António Pedro Dores
“Os democratas (…) têm razões para estar perplexos. Mas têm sobretudo o dever de reexaminar as opções recentes de governos (…) e questionar o seu silêncio perante tanto atropelo de ideais políticos durante tanto tempo. Por esta razão, este texto não deixa de ser, em parte, uma auto-crítica” Boaventura Sousa Santos.
Hell´s Angels são uma rede de motards de extrema-direita vulneráveis a tráficos de pessoas, armas e drogas. Mas não gozam de direito a presunção de inocência? Não terão direito a um julgamento justo? O estado de direito conhece exceções quando os crimes de que os arguidos são suspeitos são mais graves?
“Hells Angels. PJ recolheu ADN e fotografou todas as tatuagens dos 59 detidos.” Um condenado, passado algum tempo do cumprimento de pena, tem direito à extinção do seu cadastro criminal. Mas antes de ser julgado, a polícia, sem autorização judicial, pode recolher dados pessoais dos detidos. Tais dados ficam à ordem dos investigadores para resolverem crimes em aberto.
Os Hells Angels são de origem estrangeira e neonazis. A democracia deve tratá-los como trata qualquer pessoa. Deveria era cuidar de, politicamente, criar internamente à democracia alternativas políticas de modo a evitar pôr em crise a própria democracia, como quem vende a filha para salvar a economia.
A democracia nunca foi defendida pelas polícias nem pela repressão. As polícias e a repressão, bem como a manipulação dos princípios legais para fins políticos – contra imigrantes ou nazis, criminosos ou dissidentes – são instrumentos das ditaduras, regimes opostos às democracias.
O combate político aos Hells Angels faz-se no espaço público, utilizando a liberdade de expressão. O combate aos traficantes e às seguranças privadas faz-se através de políticas que não colocam em crise a democracia. Estranho é que o sistema que desenvolveu um sector económico de segurança privada e políticas proibicionistas que corrompem o aparelho de estado, apresente, neste caso, uma PJ antifascista.
O crescente desprestígio da democracia, resulta em larga medida, da prioridade política dada à economia pelos partidos democráticos, mesmo que para tal tenham que secundarizar a violação dos direitos humanos. Violação, essa, maquiavelicamente justificada como uma forma democrática de combater o racismo e o belicismo, satisfazendo-o.
O estúpido consenso aludido por Clinton, “It´s the economy, stupid!”, refere-se à criancice de imaginar que a economia pode crescer indefinidamente. Como, por outro lado, se a economia não crescer não há empregos, escolas, saúde, combate à pobreza, o estado – logicamente – é chamado a proteger alguns (os que merecem) e a alijar os restantes, como acontece de forma brutalmente evidente no Mediterrâneo. Como acontece de forma negada dentro da Europa e nos países a quem a União Europeia paga para servirem de tampão para os movimentos migratórios.
Os fascismos em ascensão não são aquilo que os democratas conseguiram conter – quando aceitaram a violação dos direitos humanos e fazer as angústias populares. Os fascismos em ascensão foram, e continuam a ser, institucionalmente preparados pelas democracias para lhes sucederem. Tal como Hitler foi eleito representante dos alemães, também os fascistas actuais têm visto os seus representantes serem eleitos democraticamente. E os democratas têm dificuldade em saber distinguir entre o que são políticas fascistas e políticas democráticas.
Ano e meio atrás, nesta coluna, chamei a atenção para o significado da aliança da UE com a Turquia, a respeito da repressão aos refugiados, enquanto, ao mesmo tempo, a Comissão e a Alemanha reclamavam platonicamente contra a ditadura, que sem problemas Erdogan instalou no seu país: pura hipocrisia. A mesma de que sofreram os portugueses na oposição a Salazar – esperando, debalde, por ajuda para derrubar a ditadura – e os rurais dos anos sessenta em Portugal – quando começou o êxodo da imigração de sobrevivência, cujo último pico foi organizado pelo governo de Passos Coelho. Os turcos, tal como os portugueses, não são fascistas ou democratas por natureza: são é mão-de-obra barata e submissa apetecível pelos empresários. É a política, são as elites, que usam os estados de uma forma ou outra para alhear mais ou menos as pessoas vulgares das decisões de estado, para melhor as usar, como fez o Lobo Mau com o Capuchinho.
Na Europa, desde logo na Rússia, mas também na União Europeia, as pessoas estão colocadas em tais circunstâncias de desespero existencial, sem perspetivas de futuro, e tão alheadas dos critérios de organização da litigância política, que estão mesmo dispostas a admitir a vingança como principal emoção a mobilizar politicamente “contra os políticos” (votam contra o partido mau ou reclamam contra a vida das pessoas más).
