Os constrangimentos vividos pelas várias atividades náuticas em canais da Ria de Aveiro, como é o caso do canal de Ovar até ao Carregal, em que o Porto de Recreio há vários anos está limitado na sua atividade, pela precária navegabilidade de chegada e partida de embarcações (de recreio e turísticas), sempre dependentes dos horários das marés, tal como acontece com os desportos náuticos ali praticados.
Também difícil é atividade económica das comunidades piscatórias destas zonas ribeirinhas, que assim veem reduzida a capacidade de pesca das potenciais espécies que ali eram tradicionais, a exemplo da cada vez mais rara enguia. Cenário paisagístico também deprimente sempre que a maré da vazante transforma a laguna num pântano de lama, que aguarda agora pelas mais recentes promessas do Ministério do Ambiente, de que, o desassoreamento arrancará finalmente após o verão com o concurso público para a empreitada, no valor 17,65 milhões de euros.
José Lopes(*)
(texto e fotos)
Esta empreitada para o desassoreamento da Ria de Aveiro financiada em 75% pelo Programa Operacional da Sustentabilidade e Eficiência no Uso dos Recursos (POSEUR), insere-se nas ações inscritas até 2020 no Plano de Ação do Litoral XXI, que contemplam intervenções ao longo de 65 quilómetros de costa e que rondarão os 68 milhões de euros, ainda que já tenha havido intervenção em cerca de 20 quilómetros deste total previsto. Obras estas que ao mesmo tempo, também fazem parte de um outro plano de obras de combate à erosão costeira mais a longo prazo, que vão até 2030, com cerca de mil intervenções previstas no litoral português, atingindo um valor global de cerca de 900 milhões de euros. Perspetivas que não deixarão de estar sempre influenciadas pela evolução da erosão costeira em zonas mais fragilizadas com consequentes riscos em zonas urbanas, como são os exemplos identificados no litoral de Ovar (Furadouro, Cortegaça e Esmoriz).
Assim e com o anúncio do concurso público por parte do Ministério do Ambiente, para que as obras de desassoreamento dos vários canais da Ria de Aveiro, arranquem em outubro ou novembro, com um prazo previsto para conclusão dos trabalhos de 15 meses, para que estejam “concluídos até à primavera de 2020”, adiantou o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, numa visita à região durante o mês de maio.
O desespero e a espectativa das diferentes atividades económicas e desportivas ligadas à ria, só pode dar lugar a alguma esperança, ainda que com naturais reservas, dada a gigantesca área lagunar de intervenção, numa operação delicada ambientalmente, em que, no caso do canal de Ovar, ainda estão bem presentes as polémicas sobre as dragagens que acabaram por deixar tudo na mesma, com os dragados depositados nas margens a voltarem, a, assorear a ria, e a alterar o nível e a velocidade das correntes de entrada e saída das águas, em função das marés. Uma intervenção de desassoreamento que não atingiu os objetivos do projeto na altura, há cerca de duas décadas, acabando no estado atual, em que, a sua beleza natural mais característica, só se reflete verdadeiramente no espelho de água, durante as horas da maré cheia, caso contrário, fica dominada por um cenário com uma outra natural beleza em que se podem observar várias espécies de aves a alimentarem-se, curiosamente para angústia dos pescadores obrigados a ficarem em terra.
Ao contrário da última grande obra de desassoreamento na Ria de Aveiro, que não só, não deu adequado destino aos dragados, como não contemplou no canal de Ovar, os vários Cais, a exemplo do da Ribeira, Puxadouro ou Carregal, nos quais as obras de requalificação e consolidação das margens assumidas pela Polis da Ria de Aveiro, não tornaram navegáveis independentemente das marés. O atual projeto, que no geral prevê dragar um milhão de metros cúbicos de sedimentos dos vários canais da ria, aponta como destino, não só o seu reaproveitamento para altear as margens da ria, protegendo os terrenos agrícolas, mas também está prevista a utilização de tais areias dos dragados, para serem colocadas no mar que os lavará, ajudando a reforçar as praias locais e as linhas de costa com taxas de recuo mais acentuadas.
Ainda que persistam duvidas legitimas sobre o verdadeiro impacto concreto de uma tal obra de desassoreamento, e que prioridade de planeamento na sua intervenção nos canais e cais entre Ovar e Mira. Resta continuar a usufruir deste património ambiental e sua riqueza natural ligada umbilicalmente ao mar, em função das marés, pelo menos até à conclusão desta empreitada há muito reivindicada pelas populações e pelos vários autarcas dos municípios banhados pela ria a quem o atual Governo veio assumir que tal reivindicação se vai concretizar.
(*) Correspondente “Etc e Tal jornal” em Ovar – Aveiro
01jul18








