António Pedro Dores
I, Daniel Blake é o nome de um filme de Ken Loach, realizador britânico independente, sobre um carpinteiro inglês que está temporariamente incapaz de trabalhar, em razão de doença cardíaca, que coloca a sua vida em risco. Ao recorrer à segurança social descobre e denuncia o processo kafkiano de verificação burocrática das suas condições de existência. Processo, todavia, indispensável para beneficiar de apoio social. Na prática, o protagonista, como escreveu no seu obituário lido no fim do filme, sente como uma humilhação pessoal o que até então pensou serem direitos. Direitos que continua a reclamar, depois de morto, através desse testamento.
A segurança social britânica, no filme, trata dos seus contribuintes como qualquer seguro privado o faz com os seus segurados: procurando escapar às suas responsabilidades. Ou então, adiá-las de tal modo que apenas os mais insistentes e informados poderão beneficiar daquilo a que têm direito, caso sobrevivam às provações.
Em torno deste enredo principal, o protagonista descobre que há gente com mais problemas do que ele: aqueles que não têm direitos, como o jovem que vive ao lado e está num regime de assalariamento a zero horas (trabalha quando o patrão o chama e ganha à hora). Ou como a jovem mulher, com dois filhos, com quem se cruzou nos escritórios da segurança social, cujo problema foi não ter entendido o sentido das recomendações da mãe para não se deixar engravidar.
O jovem organizou, com um parceiro chinês, um negócio clandestino. Importava por correio produtos de marca directamente da fábrica. Depois vendia-os a preços inferiores aos do mercado legítimo. A rapariga vivia num quarto para sem abrigo, mas teve que aceitar os custos do alojamento da segurança social porque uma das crianças deu sinais de perturbações mentais. Sem rendimentos para pagar a renda, entrou na prostituição.
Vários episódios referem-se ao modo como a solidariedade entre pessoas pode funcionar: no banco alimentar, no supermercado, na vizinhança. Isso ajuda a ultrapassar necessidades básicas, momentaneamente. Mas não acaba com risco de se viver à margem da lei nem de entrar em situações de humilhação pessoal profunda. Como quando Blake entra no seu quarto de prostituta ou quando é apanhada a furtar pensos higiénicos ou quando, para dar de comer aos filhos, passa fome ela própria.
Os comentários ao filme, feitos para uma plateia de jovens estudantes de ciências sociais, foi para os prevenir que não deveriam levar o filme a sério, à letra. Deveriam usar o filme para se concentrarem no papel que a sociedade espera deles: serem funcionários da segurança social – ou de outro organismo equivalente. O filme contrasta a funcionária má, a funcionária boa, defendidas pela segurança privada e pela polícia.
O debate assim orientado levou os estudantes a escolher entre o respeito estrito da lei e a dureza, da funcionária fria, ou a empatia com o utilizador, da outra funcionária, no filme chamada à atenção pela supervisora. As funcionárias apenas tinham a liberdade de chamar os seguranças, quando o utilizador estivesse a ocupar muito tempo de trabalho e a prejudicar o seu desempenho e a sua avaliação profissional. Ou de resistir à pressão da supervisora e ocupar mais algum tempo com os casos mais intensos, do ponto de vista emocional.
No século XVIII, Voltaire tornou famoso o Cândido, símbolo-denuncia da resignação de se imaginar estar a viver no melhor dos mundos possível. Foi esse estado de espírito cândido que foi induzido, com sucesso, pelos comentadores, professores (hipnotizadores?), junto daqueles alunos. E funcionou: se a realidade era aquela, seria certamente a melhor realidade possível.
Nos termos de um comentador, embora a burocracia tenha muitos defeitos, sem ela não há direitos. De onde, embora isso não tenha sido dito, deduz-se que beneficiar de direitos significa o seu inverso: sujeitar-se à burocracia que arbitrariamente, quando tiver competência e tempo, reconhecerá (ou não) as condições de existência de quem está necessitado.
A fobia gerada, entre os estudantes, pela empregabilidade, pela noção de que cabe a cada um construir um CV de forma a poder vir a ser reconhecido por algum empregador como pessoa útil, tem a capacidade de concentrar a nossa atenção no nosso umbigo, dentro de fronteiras muito precisas (embora irreais). Deixa de fora todos os outros, colegas de escola, colegas de profissão, utilizadores, beneficiários, cidadãos, política. Tudo se passa, como melhor compreendem os funcionários mais rigorosos, entre o empregador e o empregado dos serviços de segurança social: há salário no fim do mês ou há despedimento.
O caso de Daniel Blake é a doença de alguém que sempre trabalhou e contribuiu. Não está previsto uma pessoa adoecer sem ter a respectiva autorização devidamente promulgada por autoridade competente. Dado o caso infeliz de redução de custos n administração e de falta de tempo para avaliar o seu caso, Blake faleceu da doença antes de a ver reconhecida. Esse é símbolo cultural estilizado pelo filme do problema do disfuncionamento da segurança social.
Mas e o caso da passagem à economia paralela dos jovens, usados de forma precária pelos mercados de trabalho? E o caso das jovens mães solteiras e das crianças que ficam abandonadas à capacidade das mulheres sós, sem que nem a sociedade nem a segurança social sintam a necessidade de garantir a estas crianças, a todas as gerações de crianças que foram assim criadas, um bem-estar que evite aquilo que todos sabem que acontece quando essas crianças crescem e se tornam jovens e adultos? Basta-nos reconhecer as famílias disfuncionais como causas de males sociais maiores? Não é preciso, não é ética e politicamente exigível fazer algo mais?
Obs: Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01nov17
