamente, recente, tendo em conta outros monumentos que destacam santuários.
Este monumento glorifica o nome de Santa Luzia a quem o capitão de cavalaria, Luís de Andrade e Sousa recorre, na extinta e homónima capela, acometido de uma grave oftalmia. Já convalescido, institui a Confraria de Santa Luzia, como forma de agradecer a graça recebida e daí a construção do monumento.
“Peregrinação”
Visita feita, era, então, altura de descer o monte… a pé. Se quiséssemos vir de táxi, ou de transporte público (carreira) até ao centro de Viana, ainda hoje estaríamos por lá, com certeza, a fazer campismo.
Descer pela estrada era perigoso, então, decidimos por travões nas sapatilhas e sapatos e desafiar a íngreme escadaria que nos conduziu até perto da estação de caminho-de-ferro (bem ?!…mais ou menos perto!).
Como que a rir-se de nós, olhavam-nos os elevadores (um, coitado, mais morto que vivo; o outro, em sala de operações). A abraçar-nos, uma paradisíaca… frondosa floresta, parte dela (pouca) queimada…
… e chegávamos ao fim da escadaria, sem registar qualquer tipo de trambolhão ocasional. Mas, se caso fosse, o Hospital de Viana era (como é) mesmo ali ao lado… “no problem”.
Recantos e encantos
Mesmo cansados (mais o velhote – quem vos escreve -, do que propriamente o jovem que reporta fotograficamente o acontecimento), ajustamos os joelhos, calcanhares e joanetes para as exigências e, a pé (como não podia deixar de ser), entramos, definitivamente, no centro de Viana, mas não pela sua artéria principal (Avenida dos Combatentes da Grande Guerra.).
Nós gostamos de visitar as “entrecenas” das localidades por onde passamos. É um vício… sei lá?! Mas é um bom vício porque, quanto mais não seja, vemos aquilo que os outros dificilmente registam, e sentimos, assim, o pulsar natural das urbes e, muita das vezes, os seus contrastes… sociais.
Ora, vamos lá que se faz tarde, pois daqui a pouco é hora do estômago dar horas.
Passamos por várias artérias, sendo nelas de destacar as varandas e os candeeiros de iluminação pública em ferro-forjado. Janelas coloridas, com pinturas contrastantes, azulejos de rara beleza, e esbeltas flores de campo penduradas em vasos nos beirais das casas.
Visitamos, entre outras, a Rua da Bandeira, e a bonita e central Praça da República, enfim, andamos por Viana, acompanhados por turistas (muitos, por sinal) de telemóvel, tablet ou máquina fotográfica em punho, para registarem as imagens de uma bela cidade; de uma cidade de cheiros próprios; de um pulsar tranquilo; de gentes com um “bom dia” simples e direto, até mesmo dirigido a quem desconhecem.
Pastelarias, confeitarias e pizarias não faltam na Princesa do Lima. A Torta de Viana (pelos vistos só se vende ao quilo), os Manjericos e outras doçarias fazem-nos arregalar os olhos e salivar para dentro. Estamos na capital do bacalhau (sobre o preço do “animal” confecionado, falaremos daqui a pouco) e de todo o tipo de peixaria que vem do mar, e do Lima, mas também da carne e dos produtos hortícolas, oriundos do Alto Minho interior. A Viana tudo (de bom) vem “desaguar”.
Mas, vamos é ao passeio (fotográfico).
Vamos lá…
Beira-Lima
Ruas, ruelas e avenidas. Tudo muito simpático, nesta apaixonante Viana. Muita gente nas ruas, e algumas curiosidades…
À beira Lima, uma aragem fresquinha. Estávamos no Jardim da Marginal que tem ao seu lado o polémico edifício Coutinho – a aclamada demolição dos seus 13 andares foi colocada a concurso público e custará cerca de um milhão de euros -, e mais à frente a marina, com – em terra – o seu jardim envolvente.

Percorremos, então, para poente, a Avenida 5 de Outubro, passando pela Biblioteca Municipal e mais à frente o Centro Cultural de Viana do Castelo, bonitas obras de arquitetura contemporânea.
Com o Sol a tentar dar, tardia e timidamente, os “bons dias”, era altura para se procurar um local para almoçar, sempre com a ideia de desgostarmos uma saborosa posta de bacalhau, pois ele é sem dúvida o “rei” da terra.
Da raia aos manjericos
Começamos a nossa “pesquisa” de menus, e ainda junto à marginal, e, quando líamos um cardápio, fomos abordados por um empregado de mesa.
– Desejam almoçar?
