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Guerra Junqueiro

Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu no lugar de Ligares, em Freixo de Espada à Cinta, a 17 de Setembro de 1850 mas, foi no Porto que viveu uma boa parte da sua vida. Era filho de José António Junqueiro, abastado negociante e lavrador e de sua mulher, Ana Maria do Sacramento Guerra que faleceu quando o pequeno Abílio tinha apenas três anos. Este triste acontecimento marcou muito a sua infância e toda a sua vida, tendo ficado registado, nomeadamente no poema inicial da obra “A velhice do Padre Eterno”:

«Minha mãe, minha mãe, ai que saudade imensa / Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.», […] «A minha mãe faltou-me era eu pequenino, / Mas da sua piedade o fulgor diamantino / Ficou sempre abençoando a minha vida inteira / Como junto dum leão um sorriso divino, / Como sobre uma forca um ramo de oliveira!” (Excerto do Poema «Os Simples»).

A Velhice do Padre Eterno

Guerra Junqueiro começou por estudar em Bragança, depois matriculou-se no Porto, em 1860, no desaparecido Colégio Instituto Portuense, continuando depois em Coimbra, onde frequentou o Curso de Teologia, na Universidade de Coimbra. Contudo, talvez por falta de vocação religiosa, trocou este curso pelo de Direito que concluiu, em 1873. Foi, durante a sua permanência em Coimbra, que iniciou a sua carreira literária, publicando na revista literária “A Folha”. Nessa cidade, teve ainda oportunidade de conviver com alguns dos escritores e poetas do seu tempo, sobretudo com o grupo que viria a ser conhecido como a “Geração de 70”, integrando depois o célebre grupo de os “Vencidos da Vida”, criado em 1888, que juntava algumas das principais personalidades da vida literária e intelectual, como Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e António Cândido.

Guerra_Junqueiro

A 10 de Janeiro de 1880, Guerra Junqueiro casou-se com D. Filomena da Silva Neves, em Viana do Castelo e, desta união, nasceram duas filhas, respectivamente Maria Isabel e Júlia Francisca, filhas muito amadas por seu pai que, a elas, dedicou algumas composições poéticas. A primeira filha foi aquela que, incansavelmente preservou e enalteceu a memória de seu pai, que criou e organizou a Casa-Museu Guerra Junqueiro dado que, a segunda filha, muito cedo sofreu de uma doença psíquica que a incapacitou.

Para além de escritor e poeta insigne, Guerra Junqueiro foi ainda jornalista. Ocupou vários cargos públicos, enquanto político e diplomata: foi secretário-geral do Governador Civil dos distritos de Angra do Heroísmo e de Viana do Castelo e, em 1878 foi eleito para a Câmara dos Deputados tendo sido, também, embaixador de Portugal na Suíça, denominado como “Ministro Plenipotenciário de Portugal na Suíça”, entre 1911 e 1914.

Grupo "Os Vencidos da Vida"
Grupo “Os Vencidos da Vida”

É por muitos apontado como o poeta mais popular da sua época, salientando-se como poeta panfletário, não só em 1890, com o “Ultimatum Inglês”, desenvolvendo uma intensa actividade de propaganda dos ideais republicanos, através de panfletos e discursos demolidores, sobre o estado do País, acção continuada que criou um ambiente revolucionário favorável à queda do regime monárquico, em 1910 e  à implantação da República. Destacou-se, ainda, como pensador, coleccionador de arte, homem de ciência, lavrador e viticultor. Na sua obra sobressaem o anticlericalismo e um ataque cerrado à burguesia corrupta. Foi um intelectual polémico e multifacetado – ele próprio parece caracterizar-se, quando afirma:

«A minha glória. Chamam-me génio – e cochicham; falam de mim – e não me compreendem. Os políticos consideram-me um poeta; os poetas, um político; os católicos julgam-me um ímpio; os ateus, um crente.»

Casa-Museu Guerra Junqueiro
Casa-Museu Guerra Junqueiro

No Porto, Guerra Junqueiro viveu em quatro casas, das quais salientamos a da Rua da Boavista e a da Rua Santa Catarina, nº 1018, casas alugadas e, segundo parece, habitações de tamanho reduzido, pelo que em nenhuma delas teria sido possível instalar um museu com as inúmeras peças que colecionou, durante toda a vida. Embora o poeta de “Os Simples” nunca tenha vivido na Casa-Museu, situada na Rua de D. Hugo, junto da Sé do Porto, este edifício foi escolhido, tendo sido comprado a familiares do marido de Maria Isabel Guerra Junqueiro que, nesse local, criou um ambiente intimista, como se aí tivesse vivido seu pai e aí expôs um espólio de mais de 600 peças da colecção de seu progenitor.

Os Simples

Na cidade do Porto, Junqueiro publicou algumas das suas obras e foi, também nesta localidade, que protagonizou alguns episódios memoráveis, sobretudo alguns ligados à sua vida literária, tal como o primeiro grande êxito como poeta, vivido no antigo/anterior Teatro de S. João, quando recitou duas das suas poesias sendo, nessa ocasião, fortemente ovacionado.

Um outro curioso episódio, ocorrido em 1871, aconteceu quando no desaparecido Mosteiro de S. Bento da Ave Maria (situado onde actualmente está a Estação de S. Bento), se festejava o novo abadessado que, por sinal, foi o último desse Mosteiro, antes da sua demolição. Nessa festa, onde se celebrava a eleição de uma nova abadessa, as monjas deixavam cair, do alto das grades das suas celas, um papelinho com um mote, para que os poetas o glosassem. Guerra Junqueiro tinha 20 anos, era o mais jovem dos poetas presentes, mas foi de todos o que mais agradável impressão deixou.

Lembrando o ano de 1888, aquando do incêndio que destruiu o Teatro Baquet, no Porto, no qual morreram mais de cem pessoas que assistiam a um espectáculo, Junqueiro escreveu o célebre poema “A lágrima”, impressa pelo tipógrafo Costa Carregal para que o produto da venda tivesse como destino, o socorro aos familiares das vítimas do incêndio.

A sua ligação ao Porto prende-se também com outros episódios, tal como o relacionado com a vinda à cidade de Bernardino Machado para proferir uma conferência, em 1904, estando Guerra Junqueiro na assistência. Sobre o acontecimento, os jornais da época salientaram que “[…] o poeta não foi menos ovacionado do que o ilustre conferencista […]”.

Em 1923, já doente, Guerra Junqueiro deslocou-se a Lisboa. O seu estado de saúde agravou-se durante a viagem, piorando muito já na capital. Tendo consciência de que o seu fim estava próximo, o poeta pedia, insistentemente:

– “Levem-me para o Porto. Quero morrer no Porto.”

No entanto, o seu último pedido já não foi possível ser atendido, pois faleceu nesse mesmo dia, 7 de Julho de 1923, em Lisboa.

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01jul18

 

 

 

 

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