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MÁRIO DORMINSKY EM EXCLUSIVO – “O CINEMA É MUITO MALTRATADO EM PORTUGAL”

O Etc e Tal jornal esteve no Fantasporto 2018 e, entretanto, entrevistou, em exclusivo, Mário Dorminsky, Jornalista, criador da revista Cinema Novo e corresponsável pela criação e organização deste festival, que já conta com cerca de 38 edições.

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Sérgio Silva e Sousa   Pedro N. Silva 

(texto)                   (foto)

Qual o objetivo dos festivais de cinema em Portugal?

“O objetivo dos festivais de cinema em Portugal é conseguirem trazer filmes que, por exemplo, até ganhem prémios em festivais estrangeiros mas que depois não entram no circuito comercial em Portugal porque são demasiadamente de autor, a lógica dos festivais é muito diversa, mas também no meu ponto de vista só há três festivais de longa-metragem em Portugal: o Fantasporto o IndieLisboa e o Lisboa-Estoril. Os outros são festivais temáticos, de animação, documentário ou curta-metragem.”

Acha que o cinema e a cultura estão de mãos dadas com o centralismo?

“Lisboa tem sido muito beneficiada nos últimos anos no que se refere aos festivais, a Vereadora da Cultura de Lisboa Catarina Vaz Pinto tem feito um enorme trabalho quer na divulgação quer no apoio à cultura. Em Lisboa sabem que é fundamental interligar a cultura com o turismo, aqui no Porto esqueceu-se muito esse aspeto. O turista chega aqui ao Porto, apesar de neste momento ser um destino de excelência, e não tem nada para fazer depois das 22 horas, a não ser um concerto isolado de longe a longe, não há uma continuidade de eventos. A imagem da Cidade em termos culturais sofre muito por este fator.”

O trabalho que temos feito fez com que a imagem da cidade tenha melhorado em termos culturais, temos tipo artigos muito interessantes na comunicação social estrangeira, no Washington Post por exemplo, os filmes vêm praticamente de todo o mundo, e nesses países há um reflexo da participação dos filmes neste festival, e muito mais se houver prémios, isso faz com que o número de participantes se alargue nos anos seguintes.

Os festivais existem para se poder consumir filmes que não entram no circuito comercial, há em cada país um festival “macho”, ou seja, o festival mais forte de cada país, mas cá em Portugal em muito confuso, o Fantasporto seria obviamente o maior candidato, mas para isso teríamos de ter uma descentralização, teríamos de ser um país normal, mas somos um país concentrado em Lisboa.”

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Como se faz a programação para o Fantasporto?

“Nós pesquisamos, temos uma sensibilidade para descobrir coisas novas que terão mesmo impacto ou que pelo menos consideramos irem ter impacto.

Alguns dos filmes que exibimos, só terminaram de ser produzidos há dois dias.

Com estes cortes a estrutura profissional foi reduzida ao máximo, passando neste momento o Fantasporto a trabalhar em larga escala com os voluntários, mas não podemos cortar na estrutura profissional que acompanha os convidados, esta estrutura já tem alguns anos aqui no Fantasporto, isso é fundamental, a parte do secretariado também é fundamental.”

O Fantasporto teve de se adaptar às características do público

Por exemplo, quando se vê a programação do Fantasporto, os filmes que estão à tarde chegaram a estar na programação à noite, mas entretanto apareceram coisas melhores, passando alguns filmes da noite para a tarde, alguns até caíram mesmo da programação do Fantasporto e não são exibidos. Quanto mais vezes isso acontece mais demonstra que a programação é de maior qualidade.

Todos os filmes têm a nossa chancela, temos de ver todos os filmes.

Temos de ter, no fantasporto, um cinema que encha o olho, que as pessoas digam que foi um grande filme, acho bestial quando alguém do público envia um e-mail a dizer que já não via um filme com tanta qualidade há 10 anos, como o que assistiu aqui na nossa sala no dia de abertura, isso dá-nos gozo! Há filmes que recebem aplausos de mais de 3 minutos!

Temos a preocupação em saber o que é que o público gosta, por isso as salas estão cheias para ver os nossos filme, já tivemos salas esgotados antigamente, agora só podemos dizer que temos as salas cheias.

O Fantasporto estava sempre cheio à noite, embora continue a ser o festival com mais gente em Portugal, mas já não é o que era há cinco ou sete anos atrás, nós tínhamos 45/50 mil espetadores agora podemos conseguir 25/30 mil, houve uma redução muito considerável, temos de chegar ao nosso público alvo, e é preciso fazer um esforço para chegar às universidades.

Temos a preocupação de falar com as associações de estudantes ou até mesmo com a FAP – Federação Académica do Porto – falamos com eles para se criar uma rede, uma aranha gigante para se conseguir chegar a mais gente.”

As pessoas deixaram de ir ao cinema

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Admite que haja falta de capacidade na promoção do cinema em Portugal?

“Há quem saiba, a malta dos Balas e Bolinhos soube o que tinha de fazer, mas tem razão nessa pergunta, porque eu vejo os trailers portugueses e é raríssimos eu ver um trailer português que me seja minimamente atrativo para que eu queira ir ver o filme, começa logo por aí, no meu ponto de vista. Isso é muito mau, porque obviamente aquele trailer se passar na televisão as pessoas nem vão pensar em ir ver aquele filme ao cinema.

Em Portugal as pessoas deixaram de ir ao cinema, as salas estão vazias, conseguimos estar numa sala de cinema completamente sozinhos, mesmo a ver um filme candidato as 13 óscares. Essa é a imagem do cinema em Portugal, quer no circuito comercial quer nos festivais.”

