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Globalização continua sem os EUA

António Pedro Dores

Trump veio interromper a política de globalização, com a sua “América primeiro”! Mas a história não anda para trás. O império dos Estados Unidos vai acabar até 2020”, diz o decano dos especialistas. Intuitivamente, todos suspeitamos que o império vai sofrer, ele também, por causa da globalização, mais uma deslocalização; a nova Roma passará em breve a ser Pequim.

Em Portugal, por exemplo, perante as políticas suicidas de austeridade da União Europeia, apesar dos protestos do sr. Schultz, então presidente do Parlamento Europeu, o governo português, sem discussão pública, diversificou as suas dependências financeiras em direcção à China, potência amiga desde os tempos de Macau. O partido chinês gosta de gente subserviente e Portugal produz subserviência como produz cortiça.

A política dos investimentos de riscos públicos e lucros privados, as celebradas parcerias público-privadas, foi mobilizada com sucesso, por sugestão da União Europeia: o estado chinês travestiu-se de empresas globais privadas e o estado português fingiu que estava a vender aquilo que era dele. Da esquerda à direita, nenhuma oposição útil. Uns por razões de segredo de estado, outros por razões de liberdade de investimentos e desejo, até, de facilitar o investimento estrangeiro; alguns, eventualmente, por razões ideológicas – afinal aquilo chama-se República Popular da China – todos convencidos da inelutabilidade do império, tornámos natural aquilo que não o era.

O sector da energia em Portugal, entre outros, passou a estar controlado por poderes asiáticos com superavit e com dificuldades em saber o que fazer a tanto dinheiro, enquanto, na Europa, a Alemanha e a França exploravam financeiramente, à moda colonial, os seus parceiros da União Europeia, por mesquinhez e falta de imaginação.

O episódio da hostilidade da EDP em relação ao governo, como lhe chamou António Costa, é um aviso de como a luta contra os paraísos fiscais pode, em breve, ser ultrapassada por um pesadelo pior: todo o mundo, ao menos todo o mundo dependente financeiramente do poder chinês, fica sujeito a ser um offshore. A EDP, autorizada pelos accionistas e pelo governo chinês, nega-se a pagar os impostos alegando entendê-los como injustos.

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Uma empresa assinalada por ser um monopólio e beneficiar das rendas de um monopólio reage às tentativas de controlo financeiro do estado alegando juridicamente que não deve aquilo que os serviços fiscais dizem que deve. Os serviços fiscais conhecidos pela brutalidade que ultrapassa a legalidade com que trata os contribuintes, nem sequer são ouvidos neste caso. O senhor primeiro ministro, ele próprio, teme ser incapaz de trata do assunto. Deixa cair o queixume de o anúncio publicado pela EDP, mais do que a falta de pagamento, constituir não um litígio mas um acto hostil ao estado português; forte com os fracos e fraco com os fortes.

Aquele a quem é imposto o imposto é, económica e politicamente, mais forte, dentro e fora de Portugal. Os impostos, como o nome indica, exigem haver poder para impor. Não sendo o caso, deixa de haver impostos. Passa a haver contribuição voluntária. O estado português terá de a implorar, para não perder a face. Ou resolver o problema de outro modo. Talvez negociando mais rendas contra a contribuição voluntária que termine com o vexame.

Umas das razões alegadas para a adesão de Portugal ao Euro foram os ataques especulativos que fizeram de Soros um multimilionário e que fizeram balançar a libra esterlina. Argumentou-se, então, que os países, incluindo os grandes, caso não se juntassem, ficavam permeáveis à especulação financeira, potencialmente desestabilizadora da vida social e política. Com a instalação do sistema financeiro global a especulação atingiu níveis jamais vistos, juntamente com a poluição da atmosfera e o número de presos no planeta em grande parte provocado pela guerra contra as drogas. Os vícios do jogo, do poder, dos psicotrópicos, tornam o planeta inabitável, moral e ambientalmente.

O sistema financeiro global tem uma centralidade inegável em juntar, no mesmo campo, todos os vícios. Para os alimentar, há que continuar a sacar dos contribuintes-eleitores o valor que, de outra forma, as empresas, por si só, teriam dificuldade em sacar. Contribuintes-eleitores eles próprios viciados em entretenimento e consumismo alienantes.

Na prática, os vícios de baixo alimentam e sustentam os vícios de cima: os contribuintes pagam cada vez mais e os serviços públicos têm cada vez menos (porque o estado está a servir para pagar os juros da dívida, para o lado da banca alemã e francesa, para um lado, e as rendas, para outro lado, o lado chinês).

Os avisos do primeiro-ministro que os fogos de verão vão continuar a acontecer e a constatação do secretário de estado de que o estado não está em condições de garantir aos cidadãos socorro em caso de catástrofe, não devem ser entendidos apenas como uma referência às alterações climáticas e à protecção civil corrompida: a política dos estados offshore (em português, fora de pé), a que houve quem chamasse globalização, continua agora com os chineses a mandar nas principais empresas multinacionais. Já que os EUA não estão aí e a Europa se entretém com lutas fratricidas entre os beneficiários da globalização e os defensores do retorno à fase histórica anterior, quando os estados mandavam.

Cartoon: pesquisa Google

Obs: Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01fev18

 

 

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