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“Venham a mim as criancinhas!”?

António Pedro Dores

Jesus terá dito esta frase. Torna-se cinicamente desagradável quando surgem notícias como a da IURD (outra vez!). Desta vez a acusação não é de saque aos fiéis: é de abuso de poder. Trata-se de tráfico de crianças. Há quem fale ser uma consequência da obrigação dos pastores dessa igreja fazerem vasectomias. Uma espécie de modernização dos votos de castidade da igreja católica, traduzida da obrigação de cada pastor assegurar fisicamente à Igreja Universal que não vai dedicar-se a outra coisa a não ser à religião.

Essas vozes explicam a barbaridade deste tipo de tráfico de crianças com a necessidade dos pastores terem crianças a cargo, para satisfazer os seus instintos parentais, e usarem a confiança de famílias em dificuldades para os satisfazer. Talvez seja impensável aquilo que move organizações de seres humanos a fazerem das crianças mercadorias. E haja a necessidade de oferecer a tais comerciantes sem escrúpulos uma possibilidade de terem uma alma, como toda a gente. Mas, na verdade, nada justifica tais práticas. Ou, dito de outro modo, é tão repugnante pensar como é possível tais coisas acontecerem que nos recusamos a pensar o que possa estar na causa de tanta malvadez.

Atreve-se o leitor a pensar de que modo seres humanos, como nós, podem engendrar o abuso de crianças? Em alternativa o leitor pode acusar os pastores da IURD como se eles fossem únicos, diabólicos, tratando-os como criminosos, que serão efectivamente todos os que se envolvem em tráfico de seres humanos. Como degenerados, os pastores e os outros criminosos podem reclamar, a ser favor, também eles serem oprimidos, como os abusadores sexuais que começaram por ser eles próprios os abusados. Nem os pastores da IURD, nem outros abusadores são exemplos de seres humanos razoáveis: quem abusa de crianças é criminoso. Mas porque há tantos criminosos destes?

A Igreja Católica foi alvo de acusações dolorosas sobre abuso sexual de crianças. Dois papas, o presente e o anterior, lutam – dizem as notícias – para expulsar do Vaticano os poderes fácticos que insistem em ensombrar aquela colina, e ainda não foi possível expurgar os partidários (?) de achar normal, sem problema, as práticas que horrorizam qualquer pessoa de bem. Em Inglaterra, segundo notícias vindas a público na televisão, há um sistema de protecção de crianças que permite que casais devidamente credenciados tenham a seu cargo 4 crianças sem lar e recebam do estado, para isso, verbas que as ajudem a viver da prestação desses cuidados.

A perversidade humana transformou isso num negócio de angariação de crianças partilhado entre profissionais da segurança social e algumas dessas famílias. Vão às maternidades buscá-las junto de casais estrangeiros, como os portugueses, a pretexto de qualquer alegado comportamento suspeito, e entregam-nas para adopção. Poucas semanas depois, outro canal de televisão nacional revelou queixas de processos da segurança social portuguesa falsificados: os textos nada tinham a ver com a realidade e levavam à promoção da ideia dos tribunais de família de ser necessário a separação das crianças dos seus progenitores.

crianca triste e abandonada

Há muitas histórias de crianças abandonadas pelas famílias, por desleixo ou dificuldades materiais, que vêm as suas vidas destruídas desde a infância, sem nunca lhes ser dadas oportunidades para fazer uma vida normal. Há depois as histórias de serviços privados e públicos que deveriam ser apoios de crianças nestas situações que afinal abusam delas. Pior do que isso ainda é possível. Na falta de crianças à mão, os serviços produzem crianças abandonadas para serem processadas por redes de abusadores sexuais, por redes de tráfico de seres humanos, para adopção simplesmente.

Faz uns anos, era Sarkozi presidente da França, um grupo activistas de ONG foi preso em África por trazer consigo mais de uma centena de crianças para a Europa. O presidente francês intercedeu a seu favor e foi buscá-los, deixando as crianças a cargo do estado africano em causa. Francamente, esta é a parte mais dolorosa da reflexão, somos nós, seres humanos, e não apenas este e aquele maluco quem abusa das crianças. Que outra explicação se pode encontrar para que, em Portugal, e não noutro país qualquer, durante a crise provocada pela Troika, ter surgido a notícia de as escolas serem obrigadas a manter as respectivas cantinas abertas durante as férias porque para um terço das crianças ser tudo o que comem regulamente aquilo que recebem na escola?

Quem se sentiu obrigado a indagar melhor o que isso significa para o país? Quantas das crianças vivem na pobreza, desde que nascem? Quantas dessas crianças, têm possibilidades de vida como as outras? Quantas não foram abusadas por negligência ou de outras formas ainda piores pelos cuidadores, vizinhos, organizações várias?

Essas crianças e quem as conhecem tratam, como todos nós afinal, as suas histórias como coisas para esquecer. As consequências dessas experiências de vida têm impactos sociais prolongados: enquanto essas crianças viverem, tornando-se homens e mulheres, muitos nas prisões e na prostituição, mas muitos outros noutro tipo de situações, eventualmente mais bem posicionadas, capazes de sobreviver e até de vencer na vida, apesar de tudo. Vivem, inevitavelmente, com uma dureza de sentimentos que tornam a humanidade menos humana; não apenas a humanidade que vive à sua volta, mas também a humanidade que esquece, faz por ignorar, o modo como ancestralmente se reproduz as desigualdades de oportunidades sociais: na infância.

Em Islamabad, devido à guerra, explicou um advogado local activista dos direitos das crianças, havia no final da década passada, 1 milhão de crianças na rua a serem pasto de todo o género de interesses e manipulações, como um cardume à mercê dos predadores. A questão é esta: quem, referindo-se ao seu próprio país, tem a coragem de anunciar com clareza semelhante os dados do desprezo com que a humanidade trata as nossas crianças?

Não se pode generalizar. A maioria dos seres humanos são capazes de ser carinhosos e cuidadosos com as crianças. Sobretudo com as crianças que tenham a cargo. As sociedades (aqui será mais correcto generalizar) são negligentes com as crianças: famílias incapazes ou incompetentes para proteger as suas crianças deixam-nas em maus lençóis, porque o resto da sociedade entende não ser assunto seu. Apesar dos esforços de algumas organizações e pessoas, conforme mostra a experiência, muitas crianças são usadas de modo a destruir-lhes as já fragilizadas oportunidades de vida digna, sob um manto de silêncio social protegido pela repugnância que estes assuntos provocam nas pessoas, incluindo nas vítimas. Tornando as sociedades humanas piores do que poderiam ser.

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Foto: pesquisa Google

01jan18

 

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