Atualmente, o cinema é muito maltratado em Portugal

“Há um trabalho a ser feito pelo Fantasporto e as universidades que têm cursos de cinema, havendo aqui um prémio de cinema português a que 9 escolas estão a concorrer. Essas escolas escolhem 5 filmes com o máximo de 45 minutos e apresentam para concorrerem entre si. Neste ponto somos muito duros, nós recebemos mais de 100 filmes para o prémio de curta-metragem, e eram muito maus!”

Todos eles?

“Não, salvam-se 7 que são francamente bons!

Neste momento só exibimos é o que é francamente bom, até para obrigar as pessoas a melhorar, eles têm de perceber que ainda podem melhorar, têm de trabalhar melhor o argumento e que a parte da luz tem de ser muito bem trabalhada, as pessoas pensam que indo para uma escola de cinema serão realizadores, mas não é essa a lógica, podem ser argumentistas, podem ser técnicos de luz, podem ser fotógrafos, etc.

Infelizmente as saídas aqui em Portugal não são boas, por exemplo quem faz fotografia normalmente vai para as televisões para estarem a fazer planos fixos.”

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De quem é a culpa de as pessoas não irem ao cinema?

“A culpa é dos 450 filmes que passam, por semana, nos canais gratuitos.

Para não falar nos vídeo clubes e nos canais a pagar das TV por cabo e ainda mais dos sites onde é possível ver quase todos os filmes sem se ter de pagar.”

Há como alterar esse panorama?

“Não, não há nada a fazer, dantes ainda havia uma dinâmica grande com os DVD, agora já nem o DVD existe.

A programação das televisões é muito desequilibrada, não há muita qualidade na programação, e há televisões que especificamente só exibem filmes de multinacionais, por exemplo o fantasporto comprou meia dúzia de filmes e estamos a trabalhar com a ZON, eles estão a exibir nas TVCines 6 filmes que estamos a exibir aqui no Fantasporto.

Antigamente a RTP ainda passava alguns filmes, um às 22h outro mais tarde por ser mais ‘especial’, a RTP antigamente tinha muito mais cinema, agora só tem ao sábado, a SIC igualmente mas apresenta filmes mais recente e de multinacionais, a TVI tem programação que não entra na área do cinema só muito de vez em quando.

Essa é uma área, a área séria, que matou um bom bocado a ida ao cinema, por outro lado há a área pirata, o download de filmes na Internet, acabou mesmo por matar a ida ao cinema, filmes que até têm uma qualidade de imagem excelente.”

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Acha que a tecnologia é prejudicial ao cinema?

“Digamos que, quanto maior é a sofisticação da área técnica mais fácil é o acesso ao produto audiovisual pela pirataria, este é aquele produto que mais… (pausa)… vou colocar de outra forma, as pessoas neste momento, se considerarmos cinema como cultura, o que é mais apetecível é o cinema, porque o cinema está em todo o lado, o cinema entra-nos por todo o lado e por todos os meios. A partir daí as salas tremem muito. Seja que filme for, a pirataria é feita com a maior das facilidades, e para muita gente isso (pirataria) chega.

Enquanto antes vir ao festival era emocionante, agora, com este tipo de problemas tudo mudou.”

Então, por que é que se continua a fazer cinema em Portugal?

“Porque dá gozo, porque as pessoas que gostam de cinema, gostam de fazer determinadas coisas, e nós vemos os filme a nascer, isso é que importante. A pesquisa que é feita, é feita através de revistas importantes, vemos que o produtor já é bom, depois aparece também um bom realizador para esse mesmo filme, e naturalmente os bons atores também aparecem, e vemos logo que o filme será para ser seguido de perto. Nós enquanto comité de seleção, inicialmente temos de procurar os filmes assim, depois temos é de acompanhar o seu progresso digamos assim, o seu crescimento.”

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Disse na conferência de imprensa que este tinha sido o festival com o menor orçamento. Que impacto teve então esta redução?

“O Fantasporto pode ser feito a custo zero, o orçamento tem é de ser adaptado! O nosso orçamento é de 550 mil euros, e não de 100 mil como dei a entender na conferência de imprensa. Do valor total, 450 mil euros vêm de parcerias o que nos deixa apenas com 100 mil para as restantes coisas, logo temos de fazer cortes em áreas que poderiam, por ventura, afetar a imagem da cidade mas nunca o Fantasporto, cortamos no pagamento das viagens por exemplo. O nosso objetivo é que a imagem do Fantasporto passe bem e passe para o exterior principalmente.”

Acha que os meios de comunicação dão a devida cobertura a este tipo de festivais?

“Não reconheço o jornalismo que se faz hoje, muito menos na área da cultura já para não falar na área do cinema que desapareceu por completo, atualmente essa promoção tem de ser feita por um conjunto de estruturas, entidades e associações que conseguem manter ainda a cinefilia dentro deles e que sentem que o cinema não é apenas o que passa no circuito comercial. O cinema comercial está completamente minado pelo cinema Americano há já muitos anos, com algumas exceções, como são exemplo as adaptações das comédias portuguesas dos anos 40 ou então as series do Balas e Bolinhos, que terão mais facilidade em entrar no nosso circuito, ou um ou outro filme francês.

Não basta enviar um(a) jornalista a Los Angels para fazer uma entrevista para resolver o problema da promoção do cinema em Portugal.

É importante que as televisões abram a porta ao cinema português, alguns canais privados pontualmente conseguem inserir umas curtas-metragens portuguesas, mas é muito pouco.

Os jornais dão pouco interesse ao Fantasporto em contraste com a importância que dão, por exemplo, à Irina Shayk com grandes páginas dedicadas, a lógica destes jornais não é trabalhar a cultura mas sim o social.”

01mar18

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