A 24.ª edição do Festival de Teatro de Ovar (FESTOVAR), organizada pela Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar (CONTACTO), subordinada ao tema “Teatro na Era Digital”, decorreu entre 13 de outubro e 25 de novembro no Auditório da casa da companhia anfitriã, com uma sessão de abertura que teve como convidado, Jorge Queirós, para falar sobre o papel do Teatro na “transformação digital” e as novas “abordagens cenográficas”.
Um desafio qu,e no essencial, não altera a essência do teatro, porque, como afirma este especialista, “a tecnologia que torna o teatro obsoleto ainda está por inventar”, como seria aliás demonstrado ao longo do vasto programa do Festival, que encerrou com a estreia da peça, A Salvação de Lutero. Um texto de Teresa Leite e encenação de Manuel Ramos Costa, que assinalou a 66.ª produção da CONTACTO com mais um extraordinário sucesso que voltou a ser reposto nos dias 2 e 9 de dezembro, voltando ao palco em Ovar no dia 20 de janeiro, no âmbito do projeto Dar Teatro, para depois iniciar a habitual itinerância da Companhia pelo país.
A Salvação de Lutero, que estava escrita desde 2014, era um sonho que Manuel Ramos Costa já algum tempo desejava concretizar, depois de outros projetos por si encenados com grande dimensão representativa, acabando por ser um verdadeiro desafio a representação deste drama histórico em que a CONTACTO se estreou, com o ator José Ferreira a assumir o personagem de Martinho Lutero, o sacerdote católico alemão que veio a ser protagonista da Reforma Protestante realizada na Europa no século XVI. A peça interpretada com muito profissionalismo por um bom lote de atores amadores desta escola de teatro, tem início com a cena da venda de indulgências feitas em nome do Papa Leão X. Taxas pagas pelo povo contra as quais Lutero se revolta e escreve as suas noventa e cinco teses, que viriam a resultar numa intensa luta dentro da própria Igreja, acabando como castigo, por ser excomungado.
Nos vários quadros de representação da peça, que incluíram momentos de guerra, destacou-se ainda o papel de Lutero na alteração do cerimonial da missa, ao substituir o latim pelo alemão, para cuja língua tinha traduzido a Bíblia, rejeitando todas as hierarquias eclesiásticas, incluindo o Papa, e renegando a interpretação oficial da Bíblia. Um desafio assumido por Lutero, que deu permissão aos sacerdotes para contrair matrimónio como ele próprio o fez, num dos momentos em que o ator José Ferreira contracenou com Andreia Lopes, para representar o celebrado casamento do sacerdote, que conservou o batismo e a eucaristia e deu maior valor à fé do que às boas ações como meio de se atingir a salvação, a exemplo da luta travada por figuras marcantes, que iam sendo projetadas num fundo branco do cenário, como o Padre António Vieira, Martin Luther King, Mahatma Gandhi ou Nelson Mandela.
Formaram o elenco do drama histórico A Salvação de Lutero, a própria autora do texto Teresa Leite, Andreia Lopes, António Ferreira, Dorinda Resende, Inês Oliveira, João Barge, José Fonseca, Juliana Almeida, Laura Poças, Luís Ribeiro, Manuel Ricardo, Margarida Martins e Tiago Amaral.
Esta festa do teatro que começou por levar ao palco da Casa da CONTACTO a comédia, Aqui Há Fantasmas, pelos Plebeus Avintenses, num programa que contou com companhias do Pombal, Ourém, Gulpilhares, Valongo, Braga e Avintes, teve ainda as produções da casa, O Cavaleiro da Triste Figura e O Avião Que Tinha Medo das Alturas, neste caso com encenação de José Ferreira e o encenador Manuel Ramos Costa no elenco de atores. Ainda que com predominância da comédia, o FESTOVAR teve farsa, drama, infanto-juvenil, teatro de marionetas e drama histórico, com A Salvação de Lutero, para encerrar este certame que de forma consolidada e muito exigente na representação teatral, vai na sua 24.ª edição a cumprir sonhos que se vão materializando com a construção de projetos teatrais que fazem a já longa história da existência da Companhia “Água Corrente”.
A atual CONTACTO abalançada para novos desafios, como o “teatro na era digital”, tema a que também o diretor deste Festival, Fernando Rodrigues, afirmou, “o digital pode, em minha opinião, reinventar a tradição teatral integrando as tecnologias digitais nesta arte milenar, adaptando o Teatro aos novos contextos das sociedades.”, porque, como concluiu este diretor, “o Teatro permanece e permanecerá sempre adaptando-se aos novos tempos”.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*) Correspondente “EeTj” em Ovar – Aveiro
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