“Isto é o caos total! Nunca tal se tinha visto!” Este foi o desabafo de um passageiro do Metro do Porto igual, por certo, ao de muitos outros que se fizeram ouvir durante o passado mês de abril, tudo por causa da greve dos trabalhadores da Empresa de Manutenção de Equipamentos Ferroviários (EMEF). E o “nunca tal se tinha visto” não se refere somente à confusão nos cais de embarque e desembarque (“o fim do mundo!”, ouviu-se), mas para o estado deplorável em que se encontra(va)m as composições e para os atrasos verificados (em alguns casos mais de 45 minutos) em todas as linhas. Motivo da greve: aumentos salariais, subsídio de turno e a contratação de mais pessoal.
Entretanto, sindicalistas, a EMEF, a CP e representantes das tutelas das Finanças, Planeamento e Ambiente”, chegaram – segundo noticiou na passada sexta-feira (27abr18) o “Jornal de Notícias”-, a acordo, pelo que a greve ficará suspensa, o que não invalida, aqui relatarmos o pandemónio vivido nas últimas semanas no Metro do Porto.
Para perceber o que se passou, ou o que se poderá voltar a passar daqui a uns tempos (?), diga-se que vai ser difícil a quem vos escreve trocar isso por miúdos. Se calhar, também por isso, o sindicato que representa os maquinistas do Metro do Porto se mantivesse, este tempo todo, num (por muitos considerado) “estranho” silêncio, não defendendo a classe, considerada como uma das principais vítimas de toda esta situação.
(texto)
Com as composições a “desfazerem-se” de dia para dia – ouvia-se, pela chiadeira: via-se, pela sujidade, e sentia-se, no interior, pelo desregulado funcionamento, por exemplo, do ar condicionado, a administração do Metro cingiu-se, nos últimos tempos, a informar os passageiros dos atrasos devido à greve, e a alertar os utentes para a eventual supressão de serviços em linhas como as de Gondomar, Matosinhos e Aeroporto.
Com o “coração nas mãos”, os utentes (principalmente os detentores de “passe social”) foram encarando com a calma possível, e aos empurrões, a situação. Situação essa observada, de perto, e com agrado, por carteiristas de serviço, e por gente, que sabendo que, com a confusão dificilmente encontrariam fiscais, aproveitaram a onda para viajarem de borla.
Também com a greve dos trabalhadores da EMEF, e devido aos atrasos verificados, muitos foram as cafetarias, confeitarias ou bares, que lucraram com a situação. “Olhe, por um lado, ainda bem que há estas esperas: o pessoal bebe sempre mais um café e come mais um bolo, e isto tem estado sempre cheio”, confidenciou-nos uma empregada de uma confeitaria mesmo junto a uma estação do Metro.
Reivindicações
O pouco que se sabe quanto às reivindicações levantadas pelos trabalhadores da EMEF – além dos aumentos salariais – é que estão contra a possível discriminação destes em relação aos seus colegas a laborar na CP, isto com a intenção de os dividir, para ser criada uma nova empresa. É que se isso vier, na realidade, a acontecer, os trabalhadores da EMEF do Metro do Porto ficarão sem os direitos e garantias existentes.
Acresce ainda o facto, que se essa divisão vier a acontecer, quando terminar o prazo de contrato da EMEF com a Metro do Porto (MP), os trabalhadores ligados à MP poderão vir a não ter lugar nas oficinas da CP. De salientar que esse contrato termina daqui a sete anos.
Pelos vistos, tudo foi “resolvido” (?) na passada sexta-feira (27abr18).
O que se passou na realidade…
Para ter uma ideia do que aconteceu nas últimas semanas de abril, tenha em consideração os seguintes factos: A Metro do Porto tem 102 veículos (comboios), 72 dos quais EuroTrans-ET (os de cadeira de “plástico”) e 30 TT (os de cadeiras “almofadadas” que normalmente têm como destinos a Póvoa de Varzim e o ISMAI). Os ET estão a chegar a um milhão de quilómetros percorridos, facto que os obriga a fazer uma revisão geral frequente, não podendo circular sem que a mesma seja feita. Assim, e com a greve, muitos ET ficaram encostados e outros a avariar constantemente. Já com os TT esta situação não aconteceu, registando-se, somente alguns problemas ocasionais.
Ao que apurou o nosso jornal, devido ao estado em que se encontram as composições – as que estão nas “boxes” e as que com muito custo circulam –, as exigíveis reparações vão demorar “meses”, pelo que, nos próximos tempos, a circulação de comboios nas linhas do Metro do Porto estará sempre condicionada.
Segurança
No que concerne à segurança da circulação, sabe-se que a mesma nunca foi posta em causa, e que se está dar mais valor a este aspeto do que propriamente ao conforto dos veículos. Quando as questões de segurança são postas e causa, os comboios saem, automaticamente, de serviço, o que quer dizer, que os acidentes, recentemente verificados, e que abaixo relatamos, nada têm a ver com a segurança ou capacidade de resposta dos veículos em situações problemáticas.
Acidentes
A verdade, porém, é que em abril, e num curto espaço de seis dias, registaram-se dois acidentes envolvendo veículos do Metro do Porto, e, por coincidência, ambos na Linha Laranja (Fânzeres). O primeiro verificou-se no dia 13, numa passagem de nível junto à estação da Levada (Rio Tinto), com uma viatura ligeira. A mais recente, dia 19, com uma jovem que foi atropelada (fotos acima publicadas) por um comboio, na Venda Nova, acabando por sofrer ferimentos ligeiros.
Devido a estes dois acidentes, houve quem relacionasse estes factos com a greve dos trabalhadores da EMEF e a consequente falta de apoio às composições. A realidade, contudo – e isto foi confirmado por um responsável-, é que os comboios ligeiros que operam na Metro do Porto “têm dos sistemas de segurança mais eficazes em termos mundiais, tanto é, que a Metro do Porto é das empresas que regista o mais baixo índice de sinistralidade. Dezenas de acidentes são, diariamente, evitados, com o recurso a sinais sonoros e a seguras travagens de emergência”, portanto, “não há relação de um caso com o outro”.
“Paz podre”?
Refira-se, reiterando, que com o acordo celebrado entre as partes em conflito no contexto da greve dos trabalhadores da EMEF, pouco se alterará, em termos de condicionalismos e atrasos nas linhas de Metro do Porto. Não se sabendo também por quanto tempo durará este consenso, que não foi tão consensual como à priori se pode pensar.
Fotos: António Amen (foto de destaque); pesquisa Google e Arquivo EeTj
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