Os 34 anos da Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar – CONTACTO assinalados no dia 22, data em que nasceu no mês de setembro de 1983, teve como cereja em cima do bolo de aniversário a representação da peça Medeia, um clássico da dramaturgia mundial recriado por Mário Cláudio, que a Companhia aniversariante produziu e levou mais uma vez à cena, com encenação de Manuel Ramos Costa e interpretação da atriz Aurora Gaia na Casa da CONTACTO, um ano depois da estreia na 23ª edição do FESTOVAR.

Mais de três décadas a promover e a fazer Teatro, o então Grupo de Teatro Água Corrente de Ovar, teve na sua origem Bernardo Santareno como autor privilegiado de peças que marcaram a companhia de teatro amador, a exemplo de, “A Promessa”, levadas à cena nos palcos do Salão Paroquial São Cristóvão, do velho Teatro Ovarense e do Cine-Teatro de Ovar até conseguir a sua própria Casa. Um percurso de dedicação, persistência e paixão ao serviço da arte de representar, em que se consolida a área da formação teatral e certames como o FESTOVAR, o Festinfância ou a itinerância e a participação no FIMO.
Uma já longa e arrojada caminhada de palco em palco pelo país, com dezenas de produções, trabalhos originais e estreias absolutas em que se incluem obras como Medeia, em que Aurora Gaia, como realçou Manuel Ramos Costa ao nosso jornal, “suporta com muita coragem, com muito saber, com muito talento, toda a representação sem muleta, a não ser uma bengala que ela usa mas como adereço”, acrescentando ainda, sobre o trabalho desta atriz que dá alma ao difícil texto por si encenado, “de facto ela está muito bem, ela é brilhante”.
A interpretação de “Medeia por Aurora Gaia, 61.ª produção desta Companhia, que tem ainda, pelo menos duas saídas em perspetiva, ao Porto e Vila Nova de Gaia no ano de 2018, foi um extraordinário brinde neste aniversário da CONTACTO, uma Companhia que habituou o público não só a gostar do Teatro, mas a proporcionar espetáculos com grande rigor e exigência técnica e artística, como nesta representação de um drama tão velho quanto a humanidade e tão humano quanto o eram os próprios deuses, que, como nos sintetizou no final Manuel Ramos Costa na qualidade de encenador da peça.
Trata-se da “história de uma atriz, que há cerca de 20 anos tem tentado levar à cena a peça Medeia de Eurípedes aqui em Portugal, o que nunca aconteceu. Precisamente porque nos diferentes governos que ela atravessou, todos foram prometendo que a ajudavam, mas isso nunca aconteceu”. Apesar da persistência desta atriz o apoio nunca chegou, ao ponto, conta Ramos Costa, “de ela própria se ver sem o Teatro em que está, porque foi demolido”. Uma cena final, que assume não ter acontecido por limitações no espaço do palco da Casa da CONTACTO, mas fundamentalmente por questões de segurança da atriz que morre por entre os escombros.
As palavras do encenador são de visível satisfação pelo trabalho realizado com uma atriz já de idade avançada, realçando que, “a Aurora interpreta precisamente essa atriz, que por sua vez, a atriz da história, se confunde muito com a vida da Medeia no que concerne ao afeto pelos filhos. A Medeia matou os filhos e a atriz, que a procura interpretar, tem uma espécie de indiferença para com os filhos. Não teve sorte no casamento, assim como a Medeia não teve” ou seja, referiu-nos ainda Ramos Costa, “a Aurora interpreta estas duas figuras que são trágicas, são nefastas, que são circunscritas ao rancor, ao crime, ao ódio ou ao amor que tocou as raias do ódio, porque foi uma mãe que matou os filhos só para castigar o marido, que acabou por casar com outra”.

Para Ramos Costa, encenador da CONTACTO e de várias outras companhias no país, “a Medeia de Eurípedes de facto em Portugal, tanto quanto se sabe, nunca foi representada por nenhuma companhia profissional. Isto é o que o autor nos conta”, afirmou e acrescentou, “e também nenhum governo teve disposição de investir numa peça, que à partida fala de uma mãe que ninguém gosta. É uma peça que incomoda, que nos faz desmoronar aquela ideia amorosa que nós temos das mães, da mãe de cada um”. Mas na verdade, diz Ramos Costa, “nós não gostamos que a mãe mate o seu filho. Nós não gostamos dessas notícias. E hoje sabemos, que há mães que ainda matam os seus filhos ou os abandonam, o que é igualmente um crime muito grande”. Ora esta mãe da Medeia de Eurípedes não é simpática e muito menos “à nossa cultura”, daí esta peça ter ficado condenada.
Nesta versão de Medeia, o texto de Mário Cláudio, com encenação de Ramos Costa não só não ficou condenado por falta de apoios, como beneficiou da forma profissional e apaixonada como Aurora Gaia se entregou a este projeto da CONTACTO. Uma vez que, como faz questão de realçar o seu encenador, “foi um trabalho de compreensão da peça em primeiro lugar, porque a personagem atriz e a personagem Medeia, elas muitas vezes confundem-se e a mudança de estados de humor, de estados de alma e de espirito, são tão repentinas que às vezes o publico nem sabe bem, se ela está a falar da Medeia, se estava a falar dela própria.
Essa confusão devesse ao facto de ser uma atriz já em fim de carreira, que está numa idade frágil. Ela própria já fará confusão entre as falas dela atriz, e as falas da Medeia, que ela continuamente anda sempre a decorar na esperança de fazer o espetáculo”.
Nesta conversa com o nosso jornal, Manuel Ramos Costa, um dos impulsionadores da fundação desta Companhia de Teatro Amador, fez ainda questão de lembrar para quem possa dizer que, “a Aurora grita muito, ou que não sou-a bem”, que, “esta peça era feita por uma atriz antiga, que não é dos nossos tempos, uma atriz ainda a habituada a declamar, com aquela projeção de voz, com as entoações todas muito certinhas”. Ora, “é isso tudo que a Aurora faz aqui”, enalteceu este produtor de Teatro que se vem revelando igualmente com grande sucesso nas edições na Feira Medieval de Santa Maria da Feira.
O trabalho em palco da atriz Aurora Gaia, bem como a sua paixão e dedicação à cultura, foi entusiasticamente aclamado pelo público, que no final fez questão de a saudar e beijar numa prolongada sessão de reconhecimento que antecedeu o momento de cantar os parabéns e cortar o bolo do 34.º aniversário da Contacto.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*) Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar – Aveiro
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