A empatia (mesmo a da srª Merkel) para com os estranhos é alvo de brutais condenações irracionais (reflectidas pelo seu ministro do interior), políticas e judiciais. Às políticas do centrão sucedem-se, nos últimos anos, a alternativa entre manter o essencial do estado de direito e a subversão do estado de direito, como aquilo que a Comissão Europeia condena na Polónia.
Em Portugal, com os casos Casa Pia, Sócrates, Manuel Vicente, a politização da justiça e a judicialização da política mostram-se vivazes. No Brasil a situação ainda é mais gritante.
Os democratas devem defender os direitos de todos, incluindo os dos fascistas, de serem tratados como gente, com os direitos a que todos temos direito. A recolha de perfis de arguidos, prevista para cumprir 30 mil ao ano, que apenas não funcionou por falta de investimento, é uma lei propícia a ser usada por quem tenha do direito uma abordagem instrumental e anti-humanitária. É uma lei que deve ser abolida. Antes que lhe seja dado o único uso possível: mau uso.
Foto: pesquisa Google
01ago18

Qualquer Estado, por essência constitui-se como um árbitro especial. Além de vigiar as faltas em campo arroga-se ao poder de mudar as regras do jogo. É o que se chama o “poder de Estado” que as pessoas e as classes políticas consideram como normal e democrático, mesmo que não haja nenhum Estado democrático. Considera-se que esse poder é algo inscrito nas estrelas, estrutural, essência das sociedades democráticas; mesmo que estas se cinjam à ausência de uma censura formal (ela existe internamente, nos media… e de que maneira), a romarias eleitorais em que os da “situação” trocam de postos com a “oposição” com a rotina de um render de guarda num quartel a que os paisanos podem assistir e participar como numa festa estival animada pelos Tony Carreiras
Considera-se que faz parte do “poder de Estado” o uso da repressão, da definição dos meios que materializam aquela, da afetação dos “recursos” necessários, sobretudo desde que Bush filho decretou a guerra ao Terror; como faz parte do “poder de Estado” a escolha dos alvos que tanto podem ser energúmenos como os Hell’s como a pobre Maria de Lurdes que terá ofendiso o tal sacrossanto “poder de Estado”. Isto é, a chamada democracia resume-se a um nome sem conteúdo ou melhor, com conteúdo variável, de acordo com as circunstâncias, pretendendo-se que a plebe aceite, por axioma, como legítimo o que é emanado pelo “poder de Estado”. De facto, quando o “poder de Estado” é tão vasto, volúvel e elástico é uma aberração falar-se de democracia; ainda que se vote e se possa dizer mal do governo, possibilidades que não existiam em regimes assumidamente não democráticos
A questão dos refugiados/imigrantes tem vários ângulos de abordagem.
As suas origens são áreas previamente intervencionadas pela colonização clássica, pelo neocolonialismo ou pelos saudáveis bombardeamentos da NATO… ou dos sionistas. Todos, com o selo da civilização
A precarização perante o trabalho e a vida atinge o grosso da população, isto é, jovens qualificados, não qualificados, trabalhadores em geral sempre ameaçados de reestruturações, de tempo de trabalho não pago, de desemprego, de contenção salarial e despedimento e ainda os mais velhos sobre os quais pende a ameaça de falência dos sistemas públicos de segurança social que os governos levam a cabo lenta e sorrateiramente.
Sai mais barato importar um trabalhador qualificado que deixa na origem os custos da sua formação do que formar um jovem no seu rico país de origem. Por outro lado, a precarização de vida/laboral (são inseparáveis, naturalmente) atinge de frente a taxa de natalidade e manutenção (o crescimento populacional na Europa é baixíssimo) apontando para quebras enormes de população.
No Japão, os atuais 127 M reduzir-se-ão a 88 M em 2065; e em Portugal no mesmo período a população decairá cerca de 2.5M. Na Europa rica – nomeadamente Ilhas Britânicas, Alemanha, Suiça, por exemplo, a população cresce à custa da importação de gente; e, como estes recém-entrados rapidamente, perante as condições de vida não irão ter natalidades explosivas, o problema de gente para trabalhar será recorrente. E, perante um crise mais profunda, a qualquer momento serão recambiados para as regiões de origem
Para que este modelo se reproduza é preciso que o PIB cresça e cresça e cresça. Mas, como o consumo não é capaz de gerar o crescimento adequado; como existem limites ambientais e climáticos, o capitalismo faz crescer o PIB com baixo recurso de mão de obra e sem grandes custos ambientais, através da financiarização e dos mecanismos de geração de dívida
Algo está (bastante) mal no reino da Dinamarca, diria Hamlet