Sem propostas ou programas previamente elaborados para um período de férias em ambiente familiar no concelho de Sintra, mais propriamente na metrópole multicultural de Agualva/Cacém, entre a paisagem urbanística de extraordinária pressão de betão que ocupa literalmente montes, vales e encostas em que outrora predominavam florestas e campos agrícolas, atravessados pela linha de Sintra, cujo primeiro troço entre Alcântara-Terra e Sintra.
Troço que foi inaugurado em 1887, seguindo-se em 1891 a ligação ao Rossio, ambas duplicadas em 1949 e eletrificadas em 1956. Ou as praias de diferentes paisagens, como a praia da Adraga, praia Grande, das Maçãs e Azenhas do Mar, bem como as mais a sul em Cascais e Oeiras, em que se mergulha no mar ou na serra de Sintra sempre com paraísos verdes e frescos por descobrir e contemplar, incluindo os patrimónios urbanos, sociais, culturais e humanos, que se descobrem nas aldeias camufladas por tal paisagem ambiental absorvida em toda a sua plenitude, particularmente pelo turismo internacional, com programas, esses sim, previa e devidamente elaborados para o seu poder de compra, bem distante do nosso salário mínimo, que neste caso se ajustou a uma visita surpresa ao Mercado Medieval na vila de Óbidos.
José Lopes
(texto e fotos)
Ora, como cada um adapta as férias à sua bolsa, caso não se iluda na tentação de contrair empréstimos tão publicitados numa nova maré de facilitismo e estímulo ao consumismo, segundo interesses da banca, para fazer férias agora e pagar depois, com juros que naturalmente agravarão o orçamento familiar nos meses seguintes. Só mesmo uma agradável e surpreendente surpresa, para quem desejava conhecer a vila de Óbidos, mais pela divulgação na TV de alguns eventos culturais anuais, poderia marcar tal inesperada viagem de automóvel pela região do Oeste no distrito de Leiria, que acabaria por desembocar numa vila instalada no interior de uma vistosa muralha com o seu castelo medieval, que funciona como cenário para recriação histórica de um já tradicional Mercado Medieval.
O Mercado Medieval de Óbidos, um evento anual que nesta época do ano arrasta multidões, a exemplo de outros eventos congéneres pelo país, foi no nosso caso uma autentica surpresa descoberta tardiamente que só mesmo a distância de cerca de 90 km para cada lado, se limitou a algumas horas de um curto dia para encarnar todo o património histórico ali representado num palco recheado de atividades, funcionando como convite a uma inesquecível viagem ao passado medieval, que certamente, só mesmo neste tipo de recriações históricas queremos fazer recuar a tal época, enriquecida pela diversificada oferta gastronómica ou de artefactos artesanais que dão vida e cor ao Mercado Medieval entre 12 de julho a 5 de agosto, visitada por povos de varias línguas que ali se cruzavam e conviviam, em muitos casos envergando diferentes indumentárias alusivas a épocas medievais que podem ser alugadas na própria vila de Óbidos devidamente engalanada para receber os forasteiros.
Neste ano de 2018 o tema celebrado pelo Mercado Medieval de Óbidos foi a Água, numa abordagem entre os tempos medievais e a sua importância na atualidade. Lembrando mesmo que este foi dos primeiros concelhos do país a ter água, como se pode observar pelo património que representam o aqueduto mandado construir pela rainha D. Catarina de Áustria em 1570. A água como essencial à vida esteve assim durante estes dias na base da cenografia e da animação do mercado, destacando-se as suas vertentes como fonte de superstição, medo, fertilidade ou do imaginário, com quadros teatrais representados ao longo de ruas, largos e praças que nos transportam para tempos da idade média. Associou-se ainda esta edição, às “comemorações dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães”, que integram um programa com início no próximo ano.
Embrenhar-se pelo Mercado Medieval foi uma autentica aventura dominada por todo um ambiente encenado e protagonizado, não só por todos os atores que representavam cenas de épocas medievais, como todos os voluntários e trabalhadores, nomeadamente das muitas tasquinhas e sua oferta na restauração, dinamizadas por associações do concelho com venda de produtos medievais, que tornam possível tão grandioso projeto cultural com múltiplas atividades em simultâneo, em que se veem trovadores, danças ou torneios de armas e cavaleiros. Cenário natural vivido no interior das muralhas e do castelo, em que os visitantes são, não só uma espécie de figurantes, mas também ativos intervenientes protagonistas num espetáculo de vários dias em que a vila de Óbidos se envolve e afirma com sucesso na música, na pintura, no teatro, na literatura e nas narrativas de histórias e estórias.
Desejar espontaneamente neste período de férias dar um “saltinho” à vila de Óbidos, foi também recuar muitos séculos no tempo, quando ficamos perante um castelo referido documentalmente desde 1153 na vila que recebeu a sua carta de foral em 1195 e de que se podem destacar entre os seus elementos históricos, a vila ter sido doada como presente de casamento por D. Dinis (1279-1325) à Rainha Santa Isabel durante as núpcias que ali terá passado. Mais tarde (1383-1385), contra a vontade dos moradores Óbidos e o seu castelo foram entregues a João I de Portugal. Já sob o reinado de D. João II (1481-1495), a Rainha D. Leonor viria a escolher aquela povoação e seu castelo para residir após o falecimento por acidente de seu filho único. Entretanto o terramoto de 1755 causou sérios danos na estrutura do castelo e no contexto da Guerra Peninsular, a fortificação de Óbidos disparou os primeiros tiros de artilharia na batalha de Roliça (1808), que viria a ser a primeira derrota das tropas de Napoleão.
Castelo, muralhas e todo o conjunto urbano da vila de Óbidos estão classificados como monumento nacional e começaria a partir de 1932 a sofrer as primeiras intervenções de consolidação, reconstrução e restauro a cargo da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, que se prolongaram durante pelas décadas seguintes na preservação e consolidação deste conjunto do património arquitetónico da vila de Óbidos, cujo castelo ergue-se na cota de 79 metros acima do nível do mar, com planta no formato retangular irregular (orgânica), misturando elementos dos estilos românico, gótico, manuelino e barroco, distribuídos por duas zonas principais: a do castelejo (atual Pousada do Castelo, ou Pousada de Óbidos) e o bairro intramuros em que o perímetro das muralhas é reforçado por torres de planta quadrada e cilíndrica, que alcança 1.565 metros, chegando em alguns trechos das muralhas a ter uma elevação de 13 metros de altura.
Património que inclui ainda o interior de uma capela com varanda, revestida de azulejo do século XVIII, que se pode contemplar na entrada, tal como pelourinho da vila entre tantos outros pormenores medievais que são dados a conhecer aos visitantes independentemente do período do ano, em que a conquista de cada episódio histórico desta vila sempre surpreende quem a inclui, mesmo sem roteiro turístico previamente elaborado. Foi verdadeiramente o caso.
Pesquisa: Wikipédia
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