O senhor bem sabia que sim. Dissemos-lhe, então, que procurávamos um bacaulhauzinho à maneira.
-Sim…sim! Temos, e do bom…
– Quanto?
– Vinte e quatro euros a posta. Só a posta. A posta dá para uma pessoa à vontade.
Vinte e nove euros só a posta – fora o resto – e só para uma pessoa. Bom dia, que já se faz tarde.
E lá nos metemos por mais umas ruas e ruelas, até que lá encontramos um restaurantezinho simpático, bem composto – também era pequenino – e por seis euros cada um, com tudo incluído, (o nosso jovem “fotógrafo” atirou-se a uma espetada de peru, e o velhote, a um tipo de caldeirada de raia… muito saborosa por sinal) fez-se a “festa”.
Quanto à sobremesa. Essa teve um local muito especial: a pastelaria “Zé Natário”, onde comemos os tradicionais manjericos. Estavam divinais.
De autocarro…
A jornada nem a meio ia. Passamos pelo Museu do Traje, mas, tal como tinha acontecido no Elevador de Santa Luzia, demos com o nariz na porta. Esquecemo-nos que era segunda-feira e que à segunda-feira os museus estão fechados por todo o país, isto salvo raras e honrosas exceções.
Então, foi altura de visitarmos a cidade e as redondezas de autocarro (uma viagem… um euro, na “TransCunha”). Rumo: Darque.
Aliás, refira-se que todos os transportes urbanos são da TransCunha e partem de um terminal paredes-meias com a estação de caminho-de-ferro.
Mais: há um mini-bus (um autocarro que parece um “carrinho-de-linhas”) que percorre toda a cidade e pára onde os passageiros quiserem. Destina-se, essencialmente a pessoas com dificuldades de mobilidade, com destaque para idosos, que, assim têm acesso rápido e confortável a suas casas, independentemente, de viverem numa avenida, ou numa pequena rua ou viela.
Outra curiosidade: o último autocarro citadino parte às 23 horas, do referido terminal, mas só se estiver alguém na paragem. Caso contrário não inicia marcha. E esta hein?!
E lá fomos rumo a Darque, com bilhete de “ida-e-volta”. Paragem aqui, paragem acolá. Atravessamos a ponte Eiffel. Vimos bem de perto a famosa Quinta de Santoinho, e ouvimos as conversas animadas das (na sua esmagadora maioria) passageiras – com muitas jovens à mistura -, a falar de determinadas questões relacionadas com a terra, incluindo a futura “construção” de um hipermercado de uma famosa empresa, quase no centro de Viana. A ideia parece não agradar a todas.
“- Então, já temos um hiper, e vem para aqui mais outro?!”
“ – Há terras onde eles estão todos juntos, e não é por isso que deixam de ter clientela. O que interessa são os preços…”
Tá dito!
De um autocarro, saltamos para outro, este a fazer só percurso citadino. Observamos então os bairros sociais de Viana que, verdade seja dita, aparentam bom estado de conservação e em ruas arborizadas onde não vimos ponta de lixo, nem “borradelas” de “graffitis” (não dos artistas, mas dos outros… os badalhocos) nas paredes dos edifícios.
A praia Norte, os Estaleiros, o Forte e o porto de mar
Já junto à orla marítima, fomos “direitinhos” à Praia Norte, área que foi sujeita a obras de requalificação orçadas em 2,6 milhões de euros, numa empreitada realizada pela sociedade “Polis Litoral Norte”, ao abrigo do Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (PO SEUR).
E linda que ela está, tanto a praia como toda a zona envolvente. Aquando da nossa reportagem, e devido ao tempo, não se encontrava por lá muita gente (a nortada era forte), mas, ainda assim, não faltava quem se aventurasse a um… mergulho.
A pé, e mesmo ali ao lado, chegamos aos famosos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (NVC). Não lá entramos, mas de fora deu para ver o quão gigantesco é aquele espaço, extremamente importante para economia do País.
Estes estaleiros foram criados em junho de 1944, tendo em vista a modernização e desenvolvimento da frota de pesca de longo alcance. Os primeiros sócios foram técnicos de construção naval do Porto de Lisboa, associados a empresas do ramo da pesca do bacalhau.
Posteriormente o seu leque de construções foi-se alargando para navios de outro tipo, incluindo ferry-boats e navios de guerra. Em 1975 os ENVC foram nacionalizados, mas, em 1991, passam a Sociedade Anónima, com o Estado a ser, contudo, o principal acionista.
