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Aromas da “bolota” na terra fresca

Lurdes Pereira (*)

Foi no passado 26 de Maio que Associação De Valorização E Desenvolvimento Rural Do Vale Do Cabrum  fez a diferença em Terras de Montemuro – Uma caminhada solidária com as receitas a reverter a favor do projecto de reflorestação do Vale do Cabrum. O percurso circular de 8 km, estudado pela Associação, teve recepção em Covelinhas, lugar onde terminou a caminhada, depois de todos os inscritos se deliciarem com as maravilhas das paisagens serranas deste concelho.

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Decorria o Verão de 2017 quando já se previa a devastação da grande mancha verde. O pulmão de Resende tornou-se inóspito, e por isso, este movimento jovem pôs mãos à obra. Enquanto tratavam burocracias já se manifestavam nos trabalhos de campo.

A Associação manifesta o descontentamento e preocupação à desertificação e aos incêndios que nos últimos anos têm fustigado violentamente as florestas que coroam estes vales no mapa do concelho. Ainda no mesmo ano conseguiram mover a sensibilidade de alguns populares na recolha da bolota negreira com finalidade da criação de um viveiro. Mas porquê a bolota? Entre muitas outras espécies, o Carvalho Pardo das Beiras, Carvalho-Pardo-do-Minho e Carvalho-Negral são vegetações autóctones de maior densidade nestas encostas.

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Em Novembro do mesmo ano, cavamos terreno, enchemos vasos, semeamos bolotas…cerca de 7000 bolotas. As expectativas superaram este dia cheio de aventura, cujo fruto nos pode levar a sonhar: “imagina verde!”. Em menor quantidade foram também semeadas nogueiras e castanheiros, entre algumas espécies arbusteiras que já teimam em rasgar a terra.

Os rigores do Inverno passaram, e depois de uma prospeção de terreno e com caminhos públicos antigos limpos, chegou a hora de uma caminhada solidária para crianças e crescidos, porque “a natureza agradece o teu apoio”.

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Estavam todos lá. Covelinhas fez-se sala de acolhimento tendo como anfitriã, a bolota, representada por estes jovens para receber os amigos desta causa há muito agendada e pensada ao pormenor. Por trás da bancada, a T-shirt e o boné ocupavam lugar de destaque tendo como pano de fundo a Igreja de Covelinhas, “arcanjo” das sementeiras da “bolota”.

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E como fora prometido pela organização, estavam lá a oferecer, a todos os caminheiros, bonés, t-shirts, mochila e uma garrafa de água. O palco vestiu as cores da Primavera e a associação assumiu uma identidade do “Verde” sempre com a estampa da bolota a acompanhar. Pensaram em todos os pormenores, só era necessário levar a boa disposição, saúde e sorrisos de amizade.

De um ponto mais elevado, Tiago Colaço dá as boas vindas juntamente com a inauguração do percurso. A subir, logo um belo espigueiro de nobre beleza paisagística de outros tempos a triunfar lá no alto.

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O percurso é denso de história das gentes que aqui passaram. As paisagens são estonteantes e os pormenores sublimes. Aqui um lavadouro com uma pedra rampeada onde muitas mulheres lavaram a roupa suada do campo, ali uma e outra casinha sem nada, abandonada reservando no silêncio da diáspora a sua história. Estes pequenos monumentos vestem vestidos encaudados em eiras soalheiras onde outrora, provavelmente se ouviam cantigas populares. Parece que aldeias inteiras sofreram abandono. As pedras e as telhas, adornadas com o musgo do Inverno, soltam olhares tristes encobertos pelo orvalho da manhã. E nas pontes, a água parece que fala o estalar com as pedras. No entanto, há quem persista viver agarrados ao sonho e às memórias do passado, onde só um pouco da civilização conseguiu chegar.

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Os caminhos estreitinhos registam nas pedras a memória da vida dura, tão dura para os homens como para os animais que puxavam os carros por aqueles quelhos tão íngremes e escavacados. Caminhos onde também as mulheres desfilaram com as suas longas saias, e de rodilha na cabeça equilibravam os molhos de lenha miúda recolhida nos montes. Na passagem, sente-se o aroma da erva fresca acabada de calcar e os tapetes floridos exalam perfumes tipicamente agrestes e doces da Primavera tardia.

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O projeto em fase de iniciação, contudo, a Associação pretende “Defender e valorizar o ambiente e o património natural (…) com ações de sensibilização e reflorestação” e, entre outros objetivos, “Reavivar, revitalizar e manter tradições e práticas culturais instituindo-se assim traços de identidade cultural”. Porque, seja pela obra da natureza ou pela obra do homem, o Vale do Cabrum é um museu vivo que todos podem contemplar.

Faço uma vénia a esta Associação que luta pela causa maior – respirar e deliciar os “olhares da serra” no vale do Cabrum, o vale encantado e implantado na Serra de Montemuro.

(*) Texto e fotos

01jul18

 

2 Comments

  1. Lurdes Pereira

    Caro(a) amigo(a) obrigada pelo comentário e pelo elogio. Estes jovens estão mesmo empenhados em colaborar com a Natureza. Acredito na vontade de estar presente neste evento que nem as imagens conseguem descrever o encanto. Talvez um dia tenha a oportunidade de conhecer e participar.
    Saudações~Lurdes Pereira

  2. Anónimo

    Assim houvessem mais projectos desses pelo país fora. Parabéns! Só tenho mesmo pena de não estar mais perto: as fotos belíssimas e o texto deram-me a vontade de conhecer “in loco”.

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