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ARTE XÁVEGA – ALGUNS DOS “ROSTOS” QUE AINDA HÁ UMA DÉCADA DAVAM VIDA À PESCA NA COSTA VAREIRA

(REGISTO)

Quando, cada vez mais a típica pesca costeira da Arte Xávega, com suas redes de arrasto, barcos característicos e seus pescadores de rostos queimados do sol e da maresia do mar, enrugados pelos tempos de dura labuta em terra e no mar, que desta e outras artes de pesca na região (Lagoa da Barrinha ou Ria de Aveiro), sobreviviam comunidades piscatórias ao longo da costa. Cada vez mais restam só memórias desta arte em decadência, que se vai perdendo de década para década, deixando recordações de “rostos”, como os que aqui se revivem, de homens e mulheres que ainda há uma década davam vida à pesca na costa vareira.

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José Lopes

(texto e fotos)

Com as comunidades piscatórias do concelho de Ovar, entre Esmoriz e o Torrão do Lameiro, verdadeiramente reduzidas a meros focos de resistência simbólica para manter a tradição da Arte Xávega. Pelo caminho, nestes últimos anos, ficaram companhas como, “Sr.ª da Graça” e “Deus Te Salve” no Furadouro e “Susana” em Esmoriz. A remar contra a maré de todas as dificuldades sempre manifestadas sobre a falta de apoios a esta arte, ainda vão persistindo, as companhas “Jovem” no Furadouro, “Pedro o Pescador” no Torrão do Lameiro, “Buçaquinho” em Cortegaça, “O Mar de Esmoriz” a trabalhar a norte da Barrinha e o barco “Sr.ª da Piedade” com pescadores de Ovar a resistir na Torreira.

É perante este cenário, bem longe da realidade sócio económica que a Arte Xávega, ainda há pouco mais de uma década no Litoral Centro chegou a representar, entre Espinho, Ovar, Torreira, Vagos e Mira, em que abrangia cerca de 25 companhas e um universo de quase 400 famílias, que, a exemplo do Município de Ovar, as várias comunidades com tradições nesta arte de pesca costeira de arrasto, procuram a preservação da atividade que ainda sobrevive, candidatando a Arte Xávega a Património Cultural Imaterial de Portugal. Uma classificação já obtida pelo Município de Almada que assim reconheceu a comunidade piscatória da Caparica da Caparica.

Idêntico reconhecimento aguarda o Município de Ovar que há cerca de três anos apresentou também candidatura para inscrever as suas já muito reduzidas comunidades ligadas à pesca, em núcleos como o Furadouro, Torrão do Lameiro, Cortegaça e Esmoriz no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Mais do que garantir o futuro da Arte Xávega, tal classificação e inventariação como Património Imaterial, valoriza a memória das comunidades, a sua identidade e profundidade histórica, bem como os métodos e técnicas etnográficas desenvolvidas ao longo de séculos.

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Talvez estes “rostos” de pescadores que aqui se trazem à memória coletiva, não venham a constar na classificação de Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial a cuja candidatura, as comunidades dos núcleos piscatórias de Ovar deram corpo para a sustentar com seus testemunhos. Ainda que, muitos destes velhos pescadores que tantas vezes “lutaram” com o mar, fossem merecedores de reconhecimento enquanto vivos, porque alguns deles lamentavelmente já não se encontram entre nós. Em alguns casos, vitimas mortais de trágicos naufrágios.

Por isso, em memória de todas estas comunidades piscatórias, dos seus velhos pescadores que ainda muitas histórias de vida têm para contar, e aos que já não tiveram tempo de as partilhar, nem de viver estes tempos de espectativas na valorização das comunidades piscatórias, como o mais recente “Concurso Mar2020”, que visa apoiar projetos locais que se enquadrem na Estratégia de Desenvolvimento Local em concelhos como, Ovar, Murtosa, Aveiro, Ílhavo e Vagos. Com objetivos tão ambiciosos para a atual realidade da Arte Xávega, que mais parece um parente pobre neste “Concurso Mar2020”, e que vão desde a “preservação, conservação e valorização dos elementos patrimoniais e dos recursos naturais e paisagísticos”, ao “reforço da competitividade da pesca”, assim como, do “reforço da competitividade do turismo”. Aqui se deixam estas memórias, como simples homenagem.

Memórias ainda frescas

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Há mais de uma década (2005) num périplo pela costa vareira, estes “rostos” de mestres pescadores, fosse como atividade profissional ou de sobrevivência e complemento às magras pensões, passavam o testemunho de uma vida dedicada à faina da pesca aos muito poucos jovens que integravam algumas das companhas.

Na praia do Furadouro um dos ex-libris era a companha “Sr.ª da Graça”, que tinha como proprietário o banheiro e concecionário, António Maganinho. Na altura ia já na terceira geração de barcos típicos da Arte Xávega, com o nome, “Sr.ª da Graça”. Uma companha que veio ocupar um lugar muito próprio no areal desta praia, quando em 1981, o António Maganinho entrou numa sociedade que teve o propósito de reanimar esta atividade, bem como a comunidade piscatória local, depois de um período de decadência acentuada, que se tinha abatido nesta terra de seculares tradições na relação com o mar e a arte de pesca costeira. Relação profunda que deixou memórias, entretanto desaparecidas fisicamente, de alguma indústria conserveira.

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As desilusões no futuro da Arte Xávega, continuaram muito presentes, e apesar da companhia de outras companhas, como a “Deus Te Salve”, as amarguras e as reivindicações, eram comuns. O proprietário da “Deus Te Salve”, António Nazareno, que já tinha visto ser-lhe destruídas duas embarcações queimadas em terra, tendo a última acontecido à “Dulce Maria” na praia de Maceda. Vinha de Esmoriz para o Furadouro procurar melhor sorte, e durante alguns anos, ali encontrou porto de abrigo, numa zona anteriormente reservada à extinta companha do “Giesta”. Mas o fim de ambos, “Sr.ª da Graça” e “Deus Te Salve”, que davam trabalho a pescadores de Ovar, Cortegaça e Esmoriz, foi ingloriamente, apodrecerem em terra, ali permanecendo em decomposição, como um visível sinal do estado a que chegou esta arte de pesca.

Mais a norte, em Cortegaça, o “Buçaquinho” dava nome à companha que assumia a tradição da família proprietária, composta por Augusto Fonseca e a esposa Cesaltina Fonseca, com o filho João Fonseca como arrais do barco, cuja faina se desenvolve naquela praia, limitada ao reduzido areal e às marés.

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Com zonas de pesca também reduzidas, em Esmoriz, a norte da Barrinha encontrava-se “O Mar de Esmoriz”, que se mantem pronto a aproveitar as oportunidades para arrastar para terra algum pescado, tendo como porto seguro, uma pequena comunidade piscatória em Paramos. Já o barco “Susana”, confrontado com as dificuldades impostas pela limitada área de pesca junto ao aglomerado de habitações de pescadores na praia de Esmoriz, o seu proprietário, José Nunes Pereira, procurava mais a sul melhor sorte. A praia velha de Maceda foi a alternativa, até mais tarde voltar a Esmoriz e lá acabar em terra, com o seu proprietário vencido por uma grave doença. Um triste fim, que trás à memória das gentes de Esmoriz, outras embarcações desaparecidas da faina, como o “Gaivina”, o “Maria Salmão” ou o “Senhor do Socorro”, entre outras.

Um novo porto de abrigo foi proporcionado na praia do Torrão do Lameiro, depois de criadas as acessibilidades mínimas para se chegar ao mar. A Arte Xávega encontrou ali alguma esperança de remar contra a maré, na procura de mais peixe. Estendiam-se então no largo areal, duas companhas, “Jovem” e “Pedro O Pescador”.

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O barco “Jovem”, propriedade do comerciante de peixe, Jacinto, tinha sido adquirido em Esmoriz e os seus pescadores eram essencialmente do Furadouro e Ovar. No entanto os desabafos continuaram a ser de desilusão, quando o saco chegava a terra com pouco pescado, que não garantia as muitas despesas e a tradicional divisão das “partes”, por entre os cerca de 15 ou 20 pescadores de cada embarcação. Assim o “Pedro O Pescador” também não tinha melhor sorte, apesar da persistência do proprietário, David Manuel, que, curiosamente, na época tinha tido o seu batismo na atividade da pesca com este barco novo naquela praia, sendo mesmo apresentado como um exemplo de empreendedor e como garantia de preservação da Arte Xávega. É verdade que este empreendimento, mais de amor à companha que empregava homens e mulheres locais com afinidades com a agricultura, do que ao sustento tirado do mar, mantem-se a pescar, mas já alguns anos viu o “Jovem” navegar até ao Furadouro, onde é agora o único barco a manter a chama viva da Arte Xávega naquele que foi o maior núcleo piscatório do concelho de Ovar.

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Neste périplo seria inevitável calcorrear igualmente a praia da Torreira, em que lá mais a sul, se tinha instalado o “Sr.ª da Piedade” de Manuel Rodrigues Pepolim. Com a embarcação rebatizada, dado que anteriormente era “Senhora da Aparecida”, os seus pescadores vinham do Furadouro, praia em que o “Sr.ª da Piedade” tinha trabalhado durante alguns anos, acabando por procurar na Torreira melhores safras, razão para certamente se manter naquela praia do concelho da Murtosa em que este reduzido núcleo de pescadores de Ovar dão vida e alma à Arte Xávega tal como noutros tempos se espalharam ao longo da costa portuguesa e criaram reconhecidas comunidades piscatórias vareiras.

Obs: texto baseado em “Xávega – Arte da desilusão” do mesmo autor publicado no “Jornal de Ovar”, entre 26 de maio e 21 de julho de 2005

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1 Comment

  1. Filipe Pereira

    Muito obrigado pela publicação. Dei o meu nome durante muitos anos para que pudessem trabalhar duas dessas XÁVEGAS. Tenho nessas fotos alguns homens valentes de quem muito gostava, e com quem partilhei bons momentos.
    Homens duros por fora mas com um Coração Enorme.
    Um enorme bem haja a todos eles. Aos que já partiram deixo uma prece para que permaneçam no local merecido.
    Muito obrigado também ao autor da notícia que me faz recordar tempos difíceis mas contudo muito agradáveis.

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