Recentemente, o presidente da WestSea, subconcessionária dos ENVC garantiu ter uma carteira de encomendas de 80 milhões de euros, estimando, até final de 2018, empregar cerca de 400 trabalhadores
Parte do referido montante (25 a 30 por cento) está garantido pelo contrato de construção de dois navios-patrulha oceânicos para a Marinha Portuguesa.
Neste momento, encontram-se em construção três navios para o Douro, mais dois a iniciar construção e ainda uma draga e um navio para o Ártico. Não falta, assim, trabalhinho para os 260 trabalhadores (diretos) dos ENVC, que poderá ser de 400 até ao final de 2018. Boas notícias para Viana e para o País.
Nas… despedidas
“Cansadinhos da Silva” – desculpem-me os Silvas deste país – lá seguimos nós, desta feita, para o Forte de Santiago da Barra, ali, paredes-meias com os ENVC. “Cansadinhos” mas entusiasmados com tudo o que presenciávamos.
E eis o Forte/Castelo que merece, sem qualquer dúvida, a sua visita.
Imagens do interior de uma fortaleza-castelo que foi construído visando a defesa e o desenvolvimento daquele trecho do litoral, pelo fomento à atividade pesqueira e mercantil. Afonso III (1248-1279) fundou a vila de Viana, outorgando-lhe carta de foral em 1258. Em meados do século XV devido à importância de Viana como porto marítimo e também devido à pirataria francesa e galega, constrói-se, então, esta fortificação na embocadura do rio, tendo no meio uma torre, ou seja a Torre da Roqueta.
Seguimos para nascente e sempre junto à foz Lima, para darmos de caras com o porto de mar e o seu caraterístico bairro de pescadores.
Seguindo o percurso da marginal e com o Sol por companhia, já perto do centro de Viana, e aberto ao público para visita, ancorada estava (como está) o navio-hospital Gil Eannes, que foi construído em Viana do Castelo, em 1955, para apoiar frota bacalhoeira que rumava à Terra Nova e Gronelândia. Muitas histórias tem este navio para contar…
E, pronto. Estava a chegar ao fim esta nossa visita a Viana do Castelo. Recebeu-nos uma cidade encantadora.
Despedimo-nos dela no centro comercial da Estação, um espaço cómodo, espaçoso, simpático, onde nos preparamos (com lanche reforçado) para o regresso à Invicta. Felizmente que não comemos muito, porque se tivéssemos o azar que teve uma turista que, connosco, partilhou a viagem no famoso comboio Celta, estávamos tramados. A senhora teve necessidade de ir ao WC e o dito cujo estava avariado, para vergonha do revisor e de nós, como portugueses, por termos um comboio assim.
Adeus Viana do Castelo. Até à próxima. Saímos encantados. Estamos encantados…
VÍDEO
VIANA DO CASTELO AO RAIO X
Habitantes
Concelho: 40 000
Município: 91 000
Área: 314 Km2
Orla Costeira: 24Km
Praias Douradas e de Bandeira Azul: 08
Praias marítimas: 11
Praias e zonas Fluviais: 17
Empreendimentos Turísticos: 20 (1.307 camas)
Empreendimentos Turísticos de Habitação: 06 (80 camas)
Empreendimentos de Turismo Rural: 21 (274 camas)
Empreendimentos Turísticos/Campismo: 2 / Lugares: 1.900
Alojamento Local: 115 (375 camas)
Pousadas da Juventude e Albergues: 03 (142 camas)
Estabelecimentos de Restauração: 149
Empresas de Animação Turística: 15
Áreas Ajardinadas na cidade: 162 000 m2
Miradouros: 07
Parques de Merendas: 30
Património Arqueológico Classificado: 07
Património Arquitetónico Classificado: 29
Santuários, Conventos e Mosteiros: 06
Moinhos: 396
Igrejas e Capelas: 212
Feiras e Feirões (durante o ano): 260
Estacionamento Parques Subterrâneos: 3 000
Trilhos Pedestre: 22
Toneladas de Mercadorias no Porto de Mar: 561 mil por ano
Monte de Santa Luzia: 1 milhão de visitas (por ano)
Fontes: Wikipédia e Câmara Municipal de Viana do Castelo
Esta reportagem teve o apoio de…
01out17






































































Muito boa a reportagem. Pena só a ter visto hoje porque fui a Viana há poucos dias, gostei mesmo muito, mas poderia ter aproveitado umas dicas que vi aqui.