Um crocodilo de peluche. Um simples crocodilo verde amarrotado que escapou à reciclagem porque ficou arrumado (e esquecido) numa qualquer gaveta. Este pedaço de pano – que caiu em esquecimento depois de, no passado, ter ajudado a minha filha a adormecer – foi estrela de cartaz e fez as delícias de um grupo de miúdos especiais: os príncipes da casa do “Kastelo”, em São Mamede Infesta.
O “Kastelo” é uma Unidade de Cuidados Continuados e Paliativos para crianças dos zero aos dezoito anos. É um projeto pioneiro em Portugal, que engloba todas as crianças com patologia clínica. Os mesmos que, tendo necessidades, não são abrangidos pelos projetos do Serviço Nacional de Saúde, sendo ignorados e esquecidos ficando internados por longos períodos nos Serviços de Pediatria. O que compromete o vínculo familiar e próprio desenvolvimento infantil provocando, por vezes, a desestruturação familiar devido à conjuntura social. Para a concretização deste projeto foi fundamental o apoio da União Europeia, através do financiamento do ON.2 (Programa Operacional Região Norte 2007/2013). Neste momento, as crianças com necessidades especiais têm qualidade de vida e podem sonhar como qualquer outra criança saudável. Num lugar cheio de cor e felicidade onde permanece a esperança.
Foi com este espírito que estive presente, no passado dia 05 de Maio, nas instalações do “Kastelo” para partilhar as minhas crónicas com os meninos e meninas deste local. Foi um pequeno acto de cidadania. Um gesto altruísta para mostrar à sociedade que todos nós podemos fazer a diferença e levar a alegria e felicidade a estas crianças! Eu, que utilizo regularmente as palavras na minha escrita, não tenho adjetivos para demonstrar a alegria e emoção com que fui recebido! À sua maneira, cada um deles, absorveu as histórias que contei. Porque, mesmo com necessidades especiais, sabem o que é cultura e, acima de tudo, têm noção de como é importante ter alguém que os visita para partilhar histórias, cantar ou uma outra forma de arte. Os minutos passados, na tenda exterior no jardim, foram mágicos! Encontrei um mundo que julgava perdido! Sem hipocrisia, mentira ou falsas aparências. As gargalhadas, os sorrisos e olhares atentos não se compram ou se forjam. São autênticos!
Uma palavra especial para a Dr.ª Teresa e Isabel Fraga pelo carinho e profissionalismo empregues a esta causa e, claro, aos seus príncipes e princesas! Eu, como forasteiro, senti-me rapidamente integrado e, sem qualquer preconceito defronte daqueles heróis. Porque, caros leitores, o preconceito é um conceito nosso. É uma ideia ridícula que há muito tempo deveria estar abolida das nossas mentes. Alargo os meus agradecimentos aos restantes colaboradores do “Kastelo”. Estão de parabéns!
Num texto (um dos mais pessoais que escrevi) quero passar a mensagem que cada um de nós pode – e deve – desenvolver esforços para descobrir esta instituição. Certamente donativos são importantes, mas a envolvência da comunidade é fundamental! Os meninos e meninas não estão ali colocados para morrer! Por favor, não repitam esta barbaridade! Deixo-vos o desafio: contactar o “Kastelo” e agendar uma atividade. Seja ela qual for, seguramente serão bem recebidos e a alegria emanada é deveras contagiante! No final do dia, senti que foram eles que me ensinaram tanta coisa! E eu, que apenas levei um pobre crocodilo de peluche, para servir de figurante numa crónica, descobri que no meio de tanta modernice, tecnologias, bugigangas e outras coisas que tal, esquecemos que a amizade, o contacto humano e o carinho são coisas essenciais à vida! Pequenas “grandes” coisas que importam! Obrigado, príncipes e princesas!
Texto: Miguel Correia
01jun18