A viagem não chega a uma hora, neste caso, de Metro. Metro do Porto. Percorre-se a antiga linha ferroviária da Póvoa, reaproveitada para a nova e moderna mobilidade de transportes da Área Metropolitana do Porto.
Da Estação do Heroísmo partimos rumo a Portas Fronhas, que é como quem diz de viajem até às Caxinas, em Vila do Conde. “Lugar” que muitos pensam ser (e que para outros tantos deveria ser) freguesia, mas não é. É, porém, uma localidade piscatória, sui generis, marcada por algumas tragédias marítimas e, consequentemente, pela extrema devoção religiosa, neste caso concreto ao Nosso Senhor dos Navegantes.
José Gonçalves Mariana Malheiro
(texto) (fotos)
A viagem de Metro da estação do Heroísmo à de Portas Fronhas (Linha B – vermelha), utilizando o serviço “Expresso”, foi, praticamente, de uma hora, não incluindo um atraso de vinte minutos devido à avaria de uma composição, um problema frequente e de, pelos vistos, difícil resolução. Preço das viagens (ida e volta) : 5,60 euros.
A partir da estação da Senhora da Hora, e saindo do perímetro urbano de Porto e Matosinhos, a paisagem modifica-se, com as zonas rurais a substituírem o edificado habitacional caraterístico das grandes cidades.
Os milheirais acompanham-nos em grande parte da viagem, interrompido o “cenário”, aqui e ali, por alguma indústria e, pontualmente, por uma grande superfície comercial (em Modivas), a qual atrai, diariamente, milhares de pessoas.
Passando a ponte sobre o rio Ave e entrando em Vila do Conde, estamos a poucos minutos de Portas Fronhas (a antepenúltima estação da linha). Ao longe, o Mosteiro e o Aqueduto de Santa Clara símbolos de referência do concelho vilacondense.
É altura, então, de preparar “bagagens” e sair na estação que poderia também referenciar o nome das Caxinas, tão popular que ele é e pouco associado que está a Portas Fronhas.
À chegada, e dirigindo-nos para o bairro piscatório e praia, deparamos de imediato com o apelo às Festas do Senhor dos Navegantes que, por esta altura do ano, atraem milhares de romeiros a esta “castiça”, por singular que é, zona noroeste de Vila do Conde.
Depois de passar por duas superfícies comerciais (ambas do ramo alimentar) seguimos pela arborizada e limpa Avenida Dr. António Bento Martins Júnior em direção ao mar. Quando nos referimos à limpeza, salientamos mesmo a forma como civilizadamente as pessoas tratam a sua terra e com a limpeza a enaltecem, basta olharmos atentamente para os contentores de lixo…
Para quem chega e é do Porto ficará, por certo, admirado com tanto asseio e mais ainda com o facto de, em terra piscatória, e ao contrário do que seria de pensar, não ver uma gaivota sequer a rondar caixotes do lixo ou outras coisas do género.
Os passeios ajudam-nos a descobrir um pouco mais sobre as características específicas desta localidade…
A avenida é um pouco longa, constituída, antes de chegar ao bairro piscatório, por moradias, estabelecimentos comerciais, uma escola e alguns prédios. O aviso que está a chegar à zona das Caxinas encontra-se logo numa esquina, local onde se vende o mais precioso bem da terra: o peixe fresquinho. Simpáticas mulheres apregoam-no de forma direta e muito simpática…
Continuamos rumo à praia, pela avenida que a liga à EN13, para ao lado direito e já com o mar à vista, surgir, então a Igreja Paroquial do Senhor dos Navegantes. Com um desenho arquitetónico a lembrar um barco, o seu interior apela a tudo quanto está relacionado com o mar, com quem nele labora e dele depende, ou quem nele perdeu a vida. Vale a pena visitar esta igreja…
Sejam bem-vindos às Caxinas…
Depois de visitada a igreja, dirigimo-nos pela marginal até ao pequeno mas simbólico mercado local. Todas as terras têm o seu mercado ou mercadinho que é sempre bom visitá-los, uma vez que encontra-se por estes locais o verdadeiro pulsar das gentes.
Primeiro passamos junto à praia. O tempo estava convidativo a banhos. A temperatura era amena e não havia nortada. Mesmo assim, não estava muita gente na praia, não faltando, contudo, o vendedor de Bolas de Berlim. Lá ao fundo, e entrando mar dentro, o Cruzeiro, na inça, portinho ou praia dos barcos, chama de imediato à atenção
No mercado…
Continuando pela marginal, deparamos com um monumento que tem um valor simbólico muito importante para os caxineiros, tratando-se de memorial aos náufragos, popularmente conhecido pelo barco de cruzes, obra do arquiteto Manuel Maia Gomes, mandada erigir pela Câmara Municipal de Vila do Conde.
Esta obra de arte releva também o “apego à vida” que ficou bem exemplificado com o caso do naufrágio do “Virgem do Sameiro”, em Novembro de 2011. A tripulação salvou-se, mas passou mais de 57 horas no interior de uma balsa, antes do resgate pela Força Aérea. Mas, acima de tudo, faz recordar todos aquele que pereceram no mar vítimas de naufrágios, tragédias que os caxineiros recordam para todo o sempre, depois de perderem familiares e amigos nessas batalhas perdidas com o mar que, por sinal, é o sustento da terra.
Ainda na marginal – ou melhor: pela avenida Infante Dom Henrique – continuamos a presenciar a vida na praia, para depois inserirmo-nos na vida do bairro.
O lugar/bairro piscatório é constituído por diversas ruas paralelas umas às outras, muito idênticas às de outros aglomerados piscatórios designadamente, e entre outros, de Espinho, Afurada e Furadouro. As casas, na sua maioria térreas, são, no exterior, pintadas em azulejo, retratando, muitas delas, o barco que pertenceu à família, como aos de à vela nas denominadas “cascas de noz”. Outras há, porém, com as pinturas garridas que são tradicionais neste tipo de bairros…
Estávamos a dois passos da Póvoa, aliás, precisamente na fronteira entre concelhos (Póvoa de Varzim-Vila do Conde), e a terra poveiras nos deslocamos ficando a devida reportagem para um outro “De Visita”.
Mas, nas Caxinas ainda por lá ficamos um pouco mais, sendo de realçar, e ainda no que diz respeito às casas, ser pouco comum a representação do passado marítimo familiar em bronze, mas que existe esse tipo de trabalhos, existe, expondo não os barcos locais, mas os frágeis “dóris”.
Os caxineiros também não se esquecem de quem guardam boas memórias, perpetuando-os em algumas paredes das casas da localidade, como é este o caso…
Fica assim, o convite para visitar as Caxinas, e, uma vez lá, saborear a gastronomia local (a Caldeirada de Petinga, com batata e farinha de pau), depois de uns mergulhos e uns bons banhos de sol.
Seja como for, depois de visitar esta localidade – que ainda não é freguesia, independentemente de ter traços muito peculiares e bem diferenciados de outras de Vila do Conde, mas idênticos ao de Poça da Barca que tem, por assim dizer, a mesma identidade e podia fazer parte da mesma “região administrativa” -, pode decidir-se por dar uma saltada ou à Póvoa de Varzim ou então ao centro da cidade vila-condense. Qualquer dos destinos é de excelência.
Fica, assim, o nosso convite para visitar as Caxinas, terra, aliás, onde nasceram alguns “craques” do futebol nacional como, entre outros, André, Fábio Coentrão, Bruno Alves, André Vilas-Boas, ou Paulinho Santos…
01ago18
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