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Judith Teixeira na vanguarda modernista (1910-1925)

Carmen Navarro

Alguém se recorda deste nome: Judith Teixeira? Não será fácil, sobretudo aqueles que, embora interessados pela nossa poesia, se satisfazem apenas consultando Antologias e os poetas da moda.

Judith Teixeira foi a primeira figura feminina do chamado “Primeiro Modernismo” 1910-1925. Representa um caso singular na história literária em Portugal e tinha uma visão diferente dos preconceitos da época, foi uma mulher que se quis impor num mundo literário fortemente dominado por homens. O Decadentismo marcava ainda fortemente quando os vanguardistas de uma forma tímida surgem em Portugal.

Começou a escrever na adolescência “versos ingénuos, que guardava”, (segundo palavras suas) e apareceu no “Jornal da Tarde” com composições em prosa que assinava com pseudónimo de Lena Valois.

Apareceu como a erupção de um vulcão em meio da enfadonha forma do discurso feminino em voga, causando inevitável impacto no meio literário.

Do seu nome verdadeiro, só haveria notícia a partir1923, quando escreveu os primeiros livros de Poesia e um livro de Contos entre outros escritos a maior parte de poemas.

Judite dos Reis Ramos Teixeira ou Judith Teixeira nasceu em Viseu, a 25 de Janeiro de 1880.

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Mais Beijos

Devagar…

outro beijo… outro ainda…

O teu olhar, misterioso e lento,

veio desgrenhar

a cálida tempestade

que me desvaira o pensamento!

 

Mais beijos!…

Deixa que eu, endoidecida,

incendeie a tua boca

e domine a tua vida!

 

Sim, amor…

deixa que se alongue mais

este momento breve!…

que o meu desejo subindo

solte a rubra asa

e nos leve!

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Obras 

Decadência. Poemas (1923)

Castelo de Sombras. Poemas (1923)

Nua. Poemas de Bizâncio (1926)

De Mim. Conferência (1926)

Satânica. Novelas (1927)

 

Saudade 

Segue-me noite e dia o teu desejo!…

Oiço a tua voz rúbida e cantante

Suplicar-me a carícia do meu beijo,

numa teima exigente e perturbante!

 

E o meu corpo vencido, dominado,

vai tombar doloroso, inconsciente,

sobre a lembrança morna do passado

– e fica-se a sonhar… perdidamente!

 

O moralismo da época obrigava os escritores a caminharam por trilhos muito estreitos incapazes de calcar fora, numa aviltante submissão como guardiões dos costumes impostos pela censura.

De fato, Judith Teixeira nunca ocultou o seu fascínio pelas inovações (“estou em arte, na vanguarda”), seu espírito de liberdade e de independência colocava-a acima dos preconceitos e hipocrisias sociais, especialmente a dos seus aguerridos censores

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A Minha Amante

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!…
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer…
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome…

Dizem
– e eu não protesto –
Que seja qual for o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer…
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar,
Levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores
contigo
-Não entendem deste luar de beijos…
– Há quem lhe chame a tara perversa,
Dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal –
O meu castigo…
E eu em sombras alheio-me dispersa…

E ninguém sabe que é de ti que eu
vivo…
Que és tu que doiras ainda,
O meu castelo em ruína…
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos –
Não faltes aos meus apelos dolorosos
– Adormenta esta dor que me domina!

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“Decadência” Coletânea poética, de 1923, foi o seu primeiro livro era um volume fascinantemente luxuoso, num formato de livro de arte, em excelente papel e com apurado arranjo tipográfico, tendo a enriquecê-lo a gravura da capa, a cores, da autoria do pintor «modernista» Carlos Porfírio, que foi o diretor de Portugal Futurista.

Marcello Caetano, (que se tornaria presidente do conselho de ministros em 1968), escreveu na revista “Ordem Nova” de que era fundador e redator que o livro “Decadência” era da autoria “duma desavergonhada chamada Judith Teixeira” e onde se vangloriava pela cremação dos livros dela, de Raúl Leal e de António Botto, a que chamava de “papelada imunda, que empestava a cidade”.Com ele estava também Pedro Teotónio Pereira então presidente da Associação dos Estudantes de Faculdade de Ciências) e mais uns quantos estudantes católicos sedentos de mão pesada. Judith Teixeira, depois de enxovalhada publicamente, ridicularizada, apelidada de lésbica e caricaturada em revistas, defendeu – se e contra atacou na conferência “De Mim”, cujo texto se apressou a editar. De Judith Teixeira, não mais se falou na altura.

Adeus

Sim, vou partir.

E não levo saudade

de ninguém…

Nem em ti penso agora!…

Julgavas que a tristeza desta hora

fosse maior que a firme vontade

que eu pus em destruir

o luminoso fio de ternura

que me prendia ao teu olhar?…

Julgaste mal:

Eu sei amar,

mas meu amor,

o que eu não sei

é ser banal!

 

Mas por que vim eu escrever-te ainda?

Nem eu sei!

Talvez somente

o hábito cortês da despedida

– e o hábito faz lei!

 

Choro?!… Oh! sim, perdidamente!

Mas sabes tu, porque este pranto

assim amargo, e soluçado vem?

É que na hora da partida

eu nunca pude sem chorar,

dizer adeus a ninguém!

 

Esquecida durante décadas, somente após a revolução dos cravos, em 1974, chega ao fim a proibição de autores condenados ao ostracismo e, consequentemente, retornam todos do esquecimento a que estiveram relegados pela intolerância ditatorial salazarista. Judith Teixeira, foi ressuscitada por António Manuel Couto Viana 1977, ao dedicar lhe uma memória no volume “Coração Arquivista”.

“Decadência”, Votada ao silêncio e à ignorância das Editoras. mas também pelo injusto esquecimento da contribuição literária, de Judith Teixeira, especialmente no discurso modernista das letras portuguesas, não merecia o esquecimento.

Uma exceção para a Editora “&etc”, que, em 1996 resolveu editar os poemas de Judith Teixeira, (com pesquisa, organização e bibliografia elaborada por Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar), com o objectivo de reparar a injustiça de tal silêncio a que esta poetisa vanguardista dos anos 20 foi votada todos estes anos.”
Judith Teixeira, poetisa foi contemporânea de Florbela Espanca.

É de lamentar que se diga que as mulheres não tiveram qualquer lugar de protagonismo na rutura e transgressão que foi o modernismo português. Sabemos que o tiveram, mas foram silenciadas.

Pouco se sabe acerca dos últimos trinta e dois anos da sua vida, em que se diz que foi para o estrangeiro. Que chegou a ter um negócio de antiguidades… Morreu a 17 de Maio de 1959, aos 79 anos, silenciada e abandonada, residindo então em Lisboa, no número 3 da Praceta Padre Francisco em Campo de Ourique. Segundo o assento de óbito, morreu viúva, sem deixar filhos nem bens e sem fazer testamento.

Chegou a altura de reler Judith Teixeira sem preconceitos.

Fotos: pesquisa Google

01mai18